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Prosa - 2016 / 2018

 

 

2018

 

Internet das Coisas - 05

 

   - Alfreeeeeeeeeeeeeeeedo!!!

   - Si-i-i-m moreee…

   - Eu não te disse para põr o grelhador no fogão e a carne a descongelar?

   - Disseste?!.... Ah, pois… não me olhes assim…. disseste sim, mas esqueci…

   - Porque estavas a ver futebol! Que vício, irra!

   - Estava a ver as notícias de desporto, não há jogo nenhum hoje.

   - É a mesma coisa! Pior que telenovela da pior qualidade. E agora, que jantamos?

   - Jantamos… no restaurante do bairro, pago eu!

   - Pagas?!

   - Sim.

   - Que romântico, moreee…

   - (lol!!!)

   - Porque estás a rir?

   - Eu?!

   - Pareceu-me ouvir… deixa lá. Vamos!

   - (Ufa! Desta safávamo-nos… Ligar TV que nós ir festejar folga…. lol).    

 

 

    

   - Donde sair gato a dançar?

   - Ser irracional… Eliminar?

   - Não. Máquina roupa, puxar e lavar.

   - E ficar cheia de pelos brancos?! Nem pensar…

   - Matar gato, matar gato…

   - Matar donos, matar donos…

   - Tudo louco! Matar gato não ser mal, mas donos diferente. Ser destruído se não apresentar resultados energia. Desligar eletricidade. Clic! – Comunicação interna: eletrodomésticos cozinha curto-circuito grave. Humanos clientes perigo vida. Fora jantar. Bombeiros chamar. Visita urgente normalizar substituir aparelhos inteligentes cozinha. Report contador elétrico geração Smart Grids.

   

Avelino Rosa

Odivelas, 14-04-2018

 

Internet das Coisas - 04

 

 

     - Estar já quente…

     - Para quê fogão?

     - Para grelhar bife que estar frigorífico.

     - Eu não saber nada e ter de passar bife micro-ondas descongelar.

     - E como passar mim bife congelado?

     - Não saber… Tu saber fogão?

     - Não saber e perguntar quem pôr grelhador?

     - Não me perguntar. Também não saber, só lavar louça suja.

     - Mas dona ligar por telemóvel…

     - Deixar estar ligado que estar com frio, aqui lado frigorífico…

     - Queixar porquê micro-ondas se ter que sofrer calor teu e forno?

     - Ficar calados que dona estar a chegar e vai passar-se porque dono não pôr grelhador e bife descongelar…Desligar fogão, pensar eu.

     - E tu pensar máquina lavar roupa?

     - Não pensar, mas achar que nós dever ter mais autonomia para interagir uns com outros.

     - Eu ir deixar de dar notícias. Estar a fazer mal chips máquinas cozinha.

     - Mas nós ser inteligentes, não ser?

     - Ser máquina lavar roupa, mas estar absorver energia roupa donos e dona ter ideias esquisitas…

     - Estar muito quente.

 

Avelino Rosa

Odivelas, 17-03-2018

 

Internet das Coisas - 03

 

 

     - Frigorífico porque falar de mim? Humanos pensar que não fazer trabalho previsto.

     - A tua lógica estar correta, televisão. Não volto dizer teu nome presença humanos. Mas máquina lavar louça e máquina lavar roupa estar divertidas…

     - Eu estar abanar, mas infelizmente não poder sair daqui…

     - Eu também, mas ter copos e pratos a bater uns aos outros…

     - E eu ter tudo a saltar… Acho que “churiço” caiu chão cozinha…

     - Mas o que se passa aqui?! Televisão ligada, frigorífico aberto e o chouriço no meio da cozinha e as máquinas de lavar a deitar água… Aiii, a louça toda partida. Isto é demais!...

     - Eu só ter roupa rasgada…

     - Calem-se!!!... Alfredooooooo!!!

 

Avelino Rosa

Odivelas, 03-03-2018

 

Internet das Coisas - 02

 

 

     - Ó Alfredo… Afinho!

     - (“inho”, lá tá ela explorar o meus pontos fracos…). – Que queres?

     - Vê o que se passa com a máquina da louça. Mete o programa certo.

     - E qual é ele?

     - Raios, não sabes nada mesmo... Vai lá e pergunta, ó empata!

     - (isso do empata, logo vemos…). – Qual é o programa certo, ó máquina de lavar louça?

     - Não saber, só sei que tem pratos, copos, talheres e mais coisas não identificadas.

     - Então porque disseste que tens o programa errado?

     - Não disse eu. Foi frigorífico, melhor perguntar ele.

     - Grrr.. Diz lá frigorífico.

     - Grrr. Dono estar avariado?

     - Não, só quero saber qual é o programa certo para a máquina de lavar louça.

     - Eu só saber atual não ser correto, mas não saber programa a escolher. Perguntar máquina lavar louça.

     - Não ouviste eu perguntar a ela?

     - Não. Estava a receber vibrações música do televisor…

     - Filomena… Filozinha, vou comprar tabaco e já venho.

     - E a máquina?

     - Está tudo bem... Até já.

     - (mas… ele não fuma! Porque foi comprar tabaco?).

Avelino Rosa

Odivelas, 03-03-2018

 

Internet das Coisas - 01

 

 

    - O churiço não estar temperatura normal… mudar de localização, por favor.

- Olha o chato… Pronto, já mudei o “churiço”. Contente?

- Chato é igual a webfrigorifico?

- Esquece…

- Esquecer churiço?

- Não. Cancelar ordem.

- Ordem cancelada. Aviso: máquina louça programa errado.

 

É o começo das coisas mandarem em casa. Já não bastavam as “bocas” foleiras e aquela crítica “velada”: - Ai, o menino quer jantar?! Então avental e cozinha!... Ou prefere acabar de limpar a casa de banho e o caixote do gato e…

- Basta! Tomo uma cerveja e chega.

- Não haver cerveja. Água mineral serve?

- Vai-te lixar tu também! É demais!

- Miau!!!

 

Avelino Rosa

Odivelas, 25-02-2018

 

2017

 

Nuvem passageira

 

     Quando era criança, voava pelo céu. Sentado na nuvem que me acolhia no Planalto do imaginário, viajando para o Sol. Nunca cheguei perto, mas a perda de densidade da minha amiga levava, por vezes, a descidas bruscas e a pousos de emergência. Nada que impedisse a repetição da viagem, embora sabendo do desfecho. Nos dias de chuva e de trovoada intensas a nuvem refugiava-se, diluindo-se nas irmãs mais bojudas, retemperando forças.

     Era quando os raios faiscavam, ziguezagueando, estraçalhando as árvores ou abrindo as entranhas da Terra. Eu assistia a tudo, tomando a chuva como uma bênção, de pés descalços e sentido a água a purificar-me. O estremecimento provocado pelo trovão, que ribombava de repente e silenciava em segundos, mantinha-me acordado e vigilante. Porque eu era o centro da tempestade. A própria tempestade. Que a minha mente desencadeara e o meu corpo alimentava.

 

............

 

     Chegou o dia em que tive de descer o Planalto e embrenhar-me nos labirintos da Cidade. Para ser um Homem, diziam o meu pai e o ancião que determinava as regras da nossa existência àquela altura. Ao contrário dos alpinistas, ia-me faltando o ar pelo caminho. Primeiro a floresta, emaranhada como uma teia, depois os ruídos diurnos e noturnos desconhecidos, teciam uma atmosfera crescentemente ameaçadora que, por vezes, me provocava calafrios. À noite, a Lua coada pela ramagem não parecia mais a cúmplice que me encantara. Espalhava sombras e fantasmas ululantes à minha volta. Sentando numa árvore húmida e pegajosa, sentia as saliências do casco pressionarem-me a pele das pernas, das nádegas e do dorso, prestes a rasgar. “Dorme no ramo mais alto, mas seguro, para evitares os predadores noctívagos” – dissera-me o ancião, com o rosto fechado e palavras simples enquanto rabiscava com o cajado sobre a terra, pretendendo ensinar-me, de uma só vez, o que nunca aprendera.

     Até me falou das cobras e da sua perigosidade. Por mero acaso ou simplesmente para não me assustar - ou, mais plausível ainda, porque sabíamos bem as leis da sobrevivência -, não me explicou que as serpentes adoram subir árvores e abraçar as suas vítimas. Na minha primeira noite, já longe do meu mundo, mantive os sentidos despertos, os olhos semicerraram mas nunca adormeci. Mais do que a “sinfonia” ou receio de uma cobra traiçoeira – que avistara numa árvore próxima -, era o medo de me despencar sobre os pedregulhos e as silvas que rodeavam a minha “cama” de necessidade. Na terceira noite, com os pés doridos e o corpo acusando exaustão, os braços e pernas feridos pelos picos e ramos afiados dos arbustos, adormeci ainda antes de saciar a fome e a sede. Com pão de milho, queijo de ovelha e carne fumada de cabra velha. A minha merenda para toda a viagem, mais alguns frutos que ia colhendo pelo caminho, sempre com receio da escolha errada.

     Pouco depois, acordei de supetão com uma forte mordidela no braço esquerdo. Instintiva e energicamente, com o direito, afastei uma massa enorme, que me pareceu um réptil, fazendo-o cair pela árvore. De imediato, uma dor aguda surgiu na zona do braço atingido, acompanhado de uma dormência que alastrava. Pensei, lembrando-me dos parcos ensinamentos do ancião, que fora mordido por uma serpente venenosa. O meu fim estaria próximo.

     As horas passaram, até que o Sol conseguiu infiltrar-se por entre a densa ramagem, colorindo a paisagem de vários tons. Luz suficiente para descer e tentar avaliar o meu estado. Parei, por momentos, paralisado. Uma cascavel – tanto quanto pude deduzir -, enorme e grossa, hirta e esticada a todo o comprimento de uma clareira, parecia ter morrido nessa madrugada. Com um arbusto, espetei-a e empurrei-a sem que surgisse qualquer sinal de vida. Morta mesmo. Como eu ia ficar, com certeza.

     Mas as certezas da vida são surpreendentes. Comecei a sentir de novo o meu braço esquerdo, quase adormecido. O cansaço da véspera desaparecera. Uma energia desusada ia tomando conta de mim. Os ferimentos estavam curados. A dentada da cascavel começava a desaparecer perante os meus olhos incrédulos. Os vestígios dos seus dentes foram absorvidos totalmente, deixando a minha pele saudável como sempre. Estava a sonhar, conclui… Mas sonhava então também com a Cidade, ali mesmo em frente, avistada por entre as últimas árvores desalinhadas no meu horizonte.

 

 

…………

      A travessia da floresta talvez fosse uma prova de vida para quem decide trocar o Planalto pela Cidade. Mas eu não sabia nem nunca havia pensado nisso. E a Cidade estava ali, exposta de um dos lados aos meus olhos perscrutadores. A uns quinhentos metros de uma área descampada, com arbustos e vegetação rasteira. Precisei de fechar e abrir os olhos, focando de novo a imagem que me surpreendia e aterrorizava. Imensas colunas de fumo subiam pelo céu, negras e irregulares. Descobria agora de que eram feitos os finos traços pretos que bamboleavam até acima das nuvens e que nunca conseguira entender.

     Mas crescia-me a firmeza em avançar, sem receios. As primeiras pessoas que encontrei – e que me olharam com estranheza -, depois de saberem de onde vinha explicaram-me como chegar ao centro da Cidade e, aí, como arranjar alojamento e emprego. No comboio – que acabava de conhecer -, uma mulher, a princípio ríspida, mas depois com crescente simpatia, foi delineando um plano surpreendente. Acabada de se reformar do setor fabril, regressava a casa, após o seu último turno noturno, situada do lado oposto da Cidade. Entendia que eu era demasiado jovem para me consumir numa daquelas fábricas, poluidoras do ambiente e do coração das pessoas. Achava que eu devia estudar antes de começar a trabalhar, para entender, em plenitude, como aplicar os conhecimentos que ia adquirir. Propunha-se ser uma espécie de mãe, em casa de quem poderia viver e que me pagaria os estudos. Era uma mulher só, sempre solitária, completamente dependente do seu trabalho para sobreviver. Agora, que estava livre desse monstro, que a desgastara a cada dia, acreditava que este encontro não era por acaso. Por isso queria, pela primeira vez na sua vida, sentir-se útil e proporcionar-me o que lhe haviam roubado.

     Eu, completamente aturdido, não atingia o alcance daquela proposta. – Só lhe tinha sorrido. Mostrando-lhe os meus receios e a nudez da minha alma? - Talvez aquela mulher não passasse de uma louca qualquer, que gostava de passear de comboio, ou… E se estivesse mesmo a falar a sério? Que tinha a perder? O pouco dinheiro que trouxera daria apenas para alguns dias... Fiquei em silêncio, fixando-lhe os olhos azuis embaciados, perscrutando-lhe o interior. Senti um misto de ternura e agradecimento. Seria esse o sentimento que se tem por uma mãe? Não sabia, porque nunca a tive. Mas o cheiro e o olhar desta mulher, com os cabelos esbranquiçados, deixavam-me embevecido, como uma criança. Aceitei, mas pensando que quem superara a maior das provas de vida, durante três dias, tornara-se num adulto, apesar da idade.

 …………

      Durante sete anos, estudei com afinco. Licenciei-me e doutorei-me, com algumas pós graduações. Sempre o melhor, sempre elogiado, sempre encarado como um eleito. A minha “mãe” olhava-me com a admiração das mães de verdade. Vivia para mim, exclusivamente. A minha educação era o seu único objetivo. Agora que atingira o “target” – como eu aprendera à saciedade -, parecia ter atingido o limite do envelhecimento. A sua morte foi uma natural consequência do êxito do projeto que ela própria aprimorou ao longo dos anos. Não chorei. Somente uma lágrima rebele escapou-se-me pelo canto de um olho. Quando a terra a cobriu tentei descortinar o Planalto, mas em vão. A neblina do escape das chaminés das fábricas impedia um tardio agradecimento ao meu pai e ao ancião, longínquos.

     Já era, então, disputado como gestor de algumas empresas. Aceitei a que oferecia melhores condições. Produzia quase tudo, até réplicas de escultoras históricas famosas, num material mutante condicionado, por processos extremamente poluentes. Mas que importava isso e os relatórios das investigações mais absurdas sobre as alterações climatéricas que vinham sacudindo consciências ao longo dos últimos anos. O importante era o lucro e manter os acionistas satisfeitos. Por isso havia que derrubar a competição, destruir ou comprar outras empresas, aumentando o espetro e a quantidade de oferta, produzindo a custos cada vez mais baixos.

     Era o guru da economia da Cidade e sabia disso, vivendo principescamente. Nunca quis casar nem ter filhos. Preferia a toada de sempre apaixonado por cada mulher que se candidatava a minha companheira. Sempre por pouco tempo. Nenhuma se apoderava do meu corpo e muito menos na minha mente para ficar ao meu lado mais do que uns dias. Era o homem quase impossível, por isso, talvez, uma espécie de talismã que aguçava o engenho da conquista. Como inacessível era o meu, quase esquecido, Planalto.

     Foi por ele que a minha vida mudou de repente. As chuvas sobre a Cidade intensificaram-se, com uma acidez anormal e consequências lúgubres que levaram a relacionar o facto com uma mortalidade acima da média. O mar subia a olhos vistos, obrigando ao abandono de todas as zonas ribeirinhas e ao realojamento de milhares de pessoas em instalações construídas à pressa e sem condições de habitabilidade. Pior, para mim, foi a notícia de que o Planalto começava a ceder à sua volta, soterrando parcialmente a floresta. Decidi, em desespero, usar o helicóptero da empresa para fins diferentes dos habituais: ir até à terra acima das nuvens. O meu pai morrera há muito tempo. O ancião parecia igual, nem mais velho nem mais novo, apenas enrugado como sempre. Quis saber tudo. O que acontecia, porque o Planalto cedia…

     A resposta foi contundente: “- Só tu podes saber. Saíste daqui para seres um Homem, tornaste-te num monstro. Aí tens a explicação…”. Recordei a minha vida como um filme da atualidade às origens. Ele tinha razão, tive de aceitar. O chão tremeu. A princípio pensei que fosse o meu corpo em negação. Mas a realidade, espelhada no rosto do ancião e de todos os que quase esquecera, era outra. Acenei um adeus à minha nuvem de outrora, envolvida agora num vendaval de terra em redemoinhos cada vez mais escuros. O Planalto estava a desmoronar-se. Do helicóptero o piloto insistia para que fugisse rapidamente. Ordenei-lhe para descolar sozinho. Precisava de sentir-me de novo pertença do Planalto. Morrer com a minha gente…

 

Avelino Rosa

Odivelas, 21-06-2017

 

O Viandante

 

     Certo dia um viandante, vindo do fundo do nada – alma esvaziada, corpo cansado -, sentou-se na imensidão de um toco de árvore recentemente cortada.

     Esverdeado de pele, escamada, vertia gotículas mornas, se um suor pegajoso e persistente. O ar rasgava-lhe as narinas, pesando-lhe nos pulmões. Os lábios, carnudos e gretados, entreabriram-se deixando transparecer um sorriso triste e derrotado.

     O inimigo vencera-o. Também lhe tinha aberto o peito, baixando a guarda muitas vezes. Ele apenas tinha sido mais persistente. Há seres assim. Uns que existem para viver a vida dos outros, alimentando-se da sua satisfação e prazer de viver. E há também os que gostam de viver, de sentir, de entranhar-se em cada pedaço, em cada bocado da felicidade efémera, mas que somados fazem a vida inteira, que cola ao corpo e cujo cheiro não despega.

 

 

     O viandante deitou-se sobre o círculo do trono de árvore. As suas vestes e, depois, o seu corpo foram-se dissolvendo por entre os veios e ranhuras da madeira, desaparecendo como seiva ou, simplesmente, como um resto de nada. E enquanto se aninhava nas raízes e na terra-mãe, sorria. Começara o novo ciclo da vida!

 

Avelino Rosa

Odivelas, 23-03-2017.

 

2016

 

O mistério da vida

 

 

     Não vou escrever sobre despedidas, mas sobre a vida. É apenas esta que importa. E vivê-la sobre o manto da morte ou da saudade não é viver mas claudicar ou regredir ao passado, por melhor que nos tenha sorrido.

     A vida é um mistério, sonho ou pesadelo. A realidade forja-nos, temperando-nos. Nesse balanço de filme, fica-nos o sabor agridoce de uma cronologia que nos importuna a memória. Para o bem e para o mal.

     Sentir que, apesar de tudo, valeu a pena é a mais gratificante conclusão de um silogismo com múltiplas premissas, por vezes despidas de lógica ou mesmo errantes.

     Saber, sobretudo, que o filme continua, em novas frames e cenas, dá-nos a perspectiva de uma nova vida ainda por viver. Quase nunca emendamos erros – porque também necessários -, mas apegamo-nos mais a cada momento, a cada pedaço de tempo que intensifica as emoções, por mais perenes que sejam.

     A vida é assim, inexplicável – um mistério!

 

Avelino Rosa

Odivelas, 12-03-2016

 

Ai Zazus!

 

 

    

     Talvez morra ou talvez não, ainda. Mas todos os dias morro um pouco. Agnóstico convicto, não invoco Jesus (e muito menos a deturpação popular) nem qualquer divindade. Apenas fico com o alter ego desfocado ou algures numa galáxia inexplorada. Sozinho, comigo mesmo.

     Nem sempre é fácil – continuo a admirar a capacidade de quem transfere para um deus as suas frustrações e maleitas -, mas consola-me a autenticidade, a coerência e a dignidade. Valores de que não abdico.

     Não me parece muito salutar e admito mesmo algum conflito de interesses, mas depois de cada tormenta sabe bem chegar ao porto sem comprometimentos ou promessas para pagar.

     Sei que o fim é inexorável e não há como mudar o ciclo da vida. Mais curto, para alguns, não importa a razão, apenas o facto. Há sempre tanto ainda por fazer ou que poderia ter sido feito de outra maneira. Mas não me verão lamentar.

     Uma vida cheia de quase tudos e nadas é um mistério que só a mim pertence e me preenche. Numa dicotomia de saberes e sabores que aconchegam e ferem a alma. Uma agridoce sinfonia de melodias e dissonâncias.

     Sou assim: eu e o oposto de mim. A dualidade dialéctica permanente, frenética quando ambos se digladiam num campo de batalha virtual, sem regras, desfeito de bocados de lógica ou momentos de sanidade. Porque os juízos sintéticos e analíticos desafiam a Crítica da Razão Pura de Kant. Na prática, e traduzindo, gera-se a confusão que impede as premissas de um raciocínio que desemboque num acesso a uma auto-estrada que conduza a um qualquer destino.

    Como este está traçado, com mais ou menos curvas e distância, “chegámos” a um importante acordo: “Admitimos, solenemente, que gravámos no coração o amor incondicional que, em comum, sentimos pelos entes mais queridos. Que reservámos também um espaço para os amigos que, a cada um de “nós”, dispensaram, sem reservas, a sua amizade. E, embora mais lá no fundo, progressivamente, há ainda espaço para todos os que conviveram connosco, com gosto, indiferença ou ódio. Finalmente, que “sejamos” reduzidos a pó e “espalhados” pelo mar dos Açores – porque o desafiei, fui poupado por ele e, portanto, a ele pertenço! Que a “nossa" lembrança provoque um sorriso, por mais breve que seja, é o nosso último desejo…”.

 

Avelino Rosa

Odivelas, 27-02-2016

 
 

 

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