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Prosa - 2006 / 2015

 

2015

 

Gente de Fibra Ótica

 

     Amélia segurava o cabo trançado de fibra ótica de um dos lados e Amílcar do outro. Sobre o cepo de matar e desmanchar animais, com o cutelo bem afiado, Amílcar separou o cabo em dois com um golpe seco e único. Cada um ficou com a sua metade, com cerca de 20 centímetros.

 

O cepo de matar e desmanchar animais provinha do talho dos Visgodos, uma família que vivia, em boa parte, do abatimento ilegal de animais. O Estado, através da Polícia dos Alimentos e Bons Costumes, fechara as instalações, leiloando todo o recheio. Amílcar e Amélia compraram o cepo e algumas facas e cutelos para decorar a casa onde resolveram viver. O cabo de fibra ótica destinava-se a mais uma peça de decoração artística moderna, pensavam, para colocar numa das paredes mais despidas da casa, como ícone da célere comunicação global dos dias de hoje.

Dizia-se que o Visgodo mais velho, conhecido como o Estripador – de tal modo abria e arrancava as vísceras aos animais, ainda meio vivos a estrebuchar e talvez porque apanhara sífilis numa espelunca de putas, tendo algumas morrido misteriosamente -, se colocara à frente do Chefe da Brigada impedindo-lhe a passagem. Um tiro à queima-roupa na testa atirou o corpanzil contra a porta do açougue, nem sendo preciso chave para entrar. Há a versão dos amigos que diziam que se havia suicidado com honra em defesa do clã familiar, que comandava com mão de ferro e voz de trovão entrecortada por arrotos de bagaceira de figo. Outros, mais íntimos, que fora a forma mais expedita de por termo à vida evitando o sofrimento e desonra que a sífilis infligiria a ele e a toda a família.

 

     As pontas cortadas desafiaram a gravidade, dobrando-se para cima em direção ao rosto de ambos e, ao subir, iam desfiando-se do cabo em finos filamentos que começaram por entrar pelas narinas, ouvidos e, depois, pelas bocas, abertas de espanto e de uma impressão difusa, longe da dor.

     Depressa os filamentos desapareceram no interior dos corpos, multiplicando-se e acompanhando, paralelamente, cada vaso do sistema circulatório, até ao mais pequeno capilar, e o sistema nervoso, a par de cada nervo até às mais exíguas fibras cerebrais. Restou a capa contra interferências eletromagnéticas.

 

O cabo de fibra ótica ficara das obras do apartamento que haviam comprado nos arredores da Cidade. A casa estava equipada com a mais recente tecnologia. Os eletrodomésticos podiam ser comandados à distância pelo telemóvel. O frigorífico fazia a autogestão dos produtos normalmente consumidos, debitando para a impressora Wi Fi a lista de compras semanal. A rede informática caseira permitia o acesso à internet em qualquer ponto da casa, mesmo na sala de banho. A temperatura, interior e exterior, e a previsão do tempo corriam em legenda nos computadores fixos e portáteis, nas televisões e, em pormenor, nos monitores da sala e cozinha da míni estação meteorológica. Quase todos os equipamentos obedeciam também a comandos de voz. Como os televisores, gravadores e leitores de imagem e som, micro-ondas, cilindro de aquecimento de água, luzes por setor, jacuzzi – direcionando e variando a intensidade dos jatos de água -, ligação e regulação da temperatura central e até a variação das massagens produzidas pelo colchão da cama de casal, deleite de ambos.

 

     Compreende-se, assim, que, além do susto, Amílcar e Amélia, apesar do estranho fenómeno e da quantidade de fibra ótica absorvida, não tenham dado importância de maior ao sucedido. Na verdade, usavam-na e respiravam-na como um elemento indispensável que fazia parte integrante das suas vidas.

 

Talvez por isso nem tenham pensado em procurar auxílio, dando ordem verbal para o portão da garagem abrir e usarem o seu Land Rover para chegar rapidamente à Urgência de um Hospital. Beberam um copo de leite – que, nas memórias que guardavam dos bisavós, era um antídoto para muitos venenos, admitindo remotamente que a fibra ótica pudesse conter algum elemento tóxico…

 

     Calmamente, como se nada tivesse acontecido, resolveram ver um filme de ação em 3D que tinham comprado no dia anterior. Os estores fecharam com uma simples “fechar estores” e a sala escureceu realçando a imagem do televisor gigante na parede em frente aos sofás.

 

     Com os óculos 3D colocados, Amílcar e Amélia desfrutavam as imagens da tela confortavelmente instalados em sofás de couro castanho-escuro, com diversas colunas e dois subwoofer, colocados estrategicamente pela sala. Com o sistema de home theater, os altifalantes debitavam muitos decibéis de som, fazendo trepidar alguns objetos decorativos ou da garrafeira, varrendo com um ressoar arrepiante o chão e as paredes, como se estivessem dentro de cada cena.

 

 

      O filme começava por imagens aquáticas de um possível vulcão prestes a explodir. A água aquecida de repente, pela lava incandescente, afastava todos os seres marinhos com a velocidade que o criador lhes permitira. Os camarões com grandes antenas saiam do écran e corriam para o meio da sala, parecendo ir chocar com Amílcar e Amélia.

 

      - Apanha alguns! – Gritava Amélia, rindo toda excitada. Amílcar sorria, enquanto fazia o gesto de agarrar as imagens projetadas pelo 3D.

     - A moreia mordeu-me! – Gritou de novo Amélia.

     - E agora vem aí um tubarão… Tem cuidado! – Retorquiu Amílcar a gozar.

 

     Mas o tubarão veio mesmo, esfumando-se de seguida. Com a boca aberta, mostrando os dentes horripilantes de predador implacável. Amílcar, numa última fração se segundo, dobrou-se todo para o lado de Amélia, mas ainda sentiu o impacto no ombro esquerdo. Do lado oposto onde se encontrava Amélia. Olhou então para ela, preocupado, vendo que agitava a mão esquerda ensanguentada e sem alguns dedos. De imediato levou a mão direita ao ombro com que o tubarão chocara e sentiu-a molhada, parecendo-lhe ensopada em sangue. “- Luz… todos os setores… ligar!”, Todas as luzes da sala acenderam-se, enquanto tiravam os óculos 3D, em pânico. Levantaram-se e olharam demoradamente para a mão e para o ombro. Não faltavam dedos, não havia danos no ombro e nem vestígios de sangue. E as mãos? Estavam de facto molhadas, mas não de sangue. Antes, de um líquido castanho-escuro com uns laivos esverdeados e pegajosos.

 

     Mais um valente susto, o segundo na mesma tarde. Lavaram as mãos e o líquido desapareceu fácil e completamente. Resolveram então desligar todos os equipamentos e luzes da sala e sair para espairecer e jantar. Como se as emoções, apesar de muito fora do normal, pouco os afetassem.

 

O mais curioso é que nem davam já qualquer importância ao facto de terem fibra ótica no interior dos corpos. Como se isso fizesse parte da remodelação da moradia e fosse mais um prolongamento da extensão dos cabos e ligação dos equipamentos… Sorriam, quando se lembravam do sucedido. A verdade é que não sentiam qualquer diferença dentro de si. Tudo parecia normal e até, em abono da verdade, experimentavam uma disposição e agilidade de movimentos que os entusiasmava.

 

     Já na rua, pareciam levitar com os ténis sobre as passadeiras e passeios, caminhando numa velocidade pouco usual e que atraia olhares curiosos dos transeuntes. Os pés não assentavam no chão, caminhando como sobre uma fina almofada de ar que projetava os corpos um pouco para cima mas, sobretudo, para a frente numa passada rápida e mais comprida que o ângulo das pernas. Pararam junto de um restaurante que anunciava, em néon: “Comida asiática – Chinesa e Japonesa e Outras”. Entraram, mais por curiosidade do que adeptos de comida exótica e de fusão. Nisso eram fiéis à comida de plástico e a uma sandes de qualquer coisa sem calorias. E o Ginásio mantinha-os com corpos invejáveis.

 

A comida de fusão estava na moda, com muitos adeptos por todo o Mundo, mas os “Outros” era, de facto, uma incógnita, sobretudo para não adeptos esclarecidos da gastronomia exótica. E, na verdade, não havia qualquer fusão neste caso. Apenas diferentes pratos de comida asiática. A zona de buffet apresentava pouco de outras, mas bastante de comida chinesa e japonesa.

Amílcar e Amélia retiraram os pratos e começaram a conjeturar, em surdina, a comida que haviam de escolher, já que a desconheciam. Amélia apontou com o dedo para qualquer coisa parecida com chamuças, mas, antes de a retirar com a pinça de metal, uma voou literalmente para o seu prato. Amílcar apontou para outra iguaria e os camarões e acompanhamento fizeram uma espécie de feixe entre a travessa de metal e o prato. Felizmente, ninguém estava próximo deles naquele momento. Na verdade, começavam mesmo a habituar-se a esta nova condição. Amélia colou uma mão sob o prato e deixou-o, por momentos. no ar. E o prato não caiu. Ficou firme, no mesmo lugar, movimentando-se apenas quando empurrado.

Voltados à mesa, com os pratos cheios de comida variada, impunha-se usar a faca e o garfo ou os fachi – os conhecidos pauzinhos. Por norma, vêm em embalagens de papel, com a madeira ainda ligada na parte superior, exigindo um pequeno esforço para a separação. Mas muitos restaurantes disponibilizam já um elástico comum que, após aquela separação, pode ser enrolado nessa ponta, de modo a facilitar o seu manuseamento, para quem não domine essa arte. Para os expert os fachi originais são maiores e muitas vezes de plástico de qualidade ou mesmo de marfim.

Amílcar e Amélia nem hesitaram e pediram os pauzinhos. Apesar de ambos serem dextros, experimentaram com ambas as mãos. O funcionamento era simples e perfeito. Os pauzinhos posicionavam-se de moto próprio corretamente entre os dedos, apertando os bocados de comida que levavam à boca. Especialistas, diriam os chineses e japonês que os observavam de soslaio. Habitues, diriam os outros clientes que tinham o privilégio de estarem nas mesas mais próximas.

 

     De regresso a casa, apesar do abandono excecional da dieta diária, continuavam a sentir-se leves e flutuantes sobre o caminho, percorrendo cerca de quilómetro e meio em poucos minutos. À entrada do prédio, Amílcar tropeçou no degrau e estatelou-se no chão de mármore. Com um bocado de sorte não bateu com a cara no chão ficando apenas com as mãos sujas e o pé de embate dorido e a manquejar. Amélia teve pior sorte. Ao entrar no elevador, tropeçou também, batendo com a cara no corrimão. Um dente partido e uma bochecha a inchar rapidamente. Qualquer coisa acontecera, que os deixara, tal como dantes, normais e meio desastrados.

 

     Chegado ao andar do seu apartamento, junto da porta, um prospeto A4, profusamente colorido e ilustrado, que dizia:

 

 “A nossa fibra é a melhor e a mais rápida e a que assegura maior e constante velocidade. Face à concorrência, oferecemos os melhores pacotes de televisão, telefone e internet. Porém, após a termos instalado em sua casa, não diligenciou pela assinatura de contrato depois do teste experimental gratuito, que acabou de expirar. “Observações: não nos responsabilizamos por eventuais efeitos colaterais que a nossa fibra provoque, sobretudo quando inadvertidamente ingerida – menção obrigatória por força da diretriz dos Serviços de Saúde”.

    

     Perante o sucedido, Amílcar e Amélia resolveram ir fazer o contrato a um Centro Comercial, mesmo a coxear e doridos. Com o contrato receberam um Manual de instruções para aprenderem a potenciar e, ao mesmo tempo, controlar os efeitos colaterais. E conseguiram estabilizar a sua vida em quase todos os aspetos. Apenas um continuava por resolver e, muitas vezes a fazê-los perder o sono. Era quando faziam amor. Os corpos ganhavam uma luminosidade esverdeada e ficavam transparentes, mostrando órgãos, sangue, ossos e tudo o mais que por lá havia… Até aprenderem a usar uma máscara e imaginarem um diferente amante de cada vez. E assim viveram felizes, para todo o sempre, enquanto se manteve a fibra (ótica)!

 

Avelino Rosa

Odivelas, 22-02-2015

 

Ao correr das teclas... - I

 

     Dizia-se “ao correr da pena”. Agora teclamos. A pena ficou nos tinteiros vazios de museus ou como simples peça decorativa de escritório mais tradicional ou austero. Objeto que deixei hum passado já bem longínquo. E que me lembra apenas as letras com a tinta esborratada, o mata-borrão secando-a, os punhos da camisa irremediavelmente estragados. Os aparos entortados pela agitação intempestiva da energia descontrolada. Um suplício que não acabou com as esferográficas, que derramavam a tinta nas algibeiras, sobretudo quando se aqueciam em demasia para liquidificar a carga.

    

     Faz-me lembrar o parvo do amigo do meu pai que acendeu um isqueiro debaixo do termómetro ambiente e o mercúrio a derramar-se no chão em gotas sólidas, maleáveis, que se movimentavam no soalho com uma leve estocada de unha. Uma espécie de corrida nada aconselhável. Mas quem sabia que iriam substituir os termómetros por chips e passara a ver uma leitura digital, por vezes pouco provável? Que eu saiba não morreu ninguém por causa disso, pelo menos diretamente. E, só por pirraça, conservo ainda um termómetro desses para medir a febre e nunca falha. Dos digitais, uma meia dúzia, cada qual com a opinião de cada chip. Tal como os humanos. Nós e a mania de criarmos a divergência nas nossas próprias criações…

      

     Como a que acabei de ler (apenas o título, que deixei de ouvir televisão – disse bem, não deixei de ver, mas corto-lhe o pio e se por acaso vejo a imagem imagino, invento e reinvento o que poderão estar a dizer – diversão maior não pode haver…). Um tal dizia que fará tudo ao seu alcance para um fulano não ganhar as eleições. Eles têm nomes, claro, mas também deixei de os pronunciar, porque me provoca um estranho catarro e, ao cabo de algum tempo, mesmo uma faringite que me consome a voz. Sou um homem doente, está visto.

    

     Olho o Facebook e mergulho na poesia que toca, que se impregna na pele. Boas poetisas e bons poetas. Depois há também uns que escrevem a metro, diga-se. De rima fácil, complexa e algumas que nem ao Diabo lembram. Mas há que exercitar a mente e os dedos. Força companheiros! Depois os ditados, as frases célebres, as máximas filosóficas. Há quem ande à cata disso e muito bem, eu dispenso. Como dispenso os convites para jogos. Que mania… Pessoal não há mais nada para fazer por aí? Um livro, daqueles com capa, mais ou menos folhas e umas letras que formam palavras e as palavras frases e ideias e por ai fora. Sobretudo põem a mente a pensar, a viajar pelo tempo, pelo espaço, pelo Mundo – o redondinho a que chamam Terra, mas também ao outro, interior, cá bem dentro, que geralmente fica enriquecido com a leitura.

    

     E façam favor de ser felizes, como dizia o saudoso Raul Solnado.

 Avelino Rosa

Odivelas, 03-01-2015

 

2014

 

Os Trauliteiros

 

     Era um país retangular. Mais na horizontal do que na vertical. Quer isto dizer que o povo deixava passar o tempo a queixar-se de que nada estava bem. Com desdém, troçavam dos políticos, elípticos[1], useiros e vezeiros em artimanhas, manhas já bem conhecidas antes e após as eleições, como zangões[2] em permanente competição pela abelha-mestra. Mas o povo nada fazia. Ficava na apatia da cómoda negação. Esquecia a telha[3] com a habitual festa de simpatia e orgias.

    

     Havia apenas três partidos – o da Esquerda, o do Centro e o da Direita -, que se revezam no poder. A brincar, dizia-se que havia também o da Tia, que tudo via e comandava dos bastidores. Todos doutores, visionários e sabedores. De contas bancárias “parcas” e transparentes. Decentes como os servidores da Nação, que enriquecem, digo enobrecem, o tesouro nacional e pessoal, por mero mecanismo de osmose[4].

   

      - Ai, hoje a tia não me “osmosou” nenhum presente!... Que deprimente!

   

     A fibrose[5] ou qualquer outra noção de repúdio ou contestação de nefastos estupores, depredadores do sentido e unidade nacional, que tudo conspurcavam e levavam a mal, era equilibrada por um sistema judicial, objetivo e eficiente. Antigo na atuação mas ciente das malandrices e vigarices, procurava[6] investigar e documentar a prova, mesmo que tivesse de demorar anos, só parando perante a morte dos possíveis prevaricadores ou da prescrição dos factos incriminadores – o que raramente acontecia. Estão a rir porquê? Não se vê logo que tudo está bem no melhor dos mundos possíveis? – Já não refiro notas de rodapé visíveis, mas esta é de Voltaire quando estava com os copos e deu-lhe para a lapalissada[7]. Mas também não lhe serviu de nada, porque mesmo depois de morto acabou no Panteão de Paris em frente ao seu inimigo Rousseou.    

 

 

     O conto deixou de rimar por uma razão simples É que nos deixámos levar pela filosofia e caímos no logro como diria Nietzche. Tudo existe rotineiro e corrente. A volta a dar é um conto recorrente. Uns a remar contra a maré até se esgotar a força e determinação, os outros a resistir, como a lapa ao lapeiro[8] do apanhador, ação de desalojar radicalmente. Demente, por vezes, outras apenas para mudar, pensando ser diferente, refundindo a esperança que retorna milenarmente a entropia do imutável – a condição humana.

  

     Voltando ao meio da história, o Partido do Meio disse que ia, como devia, renovar a sua estadia no poder, completando as reformas, como se ainda houvesse a nau da torna viagem do Oriente, com especiarias, tecidos e escravos e muita aguardente. O da Esquerda exigia renovar a frota e melhorar as condições dos marinheiros, não explicando nem o investimento nem donde viria o ouro, esquecendo que até o Espírito Santo caiu em desgraça e, daqui a pouco, no esquecimento. O da Direita nem sim nem não. Talvez se junte a um dos lados, conforme o trânsito que haja após nova ida às urnas, para não lhe chamar eleições taciturnas, condicionadas. A democracia decepada, enfartada em metáforas e figuras de estilo. A diferença fica entre o táxi e o autocarro. Para outros o livro. Nenhum deles se lembrou que a Oriente e a Ocidente já não há nada a explorar, mas para aceitar e, quanto muito, partilhar. Apenas aqui, no velho continente, já um estorvo, com tantos valores como contradições se joga o futuro, escuro, bissetriz e mediatriz de um Mundo mudado, com os centros de poder alterados, fatalmente adulterados.

    

     Por isso este conto não retrata nem prefigura nada, apenas pretende alertar as mentes, confrontando-as com a realidade, abrir as cabeças de granito reprogramando a pedra dura, dar senso às mais amolecidas, tentando fazer perceber que todos somos necessários, convergindo e letais divergindo. O País é nosso. E por mais escândalos que nos entrem em casa e no trabalho, pelos meios de comunicação social e pelo aparelho do Estado, o Pais é mais nosso ainda. Se queremos, de facto, mudá-lo. É uma exigência que se nos impõe. Para nós ainda, mas sobretudo para os nossos filhos e netos.

    

     Dito este final com menos rima ainda, porque o verso e o reverso se tocam, agora e já é o combate pela cidadania que se entranha no nosso ser, por imposição dos valores e crenças que nos tornam gente, e que impõe vestir de gala a nossa dignidade.

 

Avelino Rosa,

Odivelas, 13-12-2014

 


[1] Elíptica é uma máquina de exercícios usada para simular caminhadas, corrida, percursos de bicicleta e subida de escadas sem causar pressão excessiva nas articulações, diminuindo as lesões de impacto.  [Wikipédia]. Por este motivo. Exercício muito popular entre os políticos.

 

[2] É o macho de diversas espécies de abelhas sociais, especialmente da abelha-europeia. Caracteriza-se pelo porte superior às obreiras e pela ausência de ferrão. Alheio às atividades de manutenção da colmeia, não produz mel porque não possui os órgãos essenciais para tais atividades. O seu papel é meramente de reprodutor. [Wikipédia].

 

[3] No sentido de estar chateado, obtuso, aparvalhado, etc… [Autor].

 

[4] Movimento da água entre meios com concentrações diferentes de solutos, separados por uma membrana semipermeável. [Wikipédia]. Assim acontece também na Alta e baixa finança. [Autor].

 

[5] No sentido médico vejam se quiserem. Aqui no sentido de capacidade de “Vibrar, una biga, una vara flexible, etc., sota l'acció d'una força que obra sobre seu en sentit transversal i a intervals” [Dic: Catalão]. Se não entenderam, o Autor também não, pelo que decido acabar com as notas de rodapé, já que não servem para nada nesta história.

 

[6] Tarefa dos Procuradores da República, quando esta existe... Ops, esqueci-me que não havia mais notas de rodapé.

 

[7] Esta tem de ser mesmo, porque La Palice, entre outras, nunca disse “Se não estivesse morto, estaria vivo”, já que foram alguns soldados que inventaram umas poesias brejeiras e mais recentemente a Lili Caneças

 

[8] Contra minha vontade tenho de explicar que ”lapeiro” é um instrumento artesanal, fabricado com uma ponta de metal, achatada na ponta, e cabo de ramo de árvore ou de chumbo, para retirar as lapas das rochas. Quem o usa não é o lapeiro, mas o apanhador de lapas, donde há que fazer esta correção face ao que é dito em sites da Internet.

 

Jardim dos Desejos

 

 

     Fim da tarde, lusco-fusco dos últimos dias de Outono. Dois ou três bancos com pares de namorados, arrulhando ao som roufenho da música de um rádio do quiosque, pendurado por um fio de náilon, como se facilitasse a captação das ondas hertzianas ou tentasse espevitar o desejo dos candidatos a amantes. Bem, com aquela música não deveriam despertar os sentidos e a verdade é que os namorados não viam e muitos menos ouviam o que se passava à sua volta, embrenhados que estavam em experimentar emoções e sensações, daquelas gostosas e que fazem esquecer tudo o resto.

     Num banco sob um velho pinheiro manso, cuja copa cobria uma grande área e ainda com uma pinha resistente, Aldemiro tentava decifrar algumas letras de uma revista amarrotada deixada ali por alguém que a encontrara sabe-se lá onde, tão tardia que era. Voltou a página, vislumbrando os contornos de uma mulher, talvez uma modelo e que lhe pareceu mais um sonho, a preto e branco. Fechou os olhos e tentou imaginar-se com ela ali ao lado. Saia a cair um pouco sobre os joelhos, as pernas com uns collants beges, terminando nuns sapatos castanhos rasos. Para cima, uma blusa também beije, deixando salientar uns seios razoáveis, e um casaco comprido a condizer com os sapatos. Abriu de novo os olhos e reviu o vulto da revista. Como inventara uma mulher e a sua indumentária a partir daquela sombra? O que faz a solidão pensou, com um sorriso amargo.

     Mas, só agora se dava conta de que não imaginara um rosto, o cabelo – loiro, moreno ou ruivo -, se era gorda, magra, o tom da pele… Nada. Nada de importante que definisse a mulher de que construíra apenas o invólucro. Congeminando, assustou-se com a queda da pinha que tardava em despegar-se. Pegou-lhe, primeiro observando que era compacta, escamda e castanha, tanto quanto a luz, já agora dos candeeiros, permitia distinguir a cor. Fechou as mãos sobre ela, rodando-a, como se a estivesse a aquecer com o calor do seu próprio corpo, enquanto ia pensando onde iria jantar nesse dia. Não lhe apetecia comer em casa sozinho. Iria a um dos restaurantes do Bairro, o mais barato, que a vida não estava nada fácil. Apesar de não ganhar mal, como vendedor numa loja de prestígio da Cidade, feitas as contas da renda da casa e dos gastos com a comida, a que juntava umas idas ao cinema e a um ou outro livro que ia adquirindo, não sobrava grande coisa.

     Levantou-se, guardando a pinha na algibeira da gabardina. As folhas secas estalavam sobre os pés pelo percurso. Abandonou o jardim. Andou cerca de dez minutos, devagar e aconchegando o cachecol, até ao seu Bairro e ao restaurante onde resolvera jantar. Retirou o cachecol e a gabardina, abancando. Fez o pedido e lançou um olhar ao telejornal. Desgraças como sempre. Sem saber muito bem porque, retirou a pinha da algibeira da gabardina e colocou-a sobre a mesa, como para observá-la melhor ou como se fosse um original telemóvel.

     - É bonita, não é? – Observou o empregado enquanto colocava a sopa na mesa.

     - É realmente, uma pinha perfeita! – Retorquiu com toda a convicção.

     O empregado afastou-se pensando que o senhor Aldemiro, coitado, já se tinha mesmo passado. Isto da falta de mulher, por pior que elas sejam, dá sempre com o homem em doido. Bem, o contrário também podia ser verdade, donde era melhor esquecer o Aldemiro e a sua pinha, que cada maluco tem a sua mania. Mas por uma pinha em cima da mesa, mesmo na sua frente como se fosse uma companheira do jantar, não era de uma pessoa saudável da cabeça, lá isso não era.

     O próprio Aldemiro, como se lesse o pensamento do empregado, pensou no mesmo. Porque raio colocara a pinha mesmo na sua frente e olhava para ela como se fosse uma pessoa em vez de seguir o telejornal, como toda a gente. Aliás os olhares de esguelha, que os fregueses habituais lhe lançavam, pareciam indagar do mesmo, afinando pelo mesmo diapasão do seu endoidecimento. Às tantas já o incomodava aquela persistente observação silenciosa, mas carregada de mensagem – “O homem ficou doido!”. Mas a pinha fascinava-o, mudando de cambiantes com a luz interior e em particular da televisão, como se tivesse vida.

     Pagou a conta e colocou a pinha, de novo, com todo o cuidado no bolso. Ao seu “Boa noite!” obteve uma resposta inusual (“Boa noite, Senhor Aldemiro!”), quase em coro. Era a confirmação do que já entendera. Achavam que tinha enlouquecido. A brisa fresca da noite arrancou-lhe um sorriso. Talvez pela atenção de que tinha sido alvo, talvez porque estivesse mesmo maluco, talvez porque considerasse a pinha como um talismã… Não sabia porquê e a verdade é que isso de pouco lhe importava. Desde há muito tempo que não se sentia tão bem. Agasalhou-se e colocou as mãos nas algibeiras da gabardina, dirigindo-se a casa. A mão direita acariciava a pinha, que parecia agora mais quente e suave.

     Quando chegou ao apartamento, verificou que os pinhões tinham desaparecido, tendo a pinha ficado uma massa compacta e maleável. A cor mudara para um verde com uma espécie de pequenos cristais, que pareciam corresponder à ponta dos pinhões e que reluziam com a luz. Nunca vira uma pinha mansa assim e mais fascinado ficou. Seria o seu talismã. Talvez lhe desse sorte no futuro. Sentou-se no sofá a ver televisão, com a pinha ao lado. Seria a sua companheira daí em diante, assentou.

   A hora de deitar chegara. Vestiu o pijama, lavou os dentes… Correu as persianas e deitou-se, tapando-se até à cabeça com o edredom. Já quase adormecia quando, de supetão, saiu da cama e correu para o sofá. Esquecera-se da pinha que devia estar com frio, coitadinha. E parecia estar, voltara a ficar dura e o verde cedia a manchas castanhas. Pegou-lhe com todo o cuidado e colocou-a na cama ao seu lado. Pelo caminho sentiu um estremecimento nas mãos… Um arrepio de frio, com certeza. Certificou-se de que a pinha estava bem aconchegada sob a roupa e só então adormeceu.

     No dia seguinte acordou sentindo que havia algo sobre o seu peito. Ainda no escuro, apalpou e, pelo tato, pareceu-lhe um braço e uma mão, elegantes e delicados. Não quis abrir nem a luz nem os olhos, estava a sonhar pensou. Seguiu o braço e um ombro, sentiu os cabelos e a face, os seios encostados ao seu corpo. Tudo um sonho continuava a pensar. E a mão agora escorria pelo corpo da mulher, até às nádegas… Sim, porque não havia dúvidas que sonhava que tocava numa mulher, que lhe percorria a pele suave, os contornos do seu corpo... Sentiu então que o braço repousado sobre o seu peito o acariciava, movendo os dedos devagar sobre os poucos pelos que ostentava, depois os mamilos…

     Abriu os olhos e a luz da mesa-de-cabeceira quase ao mesmo tempo. Uma mulher de facto. Mesmo ao seu lado, abraçando-o. Fechou de novo os olhos. Sonho, claro. A história da pinha fizera-o ter aquele sonho que parecia real. Sentiu então que a sua companheira devia ter acordado, voltando-se e ficando de costas ao seu lado, com um bocejo bem audível. Não podia ser. Este sonho já estava a prolongar-se para além do normal. Voltou-se para o lado onde deixara a pinha, de olhos fechados, tendo a certeza de que levantando o edredom a veria imóvel e no mesmo sítio. Abriu os olhos e…. viu uma mulher. Morena, com o cabelo e os olhos da cor da pinha madura, um rosto ternurento, com umas sardas discretas, um corpo com uns seios divinos… mas, o ventre e as pernas ainda acastanhados e em forma de pinha.

     Estava louco. Tinha endoidecido de vez. Como é que uma simples pinha mansa se podia ter transformado parcialmente numa mulher daquelas? Estava mesmo a sonhar, só podia… Ela, porém, olhou-o do fundo de si, desencadeando todas as memórias das tardes passadas no banco do Jardim, sob o seu corpo vegetal, fazendo-o verter algumas lágrimas rebeldes sobre o ventre e as pernas. Em poucos segundos o seu corpo de mulher completou-se. 

 

 

Continuação / VARIANTES

 Variante A

     Ambos choraram então de felicidade. Beijaram-se como os amantes que descobrem a paixão repentina e o amor sereno dos corpos saciados. A vida de Aldemiro mudou radicalmente. Ele que nunca vivera a dois sentia-se agora completado, sempre alegre, despreocupado, dedicando todo o tempo que o trabalho lhe deixava a Aldemira, como a tinha “batizado” e ela aceite. A mulher, que nunca vivera fora de um pinheiro, parecia adorar o mundo, tudo e cada coisa ou gesto, o que por vezes, deixava o Aldemiro com ciúmes e à beira de um ataque de nervos. Mas tudo se resolvia, com uma nova vestimenta para ela ou um olhar enternecedor e o abraço que lhe punha o corpo em brasa.

     Pior tinha sido arranjar-lhe documentos. Aldemiro tivera de corromper um escrivão da Conservatória da sua terra, que a registou de pai e mãe de apelido Pinheiro, nascidos em aldeias próximas, e emitido a necessária certidão de registo para ela obter o cartão de cidadão. Então casaram e Aldemira foi compreendendo os deveres de esposa que toma conta da casa e totalmente dedicada ao marido. Embora, a princípio, tivesse provocado algumas desavenças na vizinhança cada vez que saia de casa, às compras ou simplesmente para um pequeno passeio, com uns maridos mais afoitos a provocarem a ira das esposas.

     Problemas era mesmo não poder ter filhos. Ao que o médico dizia, com base em diversos exames, não tinha útero ou, melhor dizendo, tinha no lugar dele uma esquisita ramificação que mais parecia um bocado de ramo de pinheiro. Compreendendo que era melhor esquecer o assunto ficaram surpresos quando Aldemira, que estava esticada no sofá com a cabeça nas pernas do marido, sentiu qualquer coisa sair-lhe por entre as pernas… Era uma pinha... Uma não… duas, três pinhas pequenas e muito verdes.

     Passada a surpresa, colocaram-nas na cama, bem embrulhadas num cobertor de lã. Durante a noite, Aldemira e Aldemiro aqueciam-nas com os seus próprios corpos, colocando as pinhas bebés no meio de ambos. Em alguns meses ganharam tamanho e forma humana – duas raparigas e um rapaz. Quando finalmente começaram a passear num carrinho para trigémeos, as vizinhas coscuvilheiras que achavam os bebés esquisitos, esverdeados e com a cabeça um pouco pontiaguda, diziam: “ – Até parecem filhos de um pinheiro!”.

     Ora, como o vizinho mais recente, que vivia no prédio há cerca de nove meses, tinha por apelido Pinheiro e as crianças tinham uns oito meses, o falatório começou. A mulher do Pinheiro saiu de casa e refugiu-se em casa da mãe. O homem desesperado bateu à porta da vizinha que achava que havia espalhado o boato e atirou-se a ela, ficando os dois enrolados na carpete da sala. O marido desta agarrou o Pinheiro e esmurrou-lhe o nariz. Este mordeu-lhe um braço e uma orelha quase a arrancando. O chão e as paredes da sala ficaram tingidas de sangue. A mulher berrava possessa, batendo com o rolo da massa indistintamente no Pinheiro e no marido, engalfinhados. A Polícia deteve os três e o prédio pode, finalmente, descansar em paz.

     Aldemiro e Aldemira, que viviam no último andar, nem deram por nada, ademais embevecidos olhando para os seus rebentos.

 

Variante B

     Aldemiro deu-lhe um beijo suave na face, dizendo-lhe: “- Vou chamar-te Aldemira!”. Ela franziu o sobrolho e respondeu: “- Pode ser, mas agora gostaria que me trouxesses o pequeno-almoço, estou cheia de fome.”.

     Ele, com o romantismo ferido, desculpou-a. Afinal tinha acabado de nascer como mulher, ainda não apurara os sentimentos. E era natural que tivesse fome, ao cabo de tantos meses pendurada no galho de um pinheiro. E lá foi para a cozinha, quando se lembrou que nem sabia o que ela poderia gostar de comer. Voltou ao quarto e colocou-lhe algumas opções. Ela, agora com a testa também franzida, saiu da cama de supetão, resmungando: “- Nem para me dar de comer serve… Para que quero eu um homem assim?”.

     Aldemiro estava atónito, magoado e desiludido. Aquilo ainda ia acabar mal, ia pensando. Entretanto, Aldemira abria e fechava com estrondo (bump!) os armários da cozinha, olhando para tudo e sem conhecer coisa nenhuma. “- Mas que procuras?” – Ainda perguntou Aldemiro. “- Sei lá! O que é que os humanos comem?” – Respondeu e perguntou ela de maus modos, enquanto esborrachava uma maçã contra a parede, lambendo os dedos dos restos que lhe ficaram na mão. Depois pegou numa banana, olhou-a de cima abaixo e enfiou-a na boca, sem a descascar, empurrando-a até desaparecer.

     Ele estava lívido, sobretudo ao observar este último ato… e se ela… Não, não, o melhor era tentar acalmá-la e recomeçar. Afinal sempre tinha sido uma pinha e agora como mulher teria de ensinar-lhe tudo. Encheu um copo com água, dizendo-lhe: “- Isto tu conheces. É água, que tu bebias quando chovia…”. Ela provou e atirou-a, soprando, sobre a cara de Aldemiro. A água confundiu-se com as lágrimas que se soltaram como um dique. Aldemiro já não sabia o que fazer mais. Saiu da cozinha e sentou-se pesadamente no sofá da sala com a cabeça a estalar entre as mãos.

     Quando Aldemiro se apercebeu já era tarde. Ela tinha aberto a porta e estava no hall do andar. Alguns vizinhos espreitavam com as portas entreabertas e as respetivas mulheres gritavam impropérios, sendo o mais comedido o que a apelidava de desavergonhada. Aldemiro correu a agarrá-la e a traze-la para dentro de casa, obrigando-a a vestir um roupão e a sentar-se no sofá.

     Depois gritou-lhe:”- Não podes andar por ai sem roupa, nem podes fazer as exigências que te apetecem e quando nem sabes o que queres. Se antes eras uma pinha e agora és uma mulher, tens de aprender a ser mulher e eu, porque gosto de ti, vou ensinar-te tudo. Queres aprender?”. Ela deitou-lhe a língua de fora (pruuuuuuu!) e despiu o robe, rodopiando no meio da sala, mostrando todo o corpo em contra luz frente à janela.

     Apesar do desejo que lhe provocava, Aldemiro compreendeu que ela nunca se comportaria como uma mulher, que nunca passaria de uma pinha em forma humana. Resolveu então tentar desfazer o engano. Pela calada da noite, obrigou-a a vestir o roupão e levou-a ao jardim donde a tinha trazido. Sentou-se no mesmo banco, com ela ao lado e falou com o pinheiro manso, como quem fala com o pai da noiva que pretende devolver. Nada acontecia. Ela dormitava encostada ao seu ombro. Aldemiro sentia os pés a enregelar. Só uma aragem suave, que abanava cadenciadamente a ramagem do pinheiro se fazia sentir, com uma ou outra agulha a cair sobre ambos. Fechou os olhos, tentando descansar um pouco.

     “- Levaste-a, tens de ficar com ela! Agora é tarde para a receber, já se soltou de mim. Entendes, ó Aldemiro ou ficas admirado? Ah, ah, ah…”. Ou sonhava ou o pinheiro estava a falar e a gozar com ele. Manteve os olhos fechados. Devia estar a sonhar, só podia. Antes um pesadelo, de que não queria acordar. Levar de novo aquela mulher para casa nem pensar… preferia… preferia ficar ali até congelar. Ela havia de arranjar alguma solução… Ela? Queria lá saber dela. Devia era deixá-la ali e ir-se embora… Não, não era capaz disso…

     De repente, uma aragem mais forte fez-lhe cair sobre a cabeça um pequeno e frágil ramo e um tufo de agulhas que lhe picaram a face. Afastando o ramo e limpando o rosto, olhou para Aldemira. Não estava já encostada a si, nem a via nas redondezas. Ficou preocupado. Agora, tinha de a procurar à luz ténue dos candeeiros. Ao levantar-se olhou para cima e viu-a… pequenina, meia humana ainda, a transformar-se na pinha que era.

     Derramou algumas lágrimas de saudade, mais pela ausência do futuro que não chegara a ter. Aprendera a lição. As pinhas têm a sua função e não é a de viver como seres humanos. Para isso há mulheres que nasceram, partilham e completam os homens. Aldemiro foi para casa disposto a mudar de vida.

 

Variante C

     Aldemiro olhou-a, de cima abaixo, embevecido. Uma mulher linda de morrer. Sentia-se ainda entre o sonho e a realidade. “- Vou chamar-te Aldemira!” – Disse ele, batizando-a como um prolongamento dele próprio. Ela não respondeu apenas pestanejou e sorriu, com uns lábios carnudos, sensuais, tentadores. Beijou-a. Ela estremeceu e mordeu-lhe o lábio superior, arrancando-lhe um pedaço. De imediato o sangue inundou a cama e Aldemiro foi para a casa de banho tentar estancar o sangue com recurso a uma pequeno kit de emergência.

     Ela, assustada – talvez porque nunca tivesse visto sangue – foi atrás dele, abraçando-o por detrás, toda encostada ao seu corpo. Por sobre o ombro encontrou os olhos dele no espelho, com uma ternura que o desarmou. Aldemiro, que acabava de colocar um grande penso sobre o lábio, ficou desarmado e voltou-se, abraçando-a e esquecendo o incidente. Entendia agora que ela, recém-humana, nada sabia de relacionamento com o sexo oposto nem de sentimentos e, provavelmente, nem o compreendia nem sabia falar. Era tudo natural, mas esperava-o uma longa aventura em ensinar tudo o que uma mulher deve saber, ficando na dúvida se seria ele o professor ideal. Só que, por enquanto, não tinha alternativa. Tinha de o fazer.

     Como era sábado, teria bastante tempo para iniciar uma aprendizagem básica. Com um pouco de sorte no domingo poderia ir às compras, já que a dispensa costumava ser abastecida ao fim de semana e estava quase vazia. Começou por apontar para coisas comuns, como a cama (“- Caaaaaama!”), o sofá (“- Sofáaa!”), a cozinha (“Cooozinha!”) e, depois, particularizando, como o fogão, o frigorífico…. Tudo coisas práticas que tinham a ver com a sobrevivência dele, claro.

      Ela correspondia com um sorriso, olhar indagador e acenando a cabeça, como se estivesse a entender tudo o que Aldemiro ia explicando, segundo ele ensinando. Este ficou embasbacado quando ela, olhando-o fixamente, lhe disse: “- Foi para isto que me quiseste como mulher, para te servir de criada?”. Aldemiro encostou-se à ombreira da porta da cozinha extasiado. “- Tu falas...”. “- Falo, claro, aprendi contigo e com os que se sentavam no banco do jardim, dos que passeavam nas proximidades. Contigo escutei palavras de desporto, de sexo e os pensamentos que te vinham à cabeça, porque falavas sozinho. Com ou outros e com as mulheres aprendi jogos, cozinhados, até a costurar. Só me falta por tudo isso em prática, mas aviso-te já que não o vou fazer. Eu sou uma pinha antes de mais e só humana por ação tua. Vais ter de me alimentar de seiva e água até que seja capaz de comer verduras, carne e pão. Já provei a tua carne e até gostei, sabe bem, mas sendo vegetal, tenho receio em me tornar carnívora. Por isso é melhor tratares de me ir buscar a comida de que necessito!”.

     Aldemiro balbuciou apenas: “- Onde vou arranjar seiva, aqui na Cidade? Não se vende nos supermercados…”. “- Assim não me deixas outra alternativa que não seja…” – Respondeu ela, como se estivesse a mastigar uma comida deliciosa, lançando um olhar insinuante, incandescente e perturbador. Aldemiro escorreu pela ombreira da porta, desmaiando. Quando acordou, uma poça de sangue alastrava pela cozinha. Uma dor aguda fê-lo olhar para as mãos. Dos dedos apenas o mindinho esquerdo existia ainda… Desmaiou de novo. Ainda deverá ter acordado mais uma vez depois de perder uma das pernas. Aldemira mastigava a coxa, já junto da virilha, com o sangue a escorrer-lhe pelos cantos da boca e sobre os seios…

     Uns dias depois, os Bombeiros e a Polícia, chamados pelos vizinhos de Aldemiro que o tinha deixado e ver e de ouvir a televisão todas as noites, encontraram a sua carcaça no chão da cozinha, sem qualquer vestígio de carne. O chão estava coberto por uma camada avermelhada escura que, provou-se, ser sangue seco. Por mais teorias que a Judiciária tivesse conjeturado, nomeadamente porque estava a janela da cozinha aberta, o certo é que arquivaram o processo de investigação por falta de evidências e muito menos de provas. O caso caiu no esquecimento.

     No Jardim, alguns notaram que aparecera uma estranha pinha num dos pinheiros mansos. Gorda e de um vermelho vivo, nalguns momentos do dia. Havia mesmo quem garantisse que a tinha visto pingar gotas de sangue que se perderam na terra por entre as ervas. Coisas de velhos solitários que não tinham mais nada para fazer, diziam os entendidos.

     O certo é que Aldemira estava mesmo lá, mirando os homens mais apetitosos e até uma ou outra mulher, à espera que passassem sob o pinheiro, a caminhar ou a passear o cão, demorando o tempo suficiente para lhes dominar a mente e arranjar uma nova vítima (“- Vem, vem... Precisooo de saangue!“. 

 

Avelino Rosa

Odivelas, 03-12-2014

 

Pão que o Diabo amassou

 

     Estava ele, com a sua cauda de seta, junto do forno, a vigiar a cozedura do pão, que antes amassara com as mãos e dedos acabados em garras compridas e curvas. Os cornos brilhavam com o fogo, parecendo mudar de coloração pela mutação do fogo que raiava das achas da lenha sob um caldeirão de ferro. Este assentava num buraco redondo numa pedra transversal à porta do forno. Do lado direito um outro buraco por onde pendiam, do teto da aba da chaminé, umas tripas mal enchidas, a apreciar pela alternância entre o entumecimento e a total depauperação.

     De pele avermelhada, mais escura nos braços e nas pernas, sem pelos visíveis, o Diabo vestia um fato inteiriço, uma espécie de licra multicolorida, mas com tons de laranja e vermelhos predominantes. O fato, se alguma coisa salientava, era os ossos, à primeira vista parecendo-se com um humano subalimentado. Notava-se também que alguma coisa o consumia, preocupava. A testa franzida, os músculos da cara contraídos, os beiços descaídos. Que atormentaria o Diabo, para não se alimentar e mostrar-se assim tão deprimido? A falta de almas, a monotonia do trabalho no Inferno?

     O trabalho, de facto, já não o atraia tanto. Mesmo com mais diabos auxiliares, que ia recrutando nos cinco continentes e a quem ia conferindo gradualmente poderes, quer de desvio de almas dos vivos quer de prerrogativas para extraírem as almas dos moribundos, deixara de sentir aquele gozo, quase pueril, de velho anjo banido do Paraíso. Antes, motivava-o ver alguém a findar-se. Invisível aos olhos dos humanos, abria a mão, passava-a sobre o corpo e recolhia a alma, por mais escondida que se encontrasse. Uma aureola pequena luminescente, que saía já meio apagada e envolvia rapidamente na mão, manejada como a de um prestigiador. Posteriormente, colocava-a numa espécie de prateleira numa estante enorme, já amolecida e disforme como um bocado de plasticina manuseado, apesar de manter sempre uma ligeira palpitação.

     A estante dava voltas e voltas pelo Inferno inteiro. Uma pequena parte das almas tinha etiqueta referindo as pessoas mais proeminentes, que se haviam distinguido em vida, com algum feito relevante para a Humanidade, nem que fosse pela estupidez do facto observado. Uma mera questão de catalogação face à esmagadora maioria das anónimas. Porque Deus, que possuía no Paraíso também a sua coleção – naturalmente das almas que tinham ido para o Céu -, organizava, de vem em quando, exposições temáticas ou simplesmente para mostrar a sua criação, e pedia ao Diabo que lhe que lhe enviasse, temporariamente, determinadas almas. O que o magoava, por se ver relegado para o papel de fiel de armazém.

     As exposições no Paraíso geravam sempre alguma agitação dos Santos e Anjos. E, diga-se que mesmo alguma controvérsia, quanto à exibição de certas almas. Pensavam alguns Santos, instigados pelos Anjos mais antigos, que a mostra de almas, projetando a imagem e os feitos históricos de cada ser humano, não condizia com a sua verdadeira dimensão, sendo apenas um embuste de propaganda descarregada nos sonhos dos vivos. Outros, pelo contrário, mais jovens e hábeis nas técnicas de marketing, consideravam indispensável que, mesmo esquecendo alguns pormenores mais ou menos reprováveis, se atuasse o mais diretamente possível sobre cada humano, moldando-lhe o cérebro desde a nascença. Blindava-se, assim, cada pessoa às incursões fantasiosas do Diabo e seus auxiliares.

 

 

     Se Deus andava radiante, com o aumento de almas que ia acolhendo no Paraíso, muito à custa de uma duvidosa elasticidade na interpretação dos Mandamentos, que em tempos idos dera a Moisés, trabalhada pelos seus assessores mais próximos, o Diabo andava agastado. Numa primeira fase, ao entender o que se passava, ficou furioso e fez chegar umas quantas queixas, bem fundamentadas, ao Criador. Depois, perdido no meio das mensagens e argumentos, que lhe iam limitando, aos poucos, o poder, deixou-se cair numa profunda depressão. Deixara o Inferno entregue aos auxiliares de diabo, limitando-se a repor a ordem, sempre que surgiam conflitos ou algum deles se atrevia a tentar ocupar o seu lugar, estabelecendo, por vezes, uma ligação direta com o Paraíso. Mandava então acender a fogueira, de caruma de pinheiro e lenha de zimbro, que perfumava cavernas, estantes e almas, deixando no ar um aroma controverso. O prevaricador ardia como um leitão, até esturricar e resumir-se a cinzas.

     Era com estes pensamentos que o Diabo ocupava a mente enquanto vigiava o forno e o caldeirão. Para se distrair, montara uma cozinha num dos cantos mais afastados do Inferno, numa caverna sob uma chaminé de um antigo vulcão. No caldeirão cozinhava uma alma antiga, com conhecimento enciclopédico, julgando que o faria mais sábio ou pelo menos capaz de compreender melhor esta fase de desequilíbrio entre o bem e o mal, antítese e paradoxo. Se Deus afrouxara a interpretação dos Mandamentos, que poderia ele fazer para a inverter a seu favor? Estando condicionado na sua atuação, como poderia influenciar a raça humana de um modo mais marcante e cáustico? Aproveitar a estratégia Divina poderia dar-lhe frutos, mas também não deixaria de ser arriscado.

     Começava a haver uma diferença cada vez mais ténue entre bem e mal, entre Deus e Diabo. Ele tinha mais e melhores meios. Logo, o combate parecia desigual. A ida para o Céu ou para o Inferno deixara de obedecer à lógica tradicional do pecado. Aliás, o pecado era algo flutuante, sem contornos definidos. Nunca fora, mas agora mais do que nunca era entendido como subjetivo, aparente, apenas quando intencional e com o objetivo de... Assim, era quase impossível pecar e merecer o Inferno. A opinião pública premiava uma mentira bem articulada, mesmo sem fundamento. Condenava antes da própria Justiça. A conquista de almas para o lado negro era cada vez mais difícil, porque embora já lhe pertencendo, pela sua conduta, eram antecipadamente perdoadas. Os lados esbatiam-se, com graves prejuízo para o Diabo. Ganhava-se o Céu porque poderoso ou detentor de atributos convenientes. A alta finança, que desgraçava os povos, reduzindo-os à miséria, contagiara para além do terreno. Mandava e o mando flui, influencia, habitua consentimentos. Jogar assim era complexo. Todos se destinavam ao Inferno, mas, num instante anterior à morte, a alma sumia, subindo ao Céu. E o Diabo não sabia como nem porquê. Isso angustiava-o, anulando o seu papel de Senhor do Mundo das Trevas.

      Por mais que meditasse, que baralhasse e recompusesse de novos os pensamentos, não entendia. Abriu o caldeirão e com uma pinça de ferro retirou a alma enciclopédica, ainda palpitante e colocou-a num prato sobre um tronco cortado de uma árvore milenar. Foi quando lhe cheirou a queimado. Abrindo rapidamente a porta do forno e deparou-se com o pão já queimado. Tirou-o, colocando-o também sobre a mesa. Mas a refeição da sabedoria ficou amarga. A alma estava intragável, impossível de mastigar. O pão pior ainda, negro, endurecido, sabendo a pedra-pomes. Desesperado, ainda trincou alguns bocados de alma e uma ou duas fatias do pão, cortadas a escopo e martelo, com umas tiras de chouriço assados nos restos do carvão. Os dentes, fortes e incisivos, trituraram e atiraram a comida para a garganta, arranhando-a na passagem. A alma ia-se recusando a passar-lhe pelo esófago e o pão, sobretudo o pão, quase o sufocava. Até o Diabo tem os seus dias maus.

     É por isso que hoje, quando se fala de agruras da vida, se costuma dizer que aquele ou aquela comeram o pão que o Diabo amassou. Sendo verdade, fica ainda muito aquém da realidade. – Que o diga o próprio Diabo!

 Avelino Rosa,

Odivelas, 07-11-2014

 

O rapaz quadrado

 

[Conto para contar]

 

“Fiquei a pensar no que tinha lido e na maneira fascinante como abordaste alguns dos problemas sociais, ou mesmo doença social, mais brutal que existe, a meu ver, claro,

 porque são atos discriminatórios intencionais, repetidos, de violência física e psicológica, que podem levar à destruição total da vítima ou a traumas psicológicos irreversíveis […]". Ver Notas finais.

    

     Era uma vez…, melhor, desta vez – porque, na verdade, nem era um verdadeiro anão -, um rapaz que havia nascido muito pequenino, com pouco mais de trinta centímetros.

     Filho de pais de estatura normal, ninguém era capaz de entender e muito menos explicar porque o rapaz também não crescia como todas as outras crianças. Quando chegou o momento de entrar na escola, os pais ainda pensaram em escondê-lo, mas já toda a vizinhança falava do anãozinho.

     E era sabido e certo que os inspetores do Ministério da Educação o iriam encontrar, por melhor que estivesse escondido, e aplicar aos pais uma grande multa. E até podia acontecer que, no seu alto critério de decisão, amarrassem o pai ou a mãe, durante um dia inteiro, no pelourinho da aldeia. Para mostrar a todos que a educação era um bem supremo que não podia ser descuidado nem pelo mais humilde aldeão.

     Claro que o Ministério providenciava tudo. Transporte, três refeições por dia e professores experientes, alguns com cinquenta ou mais anos de ensino e que andavam com uma bengala de vime entrelaçado, endurecido em lume brando, que servia para se apoiarem e, sempre que necessário, manter os alunos na ordem das sacrossantas regras da disciplina e boa educação. As instalações, modernas e funcionais, estavam apetrechadas com todo o equipamento de ponta necessário à aprendizagem e aos tempos de desporto e lazer. A imaginação era o princípio e o limite de tudo.

     Só não havia maneira de fazer crescer uma criança que teimava em não acompanhar a natureza. As árvores e plantas medravam e cresciam por toda a parte, enchendo os olhos e as barrigas. Mas o Zacarias, o rapaz anão, não. O professor de educação física, com setenta e cinco anos, vociferava – com uma tosse cavernosa e uns esgares alucinados pelo meio - que nunca vira nada assim e obrigava o puto a correr à volta da Escola, até desfalecer sobre o muro de silvas. O médico, que passava por lá uma vez por semana para ver as línguas das crianças – ao que consta, só para justificar o trabalho, já que o astigmatismo e as cataratas pouco ou nada o deixavam enxergar -, dizia ao Zacarias sempre a mesma coisa: “- Come, rapaz, come e muitas vitaminas, muitas vitaminas!”.

     E o Zacarias comia, mas nada de chocolates nem hambúrgueres ou outros produtos com excessivas calorias, que isso também estava regulado pelo Ministério da Educação. Sopa com verduras a todas as refeições, alternando entre a couve, o espinafre e a cenoura, tudo cultivado nos terrenos contíguos à Escola pelos pais dos alunos, também numa saudável alternância.

     O problema era fora da Escola, em casa, onde matava a fome da dieta ministerial. E se nos outros não se notava tanto, aos poucos o Zacarias foi ficando quadrado. Durante as férias grandes, com noventa centímetros de altura, atingiu os oitenta e oito de diâmetro e um peso de quarenta quilos, acima do equivalente a um miúdo com doze anos de idade e um metro e meio.

     Muita linguiça frita em banha de porco, alternada com torresmos com mais gordura que carne, inhame e batata-doce em abundância, pão e bolo de milho… Apenas alguns dos ingredientes que ia ingerindo após a Escola e aos fins de semana. E, na verdade, o médico não lhe havia dito para comer? E nas férias o Zacarias atafulhara-se mesmo. Acrescentando ainda figos, melancia e frutos da época, que ia deglutindo deitado, em longas sornas, sobre a terra quente ou os empedrados dos caminhos interiores.

     A torna à Escola foi já de si complicada. Ficou entalado no banco da carrinha, enferrujada e esburacada sob os pés. E chacota dos colegas que, apesar de gordos, encontraram consolo no desgraçado mais disforme ainda. Depois, dos professores e do médico – que nesse dia até esperava pelos alunos, com as suas lunetas telescópicas – e lhe deu um puxão de orelhas que, por pouco, não o deixou desorelhado e surdo.

     Claro que os inspetores, no fim do dia, estavam em casa dos pais de Zacarias, para tirar satisfações e aplicarem uma qualquer sanção. Mas do rapaz anão, que viera para casa na carrinha museológica da aldeia, nem rasto. E eram já sete horas da tarde. Um telefonema rápido do inspetor-chefe ao condutor do veículo confirmou que o Zacarias tinha saído mesmo à porta de casa, tendo-se libertado do banco com alguma dificuldade e saído pela porta com a ajuda de um empurrão das botas de um colega mais afoito e galhofeiro. Pormenores, resumidamente um pouco aquém da realidade, mas que sossegaram o corpo de Inspetores quanto à responsabilidade do Ministério. Notificaram, em letra de lei, os progenitores, a quem fizeram assinar de forma legível e partiram aborrecidos, não tanto pelo desaparecimento, mas sobretudo com o atraso provocado ao descanso e à janta que os aguardava.

     Zacarias, mal saíra da carrinha, tinha, dissimuladamente, metido por um trilho pouco usado, que dava para o Enxurro[1], uma das muitas terras que o pai detinha por sucessivas heranças. Ficava ainda a uma considerável distância da aldeia e tendo em conta que andava devagar e com dificuldade só lá chegou quando a lua cheia já brilhava no céu estrelado. Era uma terra tipo floresta, onde se andava por carreiros calcados entre os arbustos, repleta de pinheiros, faias e castanheiros, alguns centenários. Sempre gostara de ir com o pai à apanha das castanhas. Varejavam os ouriços[2] e estes caiam, de uma altura considerável, abrindo-se e deixando as castanhas à mostra. De vez em quando, um rato acompanhava este trajeto, estatelando-se na terra ou amortecendo a queda nas silvas, saindo dali numa fuga desorientada e numa guincharia de ferir os ouvidos.

     Agora, à noite, tudo parecia diferente e medonho. As sombras dos arbustos e dos galhos do arvoredo projetavam-se como braços gigantes, mãos com dedos alongados como a procurar presas na penumbra. Grilos e corujas faziam-se ouvir e mesmo o coaxar das rãs de um grande charco sob uma pequena cascata, rivalizavam numa sinfonia aparentemente desafinada e lúgubre. Sentiu um arrepio.

     Mas a adversidade dera-lhe algumas vantagens. Sobretudo a de encarar com alguma naturalidade a indiferença e, pior, a animosidade das pessoas. Algumas até lhe atiçavam os cães, mas estes, por alguma razão ou mera solidariedade, nunca o haviam mordido. Pelo contrário, lambiam-lhe as pernas ou as mãos, o que irritava os donos que os chamavam enfurecidos, não raro com um pontapé ou com a vergastada de um bastão ou de alguma corda feita chicote. Apesar dos seus sete anos e da sua estatura, Zacarias tinha crescido, por dentro, com a força forjada dos enjeitados. Amadurecera prematuramente, posto de lado pelas crianças e diabolizado por todos. Ninguém com quem brincar, falar, contar histórias reais ou imaginadas. Nas aulas permanecia quase mudo, porque se falava só dizia asneira. Quase não lhe ligavam, porque era desperdício de tempo. Em casa as coisas pouco mudavam. Comia, dormia, fazia o que lhe mandavam, sempre criticado claro. E era toda a sua vida de menino.

     Sozinho, no meio daquela floresta anoitecida, Zacarias deixou de ter medo. Os receios tinham dado lugar a um certo conforto. A uma sensação de bem-estar, entranhado na Natureza como se fosse a sua verdadeira casa. Sentia fome, muita fome, mas não havia nada a fazer. Andou até ao castanheiro de tronco mais largo – que nem dois homens abarcavam com um abraço -, aconchegou o chão com as botas e sentou-se, encostando-se na árvore gigante. Fechou bem a samarra, meteu as mãos nas algibeiras e cerrou os olhos, tentando descansar ou mesmo dormir.

…………  

     Uma aragem húmida, a anunciar o outono, soprava sibilante por entre a ramagem. A lua, agora coada pelos ramos enormes do castanheiro, parecia incidir, como um foco, sobre Zacarias… Ou melhor, sobre o local onde o rapaz se havia sentado e encostado. Vazio. Zacarias desaparecera. Os cães, que o procuravam, precedendo alguns aldeões que o pai arrebanhara, cheiraram insistentemente o chão e o tronco, mas voltaram para os donos sem rasto a seguir e não era por falta de experiência nas lides da caça.

     As buscas cessaram ali. Por qualquer mistério, o rapaz havia desaparecido irremediavelmente. Já o Ministério da Educação não podia acusar os pais de Zacarias de falta de zelo ou de negligência. E estes libertavam-se de um fardo, de um peso morto, que só lhes complicava a vida. Uma lágrima, vertida à luz do candeeiro de petróleo, pela mãe, na presença da equipa de busca – que recebia uma recompensa reforçada de aguardente -, foi a única e última nota visível de sentimento de perda, de compaixão e luto, do rapaz quadrado.

     Que lhe acontecera? Onde andaria se estivesse vivo? Perguntas que ninguém fazia e muito menos se preocupava em responder…

…………

     Recuemos um pouco no tempo. A busca fora organizada ao fim da tarde, após os inspetores terem abandonado a casa de Zacarias. Mas só começou depois de todos terem jantado bem e descansadamente. Os cães seguiram facilmente o rasto do rapaz, obrigando o grupo de busca a andar um pouco mais depressa do que desejariam, apesar de, pelo caminho, irem abrindo e levando à boca amiúde os chifres de boi abastecidos de aguardente caseira.

     Zacarias adormecera encostado ao castanheiro. Já se ouvia o ladrar dos cães quando um vulto agarrou o rapaz – ferrado no sono e dormente pelo frio e humidade – e levou-o nos braços pelo trilho que conduzia à cascata[3]. Ambos se diluíram, como por magia, na água e depois na rocha, acedendo a um pequena área cavernosa. Zacarias foi colocado sobre uma espécie de cama improvisada de folhas de bananeira sobre tufos e terra amolecida.

…………

     Amanheceu. A luz agora coada pela água da cascata rebrilhava em múltiplos e esvoaçantes cristais coloridos pelas paredes da caverna. À medida que os seus olhos se foram habituando à luminosidade e penumbra, Zacarias foi explorando o espaço, com um olhar perscrutador. A um canto, também sobre folhas de bananeira já amarelecidas, um ancião de longos cabelos e barba brancos e um cajado com estranhas cintilações, agarrado pela mão direita. O homem rodou um pouco sobre as folhas, olhando Zacarias com um sorriso aberto num rosto de rosa escarlate.

     - Onde estou? - Perguntou Zacarias, espantado pela cortina de água e pelo som da cascata, mas não menos com o ancião que lhe sorria amistosamente.

     - Não sei bem como te explicar, rapaz, porquê és ainda muito novo para compreender, mas sou um Guardião da Natureza. Podes achar-me velho, mas tenho muito mais idade do que possas supor. Centenas de anos. Tento, com muitos outros, defender a vida selvagem, as plantas e árvores autóctones, a biodiversidade. Já terás lido ou ouvido que brocas de prospeção partem muitas vezes e que plataformas de petróleo desabam, que serras quebram quando tentam abater árvores, que as balas não acertam nos animais, que as armadilhas desaparecem, quando os homens tentam destruir a Natureza e os seres que nela vivem. É isto que faço, mas somos muito poucos para evitar todas as mutilações e desastres que o homem provoca ao Ambiente. Nalguns casos, vão ao ponto de derramar crude nos mares, dizimando a vida marinha e a sua alimentação ou de plantar espécies infestantes que secam tudo à sua volta, como árvores de crescimento rápido para a indústria do papel. Somos nós que intervimos, sempre que nos é possível, limpamos rios e mares, criando redemoinhos que sugam a sujidade e depositam os resíduos para reciclarmos. Somos nós também que atrofiamos as raízes de eucaliptos e de outras espécies que, aos poucos, vão transformando florestas diversificadas como esta em atentados à natureza. E tudo isto não chega ainda para reduzir o chamado buraco de ozono, que vai aquecendo o planeta Terra e alterando a climatologia, um pouco por todo o lado. Sei que não entendeste nada, mas sei também que ficarás com algumas destas ideias na tua memória. E, só por isso, já valeu a pena o que te disse.

     - E vive aqui sozinho? - Quis saber Zacarias, estonteado com aquele discurso, anda por cima sem qualquer sentido para ele, que se limitava a acompanhar o pai, sem sequer lhe ocorrer questionar nadas sobre o que fosse.

     - Sim e não. Como Guardião da Natureza venho muitas vezes aqui, por isso te encontrei hoje junto do castanheiro. Mas como membro do Conselho dos Guardiões, tenho uma enorme família que, se quiseres, poderás conhecer. Vivemos todos no interior da Terra, cerca de mil metros abaixo da Amazónia[4], bastante longe daqui.

     - Se é longe, como faz para vir até aqui e voltar?

     - Boa pergunta, Zacarias. Estavas a dormir quando te trouxe para aqui, mas se estivesses acordado verias que isso não é um obstáculo. Nós viajamos de um modo diferente, através da desmaterialização e materialização. Dito de outro modo, desaparecemos aqui e aparecemos noutro local em poucos segundos, também com as pessoas ou objetos que estejam em contacto com o nosso corpo, exceto debaixo dos nossos pés, porque estas sandálias são também um filtro para o teletransporte[5].

     - Como sabe o meu nome e como se chama? – Articulou Zacarias, perfeitamente atónito, aparvalhado melhor dizendo.

     - Porque ouvi o teu pai e os homens que te procuravam dizer o teu nome. O meu é Zoosk. Mas, é a altura certa para te fazer uma pergunta, que tens de responder com sinceridade. Deixa a tua alma falar, entendes?

     - Entendo. Devo responder o que sinto e quero mesmo, com o coração.

     - Sim, exatamente. E a pergunta é… Queres voltar para tua casa, para a tua Escola, para a tua terra ou queres ir comigo conhecer a minha Comunidade?

     - Quero ir consigo! – Respondeu Zacarias, sem hesitar, lembrando que ficar era mais do mesmo, para pior. Queria sonhar, pelo menos. E o Guardião dava-lhe essa oportunidade

     - Muito bem, sei que estás a ser sincero. Dá-me a tua mão…

     Num ápice ambos desapareceram. Após uma mancha informe, Zacarias começou a focalizar uma pequena multidão de anciãos, de homens, mulheres e crianças, que lhe davam as boas vindas.

     Os anciãos, muito semelhantes a Zoosk, chamavam-se Zooak, Zoobk, Zoock, e assim por diante. As mulheres, já grisalhas, eram as Zmoak, Zmodt, Zmopt, etc.. As crianças, cujos nomes já nem ouvia, eram o Zaoat, o Zaoft… e as Zaont, Zaotk, etc.. A Zacarias pareceu-lhe que todos os nomes eram iguais. Zoosk entendeu e esclareceu que os nomes, de facto, eram muito semelhantes. Só variavam nas útimas três letras, sendo que a segunda letra indicava o estádio de desenvolvimento e função. “O” para Guardião, “m” para mulher e “a” para criança, jovem e adulto até atingir a idade de Guardião ou de mulher reprodutora, altura em que mudavam de nome. As letras, inicial e final, “Z” e “k”, ficavam a dever-se ao considerado fundador da Comunidade – um terrestre que, numa história perdida no tempo, se entranhara pela Terra adentro -, que era a sua referência moral e que diziam chamar-se Zoork.

     Por essa razão consideravam-se os zoorkianos. Os anciãos viviam até aos 450 ou mesmo 500 anos. Só que, por um fenómeno qualquer que ainda não tinham sido capazes de explicar, entre o nascimento e a idade adulta, aos 21 anos, decorriam apenas 10 anos terrestres. E dos 21 aos 100, idade em que se passava a Guardião, cerca de 40 anos. A partir dai, a idade progredia, em média, cerca de 1 ano por cada 3 terrestres. As mulheres, a partir dos 21 anos ficavam em idade fértil, vivendo até a um máximo de 400 anos, mas só podiam dar à luz uma única vez. Considerando que as mulheres eram em maior número que os homens, cabia a estas a educação dos filhos e a administração de tudo, estando reservado aos homens a função de Guardião, pelos perigos que corriam e pelas ausências por vezes prolongadas.

     Zacarias tinha um nó no cérebro, que não havia maneira de desatar. Além disso estava cheio de fome. Muita fome. Um grupo de mulheres entendeu e levou-o para uma espécie de compartimento escavado em rocha e terra barrenta. Uma área de refeições comunitária, a avaliar pela mesa enorme e pelos assentos toscos de barro seco. Nem soube bem o que ingeriu. Talvez raízes, frutos, legumes, cogumelos… Mas soube-lhe bem e melhor ainda quando o conduziram a uma espécie de cama feita de tufos e musgos sob uma colcha tecida de casca de maçaroca de milho e de folhas de diversas árvores e arbustos, a lembrar as mantas de retalhos da avó.

      Dormiu e dormiu, sonhando ora que tinha morrido e estava com várias camadas de terra sobre o corpo ou tinha sido enterrado vivo com minhocas famintas que o trituravam, ora que tinha dado entrado num céu qualquer com anjos e santos. Sobressaia uma anjo - se é que têm sexo -, a Zaogt. Uma rapariga talvez um pouco mais velha que ele, e isso também acabou com um pesadelo, ela, ao cabo de 10 anos já velha e ele um jovem ainda… e quadrado. Que disparate de sonho, pensou ao acordar. Mesmo assim, no outro dia olhou melhor para Zaogt, que pareceu não lhe ligar nenhuma. Apenas um olhar esguio pelo canto do olho.

     O grupo de mulheres encarregadas da Educação, depois de Zacarias ter tomado um bom banho num riacho de água morna, e comido um farto qualquer coisa que lhe soube bem, mandaram-no sentar naquilo que parecia uma sala de aulas e onde já se encontravam todas as crianças da aldeia, incluindo Zaogt. Embora já o tivessem conhecido, agora, sem os anciãos, olhavam para Zacarias com um olhar um pouco reservado e mesmo trocista, já que uma das matérias que se estudava respeitava aos seres humanos e este era, no seu estádio de desenvolvimento, um bocado estranho.

     Na verdade, os zoorkianos eram quase iguais aos humanos, diferindo em alguns pormenores, como a cor da pele, mais rosácea, as orelhas ligeiramente mais pontiagudas e os olhos que, quando fechados, pareciam um traço e quando abertos ficavam em forma de amêndoa. Os membros eram também, em média, um pouco mais longos que os dos humanos, mantendo uma forma física invejável, embora não visivelmente musculada, apesar da força que eram capazes de aplicar. Ver um rapaz assim, quase quadrado, não deixava de ser uma novidade, cujo estudo seria aprofundado de certeza.

     De facto, as Educadoras apresentaram de novo o rapaz, agora com mais pormenores. Enfatizaram o facto de ter querido, de livre vontade, fazer parte da comunidade, donde todos se deviam empenhar em ajudar a integrá-lo e em acompanhar os ensinamentos de modo a recuperar o atraso nos estudos, já que os zoorkianos começavam o ensino aos cinco anos de idade. Como expectável, abordaram também o tamanho, largura e peso de Zacarias, explicando que se devia a um fenómeno pouco usual causado por genes hereditários, mas também pelo regime alimentar. Assim, daí em diante seria acompanhado não só por um Educador dedicado como pelo ancião Guardião da Saúde, que fariam dele um zoorkiano em plenitude.

     Zaogt olhou de soslaio Zacarias, agradando-lhe, pela primeira vez, que ele se tornasse um rapaz normal. Todos os outros, sem perda de tempo, olharam para a nuvem que uma educadora, com um simples gesto, abrira na sua frente, com a projeção do sumário das muitas matérias que teriam de falar e aprender nesse dia. Zacarias, apesar de sentir que teria de se aplicar incondicionalmente, sentiu-se bem consigo mesmo. Era a primeira vez que não o gozavam ou riam da sua disformidade. E depois, aquele olhar de amêndoa doce de Zaogt dera-lhe um novo alento.

…………

     Passou exatamente um ano. Nesse dia, na Escola, as Educadoras fizeram um ponto da situação quanto à evolução de Zacarias. Para espanto geral ou nem tanto - porque, durante esse ano, as amizades foram-se sucedendo, em particular com Zaogt, a quem entrelaçava as tranças douradas -, o rapaz inicialmente “quadrado” era agora uma belo zoorkiano, ultrapassando os próprios nativos em altura e elegância e em idade, colocando-se a par deles em conhecimentos. O Guardião da Saúde avaliara Zacarias como tendo agora 12 anos, mais um que a rapariga das tranças douradas. Tudo se devia ao regime especial que lhe havia sido aplicado com os conhecimentos científicos e tecnológicos dos especialistas zoorkianos.

     Depois da Escola e antes do jantar, o Conselho de Anciãos, com a presença de Zoosk, exaltaram a transformação, consideraram que se impunha uma decisão definitiva. Por isso, Zacarias passaria a ser membro de pleno direito da Comunidade Zoorkiana, se ele concordasse e se não houvesse oposição justificada de nenhum outro membro. Zaogt, junto de Zacarias, deu-lhe o braço, num gesto de apoio inequívoco. Os restantes entoaram a canção da Comunidade - uma espécie de hino de incentivo e união dos zoorkianos. Zacarias apenas baixou a cabeça, com a mão direita sobre o coração, em sinal de assentimento incondicional. O ancião mais antigo disse então: “- A partir deste momento, és um zoorkiano e passas a chamar-te Zaozt.”.

 

…………

     Com 22 anos de idade zoorkiana e ela com 21, Zaozt e Zaogt casaram. Impunha-se que ambos tivessem uma ocupação e preparação, respetivamente para Guardião e para a administração da Comunidade, geralmente como ajudantes de outro guardião ou de outra mulher, até procriarem, momento a partir do qual teriam de dedicar 3 anos, em exclusividade, ao filho ou filha, retomando depois parcialmente as suas tarefas até a criança atingir os cinco anos.

     Mas havia outras alternativas e Zaozt, com a concordância de Zaogt, escolheu ir viver para a sua aldeia natal durante uns anos. Não para se vingar de ninguém e muito menos dos pais, mas para tentar repor alguma justiça, porque os acontecimentos por ali pareciam um pouco descontrolados. Os pais de Zaozt e outros aldeões estavam a ser pressionados para venderem as suas terras por preços irrisórios, por um testa-de-ferro que representava um grande empresário da indústria de suinicultura e que iria construir grandes armazéns de porcos, encavalitados uns sobre os outros, só com espaço para comerem a ração e beberagens mais que duvidosas, que matariam lentamente os humanos com substancias tóxicas e cancerígenas. E enquanto uns queriam vender, como o pai do desaparecido Zacarias, outros agarravam-se de unhas e dentes ao pouco que tinham, sabendo que dessas terras dependia a sua sobrevivência. O comprador não queria arriscar compras isoladas, que podiam por em causa o projeto megalómano que pretendia, pondo os advogados a pressionar ainda mais os renitentes.

     A Comunidade concordou com a ideia de Zaozt, que consistia em comprar as terras à venda e as restantes, por um preço justo mas irrecusável, colocando-as à disposição de toda a aldeia e em tentar unir as restantes numa gestão única e em proveito de todos. Uma cooperativa, que rentabilizasse as colheitas, o leite e o fabrico de queijo, exportando esses produtos com um rótulo de qualidade. Nos primeiros temos, ele próprio seria a cabeça da organização, deixando posteriormente essa tarefa a gente que fosse formando e que mantivesse o interesse coletivo.

     Zaozt sabia de tudo o que se tinha passado com ele na infância. Viu na nuvem muitas cenas, mesmo a de falta de interesse dos pais do infeliz Zacarias. Isso tinha-o magoado, mais do que a zombaria dos colegas, uns tontos no final de contas. Mas, achava que isso só aumentava o desafio a que se propunha, pondo-o também a ele à prova. A Comunidade Zoorkiana pôs-lhe à disposição todos os meios necessários.

     No primeiro dia do ano, Zaozk reapareceu na aldeia, apeando-se de um carro vulgar que se materializara uns poucos quilómetros atrás na estrada deserta. Conversou com o dono da única taberna do lugar, para saber a quem pertencia uma determinada casa abandonada, que queria comprar para viver por ali, já que lhe parecia um lugar calmo e sossegado. E também o alertou para que queria comprar muitas terras, por um bom preço, o que despertou enorme curiosidade. Conseguida a compra da habitação, de imediato apareceu um rancho de operários que nunca antes haviam sido vistos por ali e que, em menos de uma semana, refizeram a casa, pondo-a como nova.

     Já instalado com Zaogk, Zaozk, depois de falar com o padre - a quem fez um generoso donativo para melhoramentos da igreja -, convocou toda a gente da aldeia para o salão paroquial. No dia da reunião, até o empresário, ele próprio, acompanhado pelo seu testa-de-ferrro, queria saber quem era aquele homem que lhe estava a lixar o negócio. E também lá estavam os pais do malogrado Zacarias.

     Zaozk apertou a mão de Zaogk quando viu os pais, mas conteve a emoção. Na Mesa improvisada da reunião do salão paroquial, além dele e da mulher, o padre ocupava o lado direito, dando a credibilidade pretendida. Zaozk disse palavras simples, com objetivos bem definidos e números apelativos. Explicou que era um homem abastado e que não pretendia a titularidade das terras, apenas a sua posse, voltando as mesmas aos seus proprietários se o projeto não desse frutos ao cabo de 2 anos. Apenas pedia 2 anos, só queria utilizar as terras e pagava um preço superior ao que lhes havia sido oferecido. Só exigia três coisas: que fosse ele a gerir a Cooperativa que iam criar, que as pessoas que ele escolhesse tivessem vontade de aprender para gerir a Cooperativa no futuro e que todos trabalhassem com afinco, porque afinal de contas, as terras continuavam a ser deles e os lucros da Cooperativa a eles pertenciam. Os gestores ganhariam apenas um salário simbólico para pagar as despesas que pudessem ter, além, naturalmente, do rendimento das suas próprias terras. Se ao cabo dos dois anos, a Cooperativa tivesse lucros e todos se encontrassem satisfeitos, as terras passavam a ser propriedade da Cooperativa, que era o mesmo que dizer de todos. E caso fosse dissolvida, cada um receberia de volta o que antes era seu.

     Quase nem houve perguntas. Estava tudo tão claro… Nem o tal empresário ousou usar da palavra. Os dias seguintes foram de grande sofrimento para Zaozk, apesar de todo o apoio e carinho que Zaogk lhe dispensava. Mas de repente…

     O João da Matilde veio com uns papéis amarrotados, prova da propriedade das suas terras. Enquanto esperava na sala, Zaozk foi ao escritório, colocou os documentos sobre a nuvem, duplicando-os. Num outro documento, já preparado apenas com o olhar sobre o papel embebido na nuvem, colocou o nome legal do João. Voltou e pediu-lhe para assinar com ele, após lhe entregar as notas de euros correspondentes ao negócio. Foi ao escritório de novo, duplicou o documento e entregou a cópia, bem como os originais que lhe tinha levado. O documento era simples, cabendo numa simples página A4, dizendo apenas o que tinha prometido na reunião com todos e tendo feito questão que João lesse e compreendesse tudo muito bem antes de assinar.

     Nos dias seguintes houve um autêntico corrupio. Ninguém questionava nada, apenas queria saber quando é que a Cooperativa começava a funcionar. O pai de Zaozt foi dos últimos a procurá-lo. Este pensou até que já não viesse. Velho, coxeando, deu-lhe alguma pena, mas não esquecera também os enxovalhos, as sovas, as humilhações. Não lhe queria qualquer mal e tinha de admitir que era o seu pai natural. Como não trazia os papéis do Enxurro e fazia questão de que essa terra fizesse parte da Cooperativa, combinaram que Zaozt passaria por casa dele e faria uma cópia no carro, assinando o acordo nessa altura. Era um pretexto para ver a mãe, pensou consigo mesmo perante uma exceção que abria em todo o processo de negociação com os aldeões.

     No dia seguinte, logo pela manhã, acabaram as últimas negociações. Depois do almoço resolveu ir a casa dos pais, acompanhado por Zaogt. O pai estava a caiar os muros de entrada, com sinais visíveis de que exagerara no vinho do almoço. O cão, o Zarolho - apesar de ter uma visão melhor que muitos, mas porque as manchas de pelos junto dos olhos davam a ideia de serem tortos -, dormia pachorrentamente na terra quente da passagem para o tanque de água da chuva. Já meio entrevado pela velhice, abriu um olho, arregalou ambos e desatou numa correria maluca para Zaozk. Todos pensaram que o ia atacar, morder, pelo menos ladrar… mas não. Enrolou-se-lhe nas pernas, esperando que a mão do “rapaz quadrado” lhe fizesse festas na cabeça. Zaozk não foi capaz de recusar. Perante o espanto do pai e da mãe, que entretanto se abeirara, o Zarolho lambeu-lhe as mãos num gesto de ternura.

     As desculpas foram desfeitas por uma frase gasta “- Pois, deve ter gostado de mim!”. Sem dar mais importância ao assunto, apenas contrariando a mãe quando quis expulsar a pontapé o cão de junto dele. – “Deixe estar, porque também gostei dele.”. Olhou melhor para a mãe, mais envelhecida que o pai, cabelo branco ralo, anunciando calvície. Olhos fundos sob umas olheiras negras. Cheirava a aguardente. Pelos vistos o almoço devia ter sido bem regado.

     Feitos os papéis, Zaozk e a mulher que nem um olá tinha merecido da mãe ou do pai, vieram embora, com o Zarolho colado às pernas. “- Ah, pode levá-lo se quiser…” – Gritou a mãe, desdentada, num sorriso de quem preferia dizer: “- Leve-o, que é menos uma boca a sustentar e um emplastro a aturar.”. E o cão veio mesmo com Zaozk que, com a mulher, cuidaram dele a partir dai.

      A Cooperativa nasceu e a adesão de todos foi notória. Os menos produtivos iam sendo enquadrados com alguma diplomacia e, de um modo geral, com resposta positiva. Apesar dos investimentos avultados, logo no primeiro ano o balanço foi muito satisfatório, perspetivando um crescimento significativo. De facto, no segundo ano, já os produtos eram conhecidos em muitas partes do Mundo. Os lucros distribuídos, na proporção do contributo de cada um, deixaram a aldeia em euforia.

     Conhecida no exterior, pela sua qualidade e prontidão de resposta aos seus compromissos, a Cooperativa revelava-se uma extraordinária fonte de receita de cada família e um empregador em grande escala, recorrendo a muitos trabalhadores de outras aldeias. Do individualismo improdutivo, tinha-se passado a um instrumento coletivo que, sem anular ninguém, potenciava as capacidades de cada um juntando-os num todo com identidade própria.

     O trabalho de Zaozk aproximava-se do seu termo. Ali já pouco o retinha. Até o Zarolho, de velhice e de tanta pancada, sofrido de vida, tinha morrido aos seus pés, numa mansidão de morte natural e consentida. Em contrapartida Zaogt estava grávida. Daria à luz no verão desse ano, um rapaz, pela avaliação do Guardião da Saúde, porque, de vez em quando, esgueiravam-se ao seu Mundo.

     Zaozk, em meados de maio, preparou os outros membros do Conselho de Administração da Cooperativa para a sua renúncia a partir de julho, cabendo a eles decidir quem ficaria no comando e fazendo-os prometer que continuariam a observar os mesmos princípios que os tinham norteado até aí. Tinham de ser herdeiros e cumpridores dessa filosofia e práxis.

     A Cooperativa ficou entregue a partir do dia 1 de julho aos administradores locais. A casa onde morava Zaozk e Zaogk ficou propriedade da Cooperativa a partir dessa data. O carro tinha sido vendido como sucata. Apesar da insistência, apenas disseram que iriam para o estrangeiro, de onde tinham vindo, porque a família precisava deles, e como Zaozk tinha dito, a sua presença ali seria temporária. Embarcaram na camioneta da carreira, apeando três povoações depois, onde, num descampado, voltaram à Comunidade Zoorkiana.

     O rapaz nasceu a 16 de julho. Disseram logo: - Parecido com a mãe, mesmo igual ao pai. Os Zoorkianos também têm estes hábitos e tontices de carinho. Zaozk e Zaogt, em agosto, apareceram na casa dos pais dele, a coberto de uma latada de vinha. O pai de Zaozk, o Aníbal Cercal, estranhou a visita, gritando pela mulher. Maria Zulmira, ao olhar para o bebé ao colo de Zaogt, disse num tom jocoso: “- Até parece o nosso filho, que desapareceu…”. Aníbal deu uma risada, acrescentando: “- Não liguem, hoje bebeu um copito a mais, o nosso filho morreu de doença, coitado…”

     Zaozk, puxando a mulher contra ele, pela cintura, ficando com o bebé entre ambos, respondeu: “- Este é o nosso filho e o vosso neto!”… Cinco segundos depois, desapareceram.

Avelino Rosa

Odivelas, 05/10/2014

Notas finais:

1.    Este conto foi feito com o intuito de ser contado a adultos e a crianças. Porém, quando contado a crianças deve ser simplificado e com as adaptações necessárias a não ferir a sua suscetibilidade ou causar emoções e desconforto evitáveis.

 

2.    O conto presta-se a diversas interpretações do narrador, sendo uma delas da autoria de Maria Mar:

 

     “Fiquei a pensar no que tinha lido e na maneira fascinante como abordaste alguns dos problemas sociais, ou mesmo doença social, mais brutal que existe, a meu ver, claro, porque são atos discriminatórios intencionais, repetidos, de violência física e psicológica, que podem levar à destruição total da vítima ou a traumas psicológicos irreversíveis.

     O bullying, na escola, na aldeia e na família do adolescente Zacarias, pelo seu aspeto físico, provocou nele desespero, incompreensão, isolamento e solidão, que o levaram à fuga. Vai daí, transportaste-o para uma outra vida ficcionada, com normas e acompanhamento técnico de saúde e educação (que deveriam ser as humanas, que lhe faltaram), permitindo a notável transformação física e mental do Zacarias.

      Finalmente, e com auto estima, para lhe permitir sonhar e ser aceite pelos seus semelhantes, e não só, ao inverso do que poderia ter acontecido se não tivesse sido bem tratado, sem desejar vingança, ainda se propôs libertar as gentes da sua aldeia das garras dos exploradores.

     O que mais me impressionou, de facto, foi o seu fiel amigo Zarolho, ter sido o único a reconhecê-lo e não mais o ter largado, nem deixado de mimar, morrendo certamente feliz, ao seu lado.

     Grande lição de vida! Ao Zarolho nunca interessou que o amigo fosse anão ou quadrado, não interessou a sua cor ou raça, a sua profissão ou preferência sexual, ou a sua religião. Foi nele que Zacarias encontrou a comunicação e o amor que os humanos lhe roubaram, incluindo os pais, por mais absurdo que pareça.

     Será que há outras maneiras de interpretar o teu conto?

Gostei tanto, que um dia destes contá-lo-ei, com simples palavras, claro, aos meus netinhos.”.

 

3.    O autor autoriza, desde já, a narração deste conto, sem necessidade de qualquer autorização prévia, exigindo apenas que o narrador o entenda e sinta com a mesma emoção e sentimento com que foi escrito, escorrendo as palavras como um riacho quente e gélido, ao sabor dos dedos irrequietos e rebeldes.

 

[1] s.m. Grande quantidade de água que, correndo intensamente, tem origem no excesso de chuvas torrenciais; enxurrada. P.ext. Jato forte de águas sujas e lixo. [Dicionário Online de Português]. Provavelmente, a origem do nome do pedaço de terra.

[2] A castanha que comemos é, de facto, uma semente que surge no interior de um ouriço (o fruto do castanheiro). Mas, embora seja uma semente, como as nozes, tem muito menos gordura e muito mais amido (um hidrato de carbono), o que lhe dá outras possibilidades de uso na alimentação. As castanhas têm mesmo cerca do dobro da percentagem de amido das batatas. São também ricas em vitaminas C e B6 e uma boa fonte de potássio. Consideradas, atualmente, quase como uma “guloseima” de época, as castanhas, em tempo idos, constituíram um nutritivo complemento alimentar, substituindo o pão na ausência deste, quando os rigores e escassez do Inverno se instalavam. Cozidas, assadas ou transformadas em farinha, as castanhas sempre foram um alimento muito popular, cujo aproveitamento remonta à Pré-História. [Wikipédia].

[3] Por isso o cheiro do rapaz tinha acabado na árvore. O vulto não deixara rasto nem qualquer cheiro que pudesse ser seguido pelos cães.

[4] A Amazónia (também chamada de Floresta Amazónica, Selva Amazónica, Floresta Equatorial da Amazónia, Floresta Pluvial ou Hileia Amazónica) é uma floresta latifoliada húmida que cobre a maior parte da Bacia Amazónica da América do Sul. Esta bacia abrange sete milhões de quilómetros quadrados, dos quais cinco milhões e meio de quilómetros quadrados são cobertos pela floresta tropical. Esta região inclui territórios pertencentes a nove nações. A maioria das florestas está contida dentro do Brasil, com 60 por cento da floresta, seguida pelo Peru com 13 por cento e com partes menores na Colômbia, Venezuela, Equador, Bolívia, Guiana, Suriname e França (Guiana Francesa). Estados ou departamentos de quatro nações vizinhas do Brasil têm o nome de Amazonas por isso. A Amazónia representa mais da metade das florestas tropicais remanescentes no planeta e compreende a maior biodiversidade em uma floresta tropical no mundo. É um dos seis grandes biomas brasileiros. [Wikipédia]

[5] O teletransporte ou teleporte seria o processo de moção de objetos de um lugar para outro com a transformação da matéria em alguma forma de energia e sua posterior reconstituição em outro local, baseado na famosa fórmula de Einstein: E=m.c².1. É importante ressaltar que teletransporte como definido aqui e na ficção científica, não tem relação com teletransporte quântico, um termo técnico-científico utilizado na Física quântica para denotar transporte de informação. [Wikipédia]

 

 

A Caçada

 

     - Aiéee... (Bump... Bump...) Aiéee... (Bump... Bump...) Aiéee… Fui ao Pico e piquei-me / Piquei-me lá num silvado / Ao Pico não volto mais / Sem o Pico ser mondado / Ó Pico, Pico das silvas / Ó Faial, Faial das canas / Ó Pico tu não me logras / Ó Faial, tu não me enganas...

     - Porra, com esse vozeirão espantas os coelhos...

     - E tu, a cada passo, provocas um tremor de terra, com essas botas velhas da tropa.

      - Relíquias de bons tempos...

      - A guerra?!

      - Sim, a guerra...

      - Como podes dizer isso? Matar alguém dá algum gozo?

      - Podes crer que sim. Começávamos por matar, para não sermos mortos. Mas acabávamos por gostar de matar…

     - Homem, tens ideia do que acabas de dizer?

     - Tenho. Para mim é normal. Para ti, devo ser um monstro, um gajo frio e sem coração. E tens razão, sou. Foi para isso que me treinaram. Para matar e não sentir remorsos.

     - Eu sei que não eras nem és assim. Na verdade, mudaram-te, mudaram-nos. Matar logo ou mais devagar vem a dar no mesmo. Até acho que é mais honesto matar logo, numa guerra com inimigos visíveis ou que se podem identificar do que ir deixando morrer aos poucos, como nos fazem agora, carentes de tudo.

     - Olha um coelho!... Porra, fugiu! Falas demais. A vida resume-se a isso: matar ou morrer. Depressa ou devagar tanto faz. Só sobrevive o mais forte. Tudo o resto é treta. E não me fales mais da guerra porque não respondo mais nada.

    

     Porque temos de matar para não morrer?! Em sentido real ou figurado. A vida em sociedade é assim tão cruel? Apesar das aparências, é uma guerra de batalhas sem tréguas, de lutas com propósitos definidos. Objetivos de conquista, de riqueza e de poder? Jogos tribais de domínio, de satisfação pessoal, de simples prazer, de concretização de meros fetiches? A artificialização dos desejos, em imitação barata ou a crédito e aparência fabricada, por vezes auto convincente? A fama efémera, a expetativa exorbitada e a queda vertiginosa dos saltos de sapato que promoveram mas apressaram a morte quase súbita não declarada?

     Olhando de frente o mar, sentados algures sobre um muro de irregulares pedras de lava, sob a majestosa montanha do Pico, adivinhando os contornos do Faial, envolto num manto de chuva miudinha, Manuel Pereira a Aldino Quitério, na mornaça das noites de verão, sentiram-se em paz.

 

 

         Um coelho… e outro…e outro ainda saíram das leiras e roeram as ervas tenras e orvalhadas, ignorando a presença dos caçadores e a luz das lanternas elétricas. Os olhos pareciam saltar das órbitas, alaranjados, luzidios.

     - Vais atirar?

     - Eu não, e tu?

     - Não. Olha...

     Estão a brincar… E riram ambos, feitos cúmplices do universo das coisas simples, por isso belas.

     Continuaram a andar, em silêncio. Manuel Pereira um pouco agastado com Aldino Quitério, mas, no fundo, entendia que não gostasse de falar da guerra do ultramar, como lhe chamavam.

 

     Manuel não fora alistado, apesar de nunca se saber bem porquê. Parece que os pais nunca o tinham registado ou o registo ter-se-ia perdido. Como nunca fora à escola nem ninguém se incomodou com isso, foi passando o seu tempo entre a agricultura e a caça à baleia. Forte e musculado como um touro, todos achavam um mistério que não tivesse feito a tropa. Mas, respeitado e fazendo-se respeitar, ninguém se atrevia a colocar em causa a sua bravura e dedicação à pátria, fosse lá o que isso fosse. Talvez aquela tatuagem que os que regressavam traziam no braço “Amor de Mãe”. Mátria era palavra inexistente no léxico das gentes que pensa mais com o corpo do que com a cabeça, donde tal facto era mera conjetura de ocasião, que durava o tempo do emborcanço de uma aguardente ao final da tarde.

 

     Aldino tinha demónios na cabeça, como dizia. Depois do regresso do Ultramar, encostava-se às paredes interiores, lívido, ou atirava-se para a sombra de um muro estendido ao comprido, sempre que se ouvia o foguete a anunciar baleia, ficando a tremer, como varas verdes, durante uns bons minutos. Festas nem a sonhar. O barulho das gentes, da fanfarra e, sobretudo, dos foguetes e fogo-de-artifício proibiam-no dessas diversões ansiadas pelos comuns mortais. A ânsia dele era esquecer os pesadelos que lhe povoavam a mente, sobretudo ao longo das noites. Remexia-se na cama, gritava ordens e palavrões, acordava de supetão e sentava-se, febril e escorrendo em suores frios. Pertencera a uma tropa de elite, bem treinado para enfrentar os inimigos e todas as provações possíveis e imagináveis. Mas não lhe falaram do trauma pós-guerra, da perda de controlo, nas emboscadas que se apoderavam da cabeça, com turras a atacar, furiosos, olhos esbugalhados refletindo o luar da savana, e os corpos dos companheiros contorcendo-se, decepados por minas e pelas catanas, gritando pela mãe, pela namorada, por áuga, com as bocas ressequidas, as gargantas refolgando sangue e ração de combate.

 

     - Pára, ali à frente… - fez notar Aldino a Manuel, em surdina.

     - Dispara!

     Dois disparos, mas nenhum coelho atingido. Ambos riram, cúmplices. Sentaram-se, de novo, agora numa clareira, a merendar. Linguiça e bolo de milho. Depois umas maçãs, ainda meio verdes, mas já comestíveis. Acompanhados com um tinto de fabrico caseiro, chocalhado nas cabaças. Tudo aconchegado nas mochilas a tiracolo.

 

     Manuel vivia em pecado, diziam as mulheres da aldeia. Não era casado e já tinha um filho de meses. Coisas tecidas na adega perto do porto. Ela enfeitiçara o bom homem. Manuel sabia desses mexericos e, por uma vez, apenas por uma vez, condescendera em responder que não se preocupassem porque estava perfeitamente no seu juízo e vivia com quem quisesse e como lhe apetecesse e ninguém tinha nada a ver com isso. Também nunca mais lhe perguntaram coisa alguma ou tiveram coragem de comentar, nem que indiretamente, fosse o que fosse. Nem os companheiros do bote de caça à baleia. (Com o Manuel é melhor não brincar, quanto mais provocar, dissera o Abílio, vizinho, que tinha já experimentado a manápula do baleeiro, em tempos idos).

 

     Aldino vivia com a única irmã. Na casa térrea dos pais. Herança de ambos, por ali foram ficando. Ela pouco dada a namoros, ele sabendo que nunca seria feliz no casamento. Mulher para ele era para a lide da casa e da roupa e para o satisfazer no sexo. De resto, dormir na mesma cama não estava nos seus planos, até porque possuído por tantos demónios e outras tantas memórias deprimentes nenhuma mulher seria feliz ao seu lado. De quando em vez ia até à vila, à casa das putas e por lá satisfazia as necessidades mais prementes. Até que um dia deixou de aparecer. A puta mais habitual, desolada com a perda de um bom cliente, a quem já tinha um certo apego, como dizia, lamentou-se, deixando no ar uma afirmação misteriosa: “Pois, entendo...”. E mais não disse, para desespero de todas.

 

   Manuel e Aldino fecharam as mochilas, prosseguindo. A noite engrossara. Sem Lua e com as estrelas esbatidas quase não viam onde colocavam os pés. Um vento crescente enregelava-os. A ameaça de chuva era eminente. Decidiram, sensatamente, acabar por ali a caçada e voltar para casa. Desceram apressadamente até à aldeia, por atalhos, estreitos e abundantes de silvas, que lhe iam rasgando as samarras compridas. Despediram-se como dois irmãos. Era o que eram, afinal. Únicos amigos no meio de uma pequena multidão que os tolerava mas não acolhia. Na verdade, pouco se importavam com isso. A sua amizade tinha-se cimentado na ausência e na diferença, aceitando-se mutuamente.

 

     Manuel encontrou o filho e a mulher já adormecidos. Despiu a roupa de caça e vestiu umas ceroulas, lavou-se e deitou-se com todos os cuidados, não fosse acordar a mulher. Ainda olhou para ela de soslaio. Pareceu-lhe mais bonita do que sempre. A tempestade desabou, ouvindo-se o telhado de madeira ranger e as telhas tremendo sob as fortes rajadas de vento. Ela voltou-se abraçando-o, como que a proteger-se no corpo forte que amava. Ele, embevecido, pensou que um dia tinha de lhe propor casamento.

     Aldino encontrou a irmã ainda à lareira tricotando. Adivinhando a tempestade, deixara-se ficar, temerosa. Não reagiu à chegada dele, disfarçando a preocupação. Aldino aproximou-se, por detrás, colocou-lhe uma mão no ombro e beijou-lhe os cabelos. Ela puxou-lhe a mão, beijando-a e colocando-a sobre os seios. Erguendo-se, abraçou-o, colando-se ao corpo do irmão, beijando-o sofregamente na boca. O desejo acendeu-se e incendiou os corpos. Incesto. Mas amor verdadeiro. Sempre se haviam olhado e sentido para além dos laços familiares. Mas tudo começara mais de um ano após o regresso de Aldino da guerra. Acordara suado, numa tremedeira incontrolada. A irmã viera a correr acudir ao irmão. A roupa da cama tinha sido atirada para o chão. Ela viu o buraco das ceroulas meio aberto, com o pénis saindo, suado e intumescido. Sentou-se ao lado do irmão, abraçando-o e repousando a cabeça no seu peito. Sob a camisa de dormir sentiu uma humidade repentina entre as pernas, que lhe escorria em abundância, inundando-a como o suor ao irmão. Atónitos mas tomados pelo desejo, percebendo que há muito os corpos o reclamavam, deixaram-se sucumbir na viagem dos sentidos e do prazer contidos e asfixiados pela moral.

 

     Manuel e Aldino, homens rudes, forjados na segregação e nas agruras do mar e no rugido das tempestades e das entranhas da terra, eram felizes assim mesmo, lúcidos e senhores do seu destino.

 

Avelino Rosa

Vilamoura, 24-08-2014

 

Boca do Inferno

 

[Para ser contado]

I

   Numa ilha algures no Atlântico, que dizem ser a montanha mais alta da mítica Atlântida, havia uma caverna que os naturais chamavam de Boca do Inferno. A entrada estava coberta de vegetação, de onde sobressaiam figueiras do diabo[1] - talvez por isso a designação que os nativos davam àquele local, inexplorado.

   Entre a estrada que circundava a ilha e o mar sempre encrespado, a caverna passava quase despercebia. Mas quando andava gente nas redondezas - que ninguém se atrevia a aproximar-se e, muito menos, a entrar nela -, as conversas pouco variavam. Um avô ou parente já falecido contara que todos os temerários que se tinham atrevido a ultrapassar as rochas, estranhas e desalinhadas, recortadas por entre as figueiras, nunca mais haviam sido vistos. Estavam com certeza nas profundezas do Inferno. Havia até quem tivesse visto fumo muito negro a sair dali, pela noite cerrada ou nos dias de chuva intensa, que eram, aliás, muito frequentes. Era do fogo, dos corpos a arder nas fogueiras do Diabo, por isso também o mau cheiro que feria as narinas nalgumas ocasiões.

   Mas os vivos - tirando um ou outro que vira qualquer coisa a mexer ou mesmo uma figura com uns cornos afiados, bem avinhado numa das duas tabernas da aldeia e que contava a história na outra, onde umas aguardentes afastavam os fantasmas -, nunca, por nunca haviam deparado com algo que os assustasse ou fizesse benzer-se e derramar, à pressa, umas rezas, religiosas ou vernáculas. O certo é que todos evitavam passar por ali e quando o tinham de fazer sozinhos aceleravam o passo e olhavam para o topo da montanha, mesmo que não estivesse visível.

   O Francisco Cordeiro, mais conhecido pelo Chico, era zarolho. O Norró – nunca ninguém conseguiu explicar porquê – era a alcunha do Artur Pereira, coxo. Um zarolho e um coxo, sem nada de seu, amanhando a terra dos outros e alvo de chacota e discriminação gerais, só podiam ser amigos inseparáveis. Ao ponto de dormirem no mesmo casebre, construído sobre um morro inóspito quase sobranceiro à Boca do Inferno. O facto era pouco relevante, já que ambos adormeciam pouco depois do por do sol, após um breve jantar de pão rijo com queijo, a que muitas vezes limpavam o bolor, ou de uma sopa fria e uma peça de fruta esmoladas da vizinhança. Sempre acompanhado - e, frequentemente, único alimento – de vinho tinto, em abundância. O almoço tomado no campo por conta do patrão ocasional era, com alguma sorte, a refeição mais decente que tomavam. Até ao meio dia, a força do corpo e dos braços provinha de um ou dois copos de aguardente bem aviados logo ao acordar e antes de se porem a caminho do trabalho, ainda a alvorada não raiara.

   Geralmente, a conversa era nenhuma ou a estritamente necessária para se entenderem, mas numa ou noutra noite do fim-de-semana, em que o serão, à luz da lamparina a petróleo, se prolongava um pouco mais e os vapores do álcool iluminavam a cabeça e faziam os olhos luzir no lusco-fusco, o Chico e o Norró[2] falavam sobre as coisas que ouviam ao som das enxadas a rasgar a terra ou do mastigar dos outros trabalhadores que tinham mulheres e filhos e também problemas. Não ter nada, a não ser a comida e vinho e aguardente, não ter de pagar despesas da casa e da família era, apesar da desdita de ambos, uma boa vida.

      - Achas que temos mesmo uma boa vida, Chico? Só trabalhamos, comemos e bebemos, nunca saímos daqui, toda a gente troça de nós, tratam-nos pior que aos cães… e até os cães nos ladram e tentam ferrar-nos os dentes… Achas isto uma boa vida?

      - Pois… tens razão, Norró. Nem à Igreja vamos. Até dizem que somos filhos de Satanás. Isto disse o João Sapateiro na nossa cara se bem te lembras, imagina agora o que dirão nas nossas costas…

      - É, homem… e se calhar até têm razão. Olha para nós… Um zarolho e um coxo, feios, rotos e sujos, da cor da terra que amanhamos e que nem é nossa… É, devem ter razão, somos mesmo filhos do Diabo.

   Ambos olhavam para uma pequena janela tapada com ripas de madeira, como se fosse de vidro e dali avistassem a Boca do Inferno. O Chico nunca conhecera os pais. Ao que se lembrava, um velha vestida de negro cuidara dele até a ver estendida na cama, esbranquiçada e imóvel. Soubera que morrera porque o disse a vizinha do lado a quem foi chamar, contando-lhe aquele espanto. Dai em diante, com sete ou oito anos, tomara conta de si e, quando mais tarde - já homem antecipado - tentou saber dos pais todos se fecharam num mistério insondável. Já então vivia com o Norró, que lhe aparecera por acaso na terra que cavava à procura de trabalho, fugido dos pais que o maltratavam, “abaixo de cão” no outro lado da Ilha. Deu-lhe abrigo e acolheu-o como um irmão, irmão na desgraça, entenda-se. Nunca os pais do Norró o procuraram nem o Chico soube quem eram os seus. Assim se deixaram ficar, que isso pouco ou nenhuma falta lhes fazia.

      - Havíamos de ir um dia destes dar uma vista de olhos na Boca do Inferno, quem sabe se não temos família lá por baixo da terra… - Disse o Chico, mostrando todos os dentes amarelos que lhe restavam, enquanto um resto de baforada do cigarro escapava pela cara e pelo ar, fazendo-o fechar o olho bom.

      - Olha e porque não? Eu cá não tenho medo. Se morrer, paciência, tanto faz agora ou daqui a uns anos… - Conjeturou Norró, enrolando um cigarro de tabaco puro cultivado nos poucos metros quadrados à volta do quintal do casebre.

      - Eu também não tenho medo, claro. Mas, e se aparecem almas do outro mundo ou o próprio Diabo? – Retorquiu o Chico, com o riso forçado

      - Deixa aparecer. Achas que nos vão morder como os cães ou esquartejar como condenados à morte ou porem-nos malucos voando e rodando à nossa volta, enquanto os nossos ouvidos zunem até rebentar ou que nos atiram numa fogueira para sermos servidos espetados num pau como churrasco ao Diabo? – Ironizou Norró, esvaziando de uma só vez o copo de tinto.

   Chico ria descontrolado, enchendo de novo o copo do amigo e o seu, com as mãos trémulas e a língua já entravada pelos efeitos do álcool. A conversa acabou breve, com a combinação de no dia seguinte, um domingo, dia sagrado, irem dar cumprimento ao acordado. Pois, talvez até se fizessem ao caminho se não acordassem lá para o meio-dia, ensonados e com uma dor de cabeça dos diabos. Ficava para o próximo fim-de-semana. Era mais aconselhável. E tinham de tratar dos candeeiros e de umas buchas[3] que tinham de levar para o caminho. Esta a nova programação, após emborcarem o primeiro copo de aguardente e enquanto o segundo se evaporava rapidamente pela boca e narinas.

   A semana passou como sempre, mas todas as noites antes de adormecer pesadamente nos colchões, meio esventrados, de casca ressequida de maçaroca[4] de milho, confirmavam a promessa, refazendo um ou outro pormenor. Além do pão e do queijo, não podiam esquecer o vinho e, claro, uma quantidade generosa de aguardente, até porque era essencial para atenuar ou mesmo anestesiar algum susto ou ferimento que pudessem acontecer. Depois, havia que levar petróleo extra para os candeeiros e para os isqueiros, bem como tabaco e papel de enrolar. O Chico ainda se lembrou de levar água mas o Norró achou que era peso a mais e que não ia servir para nada. As mochilas de dois montanheiros, que tinham acompanhado, em tempos, ao sopé, da montanha e que no regresso lhas tinham oferecido, iam agora ser úteis. Tudo previsto, concluíram. A ida estava agora aprazada para a alvorada de sábado. Na véspera, como numa derradeira confirmação, o Chico perguntou ao Norró.

      - Vamos mesmo, não vamos?

      - Claro, homem, claro. Vamos lá mas é dormir…

   Na verdade, estavam era aterrados, mas nenhum queria dar parte de fraco. Que homem, enxuto, zarolho ou coxo, tem o seu orgulho. Mal dormiram e nos poucos momentos de sono sobrevinham os pesadelos, com grupos de diabos da cor da ferrugem a atormentá-los e a torturá-los. O Chico até sonhou que um dos diabos lhe espetara o olho bom, deixando-o cego, enquanto o Norró sentiu mesmo outro a cortar-lhe as pernas, deixando apenas dois cotos, cicatrizados por uma espécie de sacho[5] incandescente. Norró levantou-se de supetão, tocando ambas as pernas no escuro. Sentindo-as, ficou mais descansado, abriu a porta e respirou o ar da noite estrelada. Procurou a Lua, mas em vão. Talvez estivesse escondida do outro lado da montanha, como quem não se pretendia comprometer com tão insana aventura. “Que se lixasse… Não havia como voltar atrás…”.

      - Chico!”.

 

II

   Passaram um pouco de água na cara, com a barba por fazer de alguns dias, tomaram os dois copos de aguardente habituais, vestiram os casacos, apertaram as mochilas e puseram-se a caminho. A noite de começo de primavera estava fresca, uma chuva miudinha caia como uma moinha persistente e incómoda. Habituados, pouco se importaram com isso, calcando a terra amolecida.

   Ao cabo de uma meia hora estavam em frente da caverna. Mal se divisava a entrada por entre as figueiras do diabo e as rochas. Pararam um momento, hesitando, mas, olhando um para o outro, foram impulsionados como por uma mola e desceram uma vereda estreita, sentido as botas e as calças agarradas por urtigas e rasgadas por espinhos de catos e dos frutos das figueiras. Parecia que algo sobrenatural os fazia avançar firmes e decididos. Ultrapassaram as rochas, ora subindo-as e descendo-as do lado oposto, ora esgueirando-se pelo seu interior, como se atravessassem um labirinto. Depois destas, a caverna parecia afunilar, descendo em curvas e contracurvas, alargando, de vez em quando, em pequenas galerias de cujas paredes brotavam fios de água soltos, escorrendo e juntando-se a outros, criando diminutos ribeiros ao redor do chão, confluindo para a próxima passagem.

   Chico e Norró já tinham entendido que teriam de avançar com toda a precaução. Por vezes, a terra cedia tanto debaixo dos pés que lhes parecia irem cair desamparados algures. Foi assim que, ao depararem com uma ampla galeria de estalactites e estalagmites[6] pararam antes de a atravessar. Repararam também que aquelas estruturas que cresciam do teto e do chão pareciam transmitir uma luminosidade rosácea. Ficaram extasiados com tanta beleza. As gotas que escorriam das estalactites convergiam para o centro da galeria, alimentando agora um pequeno riacho que deveria continuar pela caverna. Atravessaram a galeria colocando um pé de cada lado dá água e evitando as estalagmites, até entrarem na passagem seguinte. Uma luz, ténue a princípio, depois intensificando, anunciava nova surpresa. Chico e Norró olharam-se. Agora viam nitidamente um ao outro. Os candeeiros de petróleo pareciam desnecessários. À cautela mantiveram-nos acesos e redobraram os cuidados.

   Um lago efervescente apareceu, alimentado por inúmeros riachos vindos do cimo da terra. A água nas margens era de uma limpidez nunca vista por ambos. A galeria estava iluminada como se inúmeros sóis minúsculos[7] emitissem luz, de diversos tons, resultando num cenário único e majestoso, que ambos ficaram a admirar alguns minutos. À volta do lago uma faixa de areia fina, multicolor – talvez pela reflexão da luz -, parecia convidar os pés cansados dos aventureiros. A água devia estar a ferver, pensaram, ao vê-la a borbulhar. Mas qualquer coisa tinha mudado aqueles homens rudes, fazendo-os acreditar que nem tudo o que se vê é ou nem tudo em que se acredita existe.

   Norró deixou a mochila, o casaco e a lamparina a alguns metros do lago e aproximou-se. Colocou a mão à beira da água. Sentiu-a morna. Esticou o braço e concluiu o mesmo.

      - E se tomássemos um banho, Chico?

      - Achas? A água lá mais para dentro não estará mesmo a ferver?

      - Bem, se não experimentarmos, nunca vamos saber…

   Despiram-se, sentando-se na areia com os pés na água, sentindo o já merecido descanso e conforto. Afinal estavam dentro da caverna há quase uma hora, sempre descendo, aos ziguezagues, não fazendo ideia se estavam debaixo do mar ou sob a montanha. Norró levantou-se e avançou, pé ante pé, pelo lago. A temperatura era igual. Afoitou-se um pouco mais, sempre com a areia fina debaixo dos pés, ficando com a água pela cintura, sentindo as bolhas a rebentar à sua volta. Chico seguiu-o. Atiraram chapadas de água um ao outro, momentaneamente crianças, e molhavam-se como se lavassem a terra entranhada, de muitos anos, nos poros. Mergulhavam, retiravam a água cabelos, dos olhos e das faces e repetiam.

      - Norró! – Gritou Chico de repente.

      - Que foi homem? – Indagou Norró assustado.

      - Eu acho que passei a ver dos dois olhos e tu estás diferente ou será da minha vista?

      - Tu também estás diferente homem… Que diabo!... Até pareces bonito… E eu já não coxeio… - Notou Norró, já próximo da beira do lago.

   E ambos riram, olhando incrédulos um para o outro. Apesar de nenhum saber a sua idade real, não tinham mais de quarenta anos. E agora, na frente de cada um estava um jovem de trinta anos no máximo. Dois belos homens, sem barba e com um corpo escultural. Alguma coisa de milagroso acontecera. Chico e Norró não sabiam ao certo se estavam felizes ou apenas num sonho qualquer que, naquela noite, Morfeu[8] resolvera que havia de ser diferente. Aceitando o sonho ou a realidade, vestiram-se, comeram um pouco de pão e queijo e beberam uns bons goles de vinho. Enrolaram e acenderam um cigarro e ficaram uns minutos olhando o lago e, de soslaio, um para o outro, certificando-se de tão inesperada mudança.

   Depois, resolveram prosseguir, ladeando a água e enfiando por uma outa passagem, quase do lado oposto de onde tinham chegado a esta galeria. Desembocava poucos metros à frente sobre um lajeado perpendicular, que acompanhava uma parede de pedras de basalto[9] sobrepostas, formando um corredor com uma saída de cada lado. Chico e Norró olharam um para o outro, indecisos. A cor da pedra do chão do lado direito era mais clara progressivamente até quase chegar a um branco encardido enquanto para o lado esquerdo ia escurecendo até um preto baço. Além disso, o corredor tinha uma luminosidade estranha, reparando então que com tons de laranja e vermelho para a esquerda e de violeta e azul para a direita. Mas que poderia querer isso dizer? Nada, concluíram, ao cabo de uns minutos, esfregando, várias vezes, as cabeças. Não se decidiam mesmo… Mas tinham de continuar, isso sabiam, mas não por onde.

      - Vamos pela direita, que não somos canhotos e a direita é a melhor mão e os santos ficam à direita de deus… - Disse o Chico, com ar de sabedor.

      - Não, vamos pela esquerda, porque tudo o que disseste está certo e pode ser uma armadilha! – Contrapôs o Norró, num rasgo de inteligência.

 

 

…………

Vamos escolher nós… pela direita III-A e pela esquerda III-B.

…………

 

III – A

   Resolveram ir pela direita, com o lajeado a ficar mais claro e a luminosidade com tons de violeta e azul. Entraram pela abertura em semicírculo, percorrendo um túnel curto, com as paredes forradas de musgo mesclado de cremes e amarelos, que desembocava numa galeria redonda com uma abóbada azul celestial irradiando uma luz semelhante à do sol. Ao fundo, à distância de algumas dezenas de degraus, largos e em espiral, uma espécie de praia com areia e um mar também azul, mas mais escuro que o do céu da galeria. Na praia, seis mulheres esbeltas, lindas como nunca haviam visto, nem nas revistas e calendários da tasca do Clarimundo.

   Pararam ainda no começo da descida, olhando extasiados, dando graças à Sorte que lhes indicara a saída para a felicidade. À medida que desciam viam os seios nus daquelas mulheres, fruto proibido e agora prometido, mas… eram algo estranhas da cintura para baixo. A aproximação revelou-as como meio mulheres meio peixes ou sereias, lembrando uma conversa ouvida e uma foto numa revista da tasca.

   Elas chamavam-nos num linguajar desconhecido, gesticulando com os braços e abanando a cauda. Deslocavam-se pela areia de uma maneira peculiar, ondulando da cintura para baixo e firmando-se nos braços. Chico e Norró começaram a ver alguns pormenores. Cobertas de escamas em metade do corpo, o restante que, ao longe parecia pele de mulher, era uma camada fina e rosada de um tecido semelhante ao de um peixe, com uma ou outra pequena escama, como um sinal castanho ou avermelhado.

   Chico e Norró pararam no penúltimo degrau da escada, numa grande arengada.

      - Como vamos fazer com uma destas mulher, ou peixe ou lá o que seja e com tantas ao mesmo tempo? – Questionou Chico.

      - Sei lá. Com a Clotilde fanhosa, que ia ter connosco a casa, sempre com os copos, era fácil. Apesar de cheirar mal tinha pernas… e estas… sei lá homem! – Lamentou o Norró.

      - E como sabemos que são fêmeas e não machos? – Lembrou-se o Chico.

      - Pois, tem mais essa…

   A conversa ficou por aqui, porque as sereias, erguidas sobre as caudas, puxaram-nos para a areia e, sem lhe darem qualquer satisfação, começaram a retirar-lhes a mochila e a roupa, peça a peça. As lamparinas já se haviam quebrado e apagado nos últimos degraus da escada. As sereias contemplaram, por momentos, aqueles humanos, despidos como vieram ao mundo – talvez não muito estranhos para elas -, arrastando-os no meio do grupo para o mar. Numa grande algazarra, o festim parece ter-se consumado debaixo de água.

   Não se sabe o que aconteceu – talvez apenas se possa imaginar -, o certo é que as cabeças do Chico e do Norró vieram à superfície umas quantas vezes, com algas enroladas nos cabelos, ouvindo-se gritos roucos e cansados, e… após uns minutos, nunca mais deram sinal de vida. Nem eles nem as sereias.

   Para onde foram, que lhes aconteceu? A galeria escureceu aos poucos e o mar e a areia fundiram-se na noite dos sonhos.

   [Se calhar, deveriam ter optado pela outra porta. Coisas do destino.]

 

III-B

   Resolveram ir pela esquerda, com o lajeado a ficar mais escuro e a luminosidade com tons de laranja e vermelho. Entraram pela abertura em semicírculo, percorrendo um túnel curto, com as paredes forradas de musgo mesclado de amarelos e castanhos vivos, que desembocava numa galeria estreita, ascendente. Uma escada íngreme, talhada na parede do lado esquerdo, subia a perder de vista. Ouviam-se frequentes ruídos, acompanhadas de clarões que cegavam os aventureiros. No entretanto, uma chuva de faíscas caia, como gotas de fogo-de-artifício pela penumbra da galeria.

   Cada vez mais intrigados, Chico e Norró subiam temerosos, receando o que pudessem encontrar. Já com algumas centenas de degraus sob as botas, começaram a sentir um calor cada vez mais intenso, como mais intensos eram os ruídos e os clarões. Queriam, mas não podiam parar. Impelia-os algo incontrolável. Sentiam que a vida perigava, que a morte os chamava, mas não podiam deixar de subir, subir sempre. Até se esquecerem de quanto tinham subido e do calor que os fizera despir os casacos e arrastar a mochila, dos ruídos e dos clarões. O corpo estava dormente, a cabeça vazia, andavam como autómatos.

   A galeria abria agora num patamar superior, alargando sem fim à vista. Fogos nasciam, intermitentes, do chão, molhado de um vermelho escuro, ensanguentado, aqui e ali matizado de tufos que pareciam de pelos ou de cabelos. Os olhos esbugalhados começaram, através de uma grande fumarada, a mostrar o que pareciam porcos dependurados, abertos de cima abaixo. As vísceras, com exceção do coração, estavam amontoadas de lado, formando montes nojentos que exalavam um cheiro nauseabundo. As chamas das fogueiras tostavam cada animal, aumentadas momentaneamente com o sopro de uma estrutura parecida com um fole, que emitia uma espécie de rugido surdo. Assim se explicavam os clarões e os ruídos ouvidos durante a subida.

   Seres estranhos, que pareciam chimpanzés[10], mas com grandes chifres e dentes salientes, andavam de um lado para o outro, com grandes facas[11], cortando as partes assadas e levando-as para um compartimento ao lado, donde vinha uma grande algazarra de comilões. Descobertos, Chico e Norró, foram conduzidos a uma clareira onde uma dúzia de chimpanzés estavam à roda de uma mesa de pedra enorme, sobre a qual duas fêmeas - a avaliar pelas mamas que caiam até às enormes barrigas - dançavam. Foram mandos sentar, pondo-lhe à frente dois bocados de pernil, meio queimados, e uma mistela alcoólica, escura e com vago sabor a inhame[12], mas que lhes souberam como uma refeição principesca.

  A princípio pensaram que iam acabar como os porcos, mas agora achavam os anfitriões, tirando o facto de serem feios, hospitaleiros e simpáticos, comendo e bebendo sofregamente. Chico e Norró ofereceram o seu vinho e a sua aguardente, o que animou ainda mais a comezaina. As dançarinas foram as primeiras a experimentar o vinho, deixando parte escorrer pelo corpo, o que levou ao delírio a assistência. Depois enrolaram uns cigarros que foram acenderam e oferecendo. Os chimpanzés tossiam e atiravam o fumo na cara uns dos outros, divertidos, meio embriagados. Dando murros tremendos na pedra, que faziam estremecer a mesa. As lamparinas eram objeto de curiosidades nas suas mãos, que exploravam também todos os objetos das mochilas, como relíquias que disputavam entre eles.

   A dada altura, o que parecia o chefe - um de barbicha branca e comprida, com os olhos avermelhados -, chamou as bailarinas e deu-lhe uma ordem qualquer. Estas, de imediato, saltaram da mesa e pegaram no Chico e no Norró, levando-os ao colo, perante a gritaria e urros dos outros chimpanzés. Desceram por uma escada em várias voltas, até uma pequena câmara coberta de folhas e palha. Atiraram-nos para ali e tiraram-lhe a roupa, rasgando-a aos pedaços. Ainda se ouviram as vozes de Chico e Norró:

      - Vai esmagar-me, salva-me!

      - Eu, eu…

   Depois… Uma abertura ao fundo, onde os olhos de ambos se fixaram, levou-os à noite dos sonhos

      [Se calhar, deveriam ter optado pela outra porta. Coisas do destino.]

 

IV

   Cá por cima continuou tudo na mesma. O desaparecimento do Chico e do Norró foi tema de conversa durante várias semanas. Uns diziam que tinham ido para outra ilha, outros que se tinham metido num barco, escondido algures na costa, a caminho das Américas. Só a Clotilde fanhosa, e apenas quando encharcada em aguardente, dizia que tinham ido para a Boca do Inferno e por lá ficado.

   Passadas poucos meses, um terramoto sacudiu fortemente toda a ilha, provocando estragos graves e vultosos. A caverna da Boca do Inferno desapareceu, engolida por si mesma. No local, ainda rochoso, cresceram eucaliptos, com os troncos retorcidos, que cobrem já toda a zona da caverna e os terrenos circundantes. A caverna da Boca do Inferno caiu no esquecimento.

 

Avelino Rosa

Odivelas, 24-05-2014


[1] Datura stramonium, vulgarmente designada como trombeta, trombeteira, estramónio, figueira do demo, figueira-brava e zabumba, é uma erva ereta anual, em média com 30 a 150 cm de altura. As folhas são grandes, 7 a 20 cm e tem dentes irregulares, semelhante às folhas de carvalho. Suas flores apresentam uma das características mais distintivas da Datura stramonium: elas possuem formas de trombetas, cores que vão de branco para púrpura, com tamanho de 5 a 17,5 cm, sendo, entretanto, constantemente confundidas com lírios. As flores têm a mesma fragrância da planta Mirabilis jalapa e a fruta tem forma oval e é coberta de espinhos; é dividida em quatro câmaras, cada uma delas com dúzias de sementes de cor negra e pequenas. Toda parte da planta emite um odor fétido quando esmagada ou apertada. [WIKIPÉDIA].

[2] Eles próprios haviam interiorizado a alcunha, como quem aceita, por exaustão, o batismo involuntário.

[3] Merenda, pequena refeição ligeira – [PRIBERAN Dicionário].

[4] Espiga de milho. [PRIBERAN Dicionário].

[5] Instrumento agrícola, para cavar, afagar ou mondar a terra. [PRIBERAN Dicionário].

[6] Estalactites e estalagmites são o que conhecemos como espeleotemas, ou depósitos de minerais que formam as estruturas da caverna e revestem seu interior. As estalactites são as formações que se originam do teto das cavernas, como pingentes de gelo, enquanto as estalagmites dão a impressão de que estão saindo do chão e se assemelham a cones. Algumas podem levar milhares de anos para se formar, enquanto outras podem crescer rapidamente. Às vezes, as duas formações também são chamadas de gotejamento. [http://www.hsw.uol.com.br/].

[7] Ver Bioluminescência (palavra híbrida, proveniente do grego bios, que significa "vida", e do latim lumen, que significa "luz") é a produção e emissão de luz por um organismo vivo. Trata-se de uma forma de ocorrência natural de quimioluminescência, em que a energia resultante de uma reação química é lançada sob a forma de emissão de luz. Muitas criaturas, como os pirilampos (português europeu) ou vaga-lumes (português brasileiro), produzem luciferina (um pigmento), que reage com o oxigénio para criar luz, e luciferase (uma enzima), que age como catalisadora da reação, para a acelerar. A reação é por vezes mediada por cofatores, como iões de cálcio ou ATP. A reação química pode ocorrer tanto no interior como no exterior das células. Em bactérias, a expressão de genes relacionados com a bioluminescência é controlada por um operão, denominado 'operão Lux'. A bioluminescência ocorre em diversos grupos de organismos, desde vertebrados a invertebrados marinhos, assim como em microorganismos e animais terrestres. Organismos simbióticos contidos noutros organismos maiores são também capazes de bioluminescer. [WIKIPÉDIA].

[8] Morfeu (do grego Μορφεύς, "moldador [de sonhos]") é o deus grego dos sonhos. Morfeu tem a habilidade de assumir qualquer forma humana e aparecer nos sonhos das pessoas como se fosse a pessoa amada por aquele determinado indivíduo. Seu pai é o deus Hipnos, do sono. Os filhos de Hipnos, os Oneiros, são personificações de sonhos, sendo eles Ícelo e Fântaso. Morfeu foi mencionado na obra Metamorfoses de Ovídio como um deus vivendo numa cama feita de ébano numa escura caverna decorada como flores. A droga morfina tem seu nome derivado de Morfeu, visto que ela propicia ao usuário sonolência e efeitos análogos aos sonhos. Quando uma pessoa augura: vá para os braços de Morfeu, sugere dormir bem. [WIKIPÉDIA].

[9] O termo “basalto” é de origem latina, cujo termo “basalte” tem sentido referente à rocha vulcânica. No Brasil, é muito encontrado na região Sul, em derrames mais conhecidos como pedra-ferro. É proveniente de rocha vulcânica e, em estudos geológicos, é detectada pela sua cor escura, dureza e resistência, fatores que a fazem ser utilizada na pavimentação de ruas e estradas.  Por ser uma pedra de origem vulcânica, é produzida em erupções que ocorrem nas dorsais meso-oceânicas (que dão origem à tectônica de placas); derrames que formaram os platôs continentais; e em erupções menores como as que já ocorrem nalguns arquipélagos. [WIKIPÉDIA].

[10]  Chimpanzé (Pan troglodytes) é um primata que faz parte da família Hominidae, possuindo uma semelhança genética de mais de 99% com os humanos. De acordo com o seu sexo, a espécie pode atingir até 1,70 metros de altura e pesar até 100 kg. A sua negra coloração modifica-se conforme uma idade mais avançada, para uma cor acizentada. Os Chimpanzés vivem em grupos que podem variar de cinco até mais de cem indivíduos, aquando no seu estado natural. Contudo, as fêmeas possuem hábitos mais solitários, passando a maior parte do tempo sozinhas. Nestes grupos os machos são dominantes sobre as fêmeas, assim como sobre os machos mais jovens. São animais de hábitos diurnos, terrestres e arborícolas. Costumam-se locomover pelo solo, no entanto tem preferência a se alimentarem sobre as árvores, durante o dia. Estes são primatas quadrúpedes, ou seja, locomovem-se utilizando os pés e as mãos, simultaneamente, para andar e correr, além de serem capazes de escalar, pular e ficarem suspensos. Além disso, ocasionalmente, podem se movimentar de forma bípede, tal como os humanos. Geograficamente estão distribuídos nas florestas e matas secas de savana, e nas florestas tropicais de áreas baixas até áreas montanhosas, superiores a 3000 metros de altitude, na região central do continente africano. Os chimpanzés possuem uma alimentação bem variada, sendo as frutas o principal alimento de sua dieta, porém também consomem folhas, flores, sementes e, ainda, pequenos animais, como alguns pássaros, formigas, cupins, vespas e algumas larvas. [WIKIPÉDIA].

[11] Chico e Norró tinham ouvido falar do desaparecimento de vários porcos ao redor da ilha, como se a terra os tivesse tragado, já que nunca haviam encontrado rasto de quaisquer ladrões. E também, ainda há poucos dias, o patrão atual tinha-se queixado de que lhe havia desaparecido uma faca de desmanchar porcos, como por artes mágicas.

[12] A palavra "inhame" é utilizada para designar plantas de vários gêneros que produzem tubérculos ou cormos comestíveis. A confusão deve-se ao fato que estes tubérculos ou cormos são preparados na culinária de modo semelhante. Há uma confusão de nomes populares das plantas do gênero Dioscorea nas regiões sudeste e nordeste do Brasil. No nordeste do Brasil, os tubérculos produzidos pela Dioscorea spp. são chamados de inhame enquanto os cormos comestíveis produzidos pela Alocasia e a Xanthosoma (ambos da família Araceae) são chamados de cará. Em sentido oposto, no sudeste do Brasil, os tubérculos produzidos pela Dioscorea spp. são comumente chamados de cará, enquanto os cormos comestíveis Alocasia e a Xanthosoma são chamados de inhame. Nos Açores, chama-se de inhame (ou coco, na ilha de São Jorge), o taro (Colocasia esculenta), que é extensamente cultivado nestas ilhas. Daí que o taro também seja chamado de inhame-coco ou inhame-dos-açores.

 

Álbum Fotográfico

(Sexo explícito)

 

   Sempre tive o passatempo da fotografia, do vídeo e do som, o que me levou, ao longo da vida, a ter em casa um estúdio amador sempre atualizado. É parte inseparável da ocupação dos meus tempos livres. A certa altura, a sorte sorriu-me e pude comprar uma vivenda num empreendimento no Alentejo, com apenas umas quantas moradias, num local isolado. Cada vivenda dispunha de dois pisos. No primeiro, uma sala avantajada, cozinha completa e funcional, um quarto amplo e outros dois razoáveis. Duche de massagens e Jacuzzi, piscina e apoios, além de uma churrasqueira. No piso inferior, uma pequena adega, um compartimento grande, que aproveitei para escritório e biblioteca, e uma área, equivalente ao resto da casa, onde montei um estúdio completo de nível profissional, incluindo um pequeno palco, com cenários amovíveis, para foto e vídeo. Câmaras de vídeo, máquinas fotográficas, gravadores, leitores e amplificadores e dois computadores, modernos e potentes, com monitores panorâmicos, asseguravam a captação, armazenamento e tratamento da imagem e som.

 

   Não usava o estúdio profissionalmente mas, aposentado antecipadamente e com disponibilidade de tempo, ficava pela casa do Alentejo alguns dias seguidos, sozinho ou acompanhado e, por vezes, dando uma ajuda a amigos que necessitavam de produzir fotografia ou um qualquer vídeo. Quase sempre terminando a festejar o resultado, com um bom almoço ou jantar num restaurante da vila mais próxima, que distava ainda alguns quilómetros, e depois, já em casa, com uísque, gim, etc.. A confusão que ficava na sala e na cozinha e o lixo armazenado num pequeno contentor no exterior eram da responsabilidade da tia Francisca, uma alentejana de uma aldeia próxima. O marido, o compadre João, tratava do jardim que ladeava o acesso à vivenda, desde a entrada até ao telheiro, onde se podiam parquear cinco automóveis, e ainda seguindo em rampa descendente pelo lado inferior da casa, com um carreiro lajeado de acesso à casa das máquinas da piscina. Flores, plantas, algumas árvores e muita relva, onde os “guardas” se rebolavam e faziam os seus exercícios de prontidão para a segurança dos bens do dono. Eram o Tico e o Teco, puros rafeiros alentejanos, alimentados na minha ausência pelo compadre João e pela tia Francisca. Esta tinha sobretudo a incumbência de limpar a casa antes e após a minha estadia, para que tudo fosse reconduzido ao seu lugar e necessário asseio.

 

   Quanto estava ali sozinho, dedicava-me a escrever ou a produzir e a armazenar os meus próprios vídeos e fotos, sem um projeto específico. Mas, usava alguns dos vídeos e imagens no Facebook e, em particular, na minha página eletrónica, bastante visitada. Nela tinha também os meus escritos, textos soltos, romances, poesia... Enfim, um repositório bastante eclético, como eu próprio. Por isso mesmo, tentava impor-me alguma organização. A escrita acontecia normalmente na área do escritório, onde tinha também dois computadores, não tão sofisticados, com dois ecrãs. Um mais voltado para o mundo exterior e o outro, essencialmente, reservado aos meus escritos, o que, muitas vezes, fazia em simultâneo. O meu Facebook, apesar de poucos amigos pessoais, com quem ia convivendo com alguma frequência, tinha quase dois mil amigos virtuais, que iam sendo adicionados um pouco ao acaso ou através de outros amigos. Claro que, nem aqui nem na minha página pessoal, dava a entender que tinha um estúdio e muito menos que me predispusesse a ajudar alguém em fotografia e vídeo. Só muito ocasionalmente, em conversa de Chat, revelava essa minha faceta e, mais raramente ainda, oferecia ajuda nessa matéria. As conversas decorriam normalmente sobre a escrita, em particular a poesia, que ia publicando em vários grupos de que era membro. Dos comentários surgiam, por vezes, novos amigos.

 

   Foi assim que conheci a Catarina, depois de trocarmos impressões sobre um poema dela e um meu, publicados apenas com dois segundos de diferença, no mesmo grupo de poesia. Era uma jovem universitária que fazia o mestrado em Cultura e Comunicação. Os encontros virtuais sucederam-se, abordando temas genéricos, em foco e, com o tempo, um pouco mais íntimos, descobrindo que vivia, já há alguns anos, com uma outra jovem, também a fazer o mestrado em Ciências da Documentação e Informação, que me apresentou. Cristina era bem menos expansiva e mais voltada para o ensaio e conto, dando-me a conhecer alguns ao longo dos nossos contatos. Os textos de ambas eram de grande qualidade, não me cansando de as elogiar, incentivando-as a publicar. Mas, apesar da paixão pela escrita, tinham o sonho comum de serem modelos. A avaliar por algumas fotos enviadas, considerava-as mulheres bonitas, com medidas que pareciam encaixar-se no padrão, mas daí a serem modelos ia uma grande distância. Naturalmente, e por cortesia, condescendi que reuniam todos os predicados, aconselhando-as a tentar. Os contactos foram-se mantendo, periodicamente, permitindo-nos conhecer um pouco melhor. Tinham-se encontrado na Faculdade, logo após experiências de namoro traumatizantes e, rapidamente, fizeram amizade. Daí a descobrirem que gostavam uma da outra para além da amizade, até resolverem viver juntas, tinha sido um processo gradual, mas tão natural como as coisas simples da vida. Assumiam-se como lésbicas, mas nenhuma tinha a certeza de não voltar a encontrar prazer sexual com um homem, embora tal não estivesse no seu horizonte. E isso não perturbava a sua relação, já que a entendiam aberta e assente numa amizade inabalável.

 

   Estas conversas só eram possíveis porque respeitava a opção de Caty e de Cris e o fosso de idade entre nós parecia suficiente para afastar qualquer interesse delas ou veleidade minha. Aliás, já havíamos comentado isso. Eu tinha 56 anos. Elas, apenas com 25 e 26, bem poderiam ser minhas filhas. “- Mas não te vamos tratar por papá ou paizinho, fica descansado!”. E ainda bem, porque isso irritar-me-ia. Com esta confiança mútua, passámos a conversar pelo Skype. Inicialmente, pensei que poderia bem ser o termo desta relação que me agradava bastante, mas fiquei embevecido pelos elogios de “- Estás muito bem conservado, nem parece teres ter 56 anos...”. Apesar da bondade do comentário, perdi um pouco o jeito, mas retomei a postura. Estava com camisa e calças de fato, porque ainda não mudara de indumentária após a chegada do trabalho. Elas, informais, vestiam t-shirts compridas e tinham cabelos curtos, com pontas irregulares, o que lhes emprestava um ar ainda mais de miúdas crescidas. Ambas morenas, embora Cris um pouco mais clara, eram de uma beleza invulgar. Fiquei alguns segundos apenas observando, incapaz de me alongar para além de “- Obrigado. São muito simpáticas!”. Elas perceberam o meu pouco à-vontade e desviaram a conversa para contar as peripécias do dia, que havia começado com a Caty a vociferar que lhes haviam roubado o carro quando, afinal, tinha ficado estacionado na rua ao lado...

 

   Era a Caty quem, normalmente, falava, com a Cris ao lado, lendo ou escrevendo ou sentada no sofá, também lendo e vendo televisão. Dizia pouco de mim, mais por feitio mas também por precaução. Como os sentimentos navegam pelas palavras e neste caso também pelo olhar, fui revelando algumas coisas de mim, como a casa no Alentejo e o estúdio que ali montara. Falei do Tico e do Teco. Do jardim e da piscina, mostrando algumas fotos. “- Fogo. És um ricaço e a gente não sabia.” – Comentou Caty, sorrindo e acrescentando: “- A Cris está a dizer que nos podias tirar umas fotos para fazer um Book.”. Respondi que poderíamos pensar nisso e que teríamos que combinar. Não queria parecer ansioso por um encontro e, a verdade, é que não as conhecia pessoalmente. “- Se sermos modelos dependesse de ti, já vimos que por aí não vamos conseguir.”. Respondi, também em tom jocoso: “- Não é verdade, apenas não sei se a máquina fotográfica vai realçar a vossa beleza natural e não gosto de defraudar expetativas.”. Continuámos a conversa, centrada nesta paixão delas, sendo uma eventual concretização já algo tardia. “- Mas antes tarde que nunca.”. Os estudos estiveram sempre em primeiro lugar e a verdade é que nunca tinha surgido uma oportunidade. Agora, que pensavam concluir os mestrados em meados ou finais de outubro, e estávamos quase no verão, era a altura certa para uma tentativa a sério, que bem poderia ser a última.

 

   Ouvi com toda a atenção e perante o que me parecia uma insistência, reforcei a ideia de que me disponibilizava para as ajudar. “- A sério?”. – Quis confirmar Caty. Nessa altura estava em Lisboa e propus que nos encontrássemos num almoço ou lanche, como preferissem. Notei alguma hesitação de Cris que, sentada no sofá, com a t-shirt subida, deixando ver um pouco da cueca branca, ficou uns segundos sem responder a Caty, que a indagava com o olhar. Pareciam estar ambas um pouco apreensivas, o que considerei natural. Mas a inclinação de cabeça de Cris ultrapassou o inesperado impasse e Caty confirmou que seria melhor um almoço, sugerindo um restaurante nas proximidades do prédio onde viviam em Benfica. Entendi que se resguardavam, escolhendo um restaurante conhecido e perto de casa. Aceitei sem hesitações. Combinámos para dai a dois dias, sábado, às 12:30 horas. O resto da conversa nessa noite decorreu sobre as notícias que chegavam de Kiev. Sobretudo, sobre o futuro da Ucrânia. Um dos atributos de ambas, apesar da sua juventude, era o de estarem bem informadas de quase tudo o que se ia passando no Mundo, com opinião formada, por vezes não convergente entre elas ou comigo, mas sempre com respeito mútuo pelas posições de cada um.

 

 

   A experiência do Skype facilitou o nosso encontro junto ao restaurante. Reconhecemo-nos de imediato, cumprimentando-nos com dois beijinhos e com um à-vontade quase natural. “- Ao vivo ainda são mais bonitas e simpáticas.”. “- E tu pareces mais jovem e elegante. Quanto à nossa simpatia, é melhor não antecipares elogios...”. Rimos, como amigos de longa data. Entrámos num típico restaurante de Bairro, com uma ementa não muito variada, mas com alguns pratos do dia que me agradavam. As escolhas foram diferentes. Um vinho tinto alentejano foi consensual. Começamos o convívio com alguns tiques de Chat mas, rapidamente, assentámos numa conversa amena e agradável. Senti algum formalismo delas perante uma certa irreverência que eu cultivava. Papéis invertidos, pensei. Na verdade, pareciam mais rígidas do que eu nalguns aspetos. Ou a idade permite-nos um certo desprendimento? Não gastei muito tempo em introspeção ou em análises psicológicas. A conversa fluía ao sabor do tinto alentejano, divertida e sem inibições. Durante o café, resumimos o que ficara combinado, não fosse eu, segundo Caty, esquecer a ajuda que havia disponibilizado e o compromisso assumido. Tratava-se de ficarmos na casa do Alentejo, com ida já na próxima sexta-feira, dia 7 de junho, e regresso no domingo. Assegurei-lhes que não haveria qualquer obstáculo da minha parte. Apenas teria de telefonar à tia Francisca para que tivesse tudo preparado, incluindo os quartos de hóspedes. Teríamos também de comprar algumas coisas básicas para os pequenos-almoços, lanche e alguma refeição que quiséssemos fazer em casa. Não contando com o que a tia Francisca pudesse deixar por lá, o que era sempre uma surpresa. Tudo acertado, portanto. Paguei a conta, vencendo alguma resistência de Caty e Cris, e saímos do restaurante.

 

   Quando me preparava para a despedida, Cris agarrou-me no braço e, olhando para Caty, propôs-me que fosse até casa delas, onde poderíamos conversar mais um pouco. Após uns momentos de hesitação, aceitei o convite. Era ali mesmo, no quarteirão seguinte. Um quinto e último andar de um prédio dos anos setenta. Decorado a gosto de ambas e das suas possibilidades económicas, o apartamento era, apesar disso, agradável e funcional. Tive direito a uma poltrona confortável colocada perpendicularmente ao sofá onde se sentaram, de frente para o televisor. “Tomas um digestivo?”. Havia umas garrafas de uísque, gim e licores. “- E há aquela aguardente de medronho, que trouxe da terra da minha avó...” – Disse a Caty, apontado e levantando-se para pegar numa garrafa sem rótulo, ainda cheia e tampada por uma rolha antiga de mola. Condescendi em provar e Caty encheu três pequenos copos. “- Um brinde ao Book... Ah, e aqui ao santo André que nos vai ajudar!”. Tocámos os copos, bebemos um pequeno gole... E, estremecendo os três, voltámos a sentar. “- Isto é forte... Fogo!”.

  

   Caty e Cris estavam sentadas, lado a lado, com as pernas esticadas e os pés sobre uma espécie de estrutura almofadada. “- Nunca tinha visto isso, deve ser ótimo para descansar as pernas.”. Confirmaram que sim. “- Bastante relaxante, podes crer. Vamos a outro gole... blurrrrp...” – Fez Cris, sacudindo a cabeça. Caty bebeu também um gole, imitando Cris. “- Dá-me um beijo de medronho, Cris!”. Beijaram-se, primeiro lentamente, depois com maior fulgor, deixando as línguas explorar as bocas e os contornos dos lábios. Quando acabaram, tinha esvaziado o meu copo sem qualquer reação ao medronho, Mas a minha excitação não lhes passara despercebida. “- Ficaste excitado?” – Perguntou Cris. “- Não. Que ideia...” – Respondi, com a voz entrecortada. “- Confessa lá...” – Insistiu Caty. “- Bem, acho que vocês perceberam, por isso não vale a pena negar um facto.” – Respondi, sorrindo. Ambas riram, abraçando-se de novo e agora com um beijo curto e ao de leve. “- Estás aprovado! Agora és mesmo nosso amigo de verdade.” – Continuou Cris. Perante a minha expressão, um pouco idiota, Caty complementou: “- Quer apenas dizer que foste sincero e acabaste de confirmar que podemos confiar em ti.”. Ficámos ainda algum tempo a conversar, mas os compromissos que já havia assumido ditaram que tivesse de me despedir. Com um abraço a três, de corpos bem juntos, sentindo-lhes os seios. “- Um abraço de amigos...” – Rematou Cris.

 

   Nos dias seguintes, conversámos na segunda e na quarta-feira, combinando roupas, para diversos perfis fotográficos, comidas e bebidas a levar. Na sexta, logo pelas 9 horas, lá estávamos no hipermercado, cumprindo uma lista quase infindável. Os sacos tiveram de ser distribuídos entre o porta-bagagem, já quase cheio com duas malas delas, e na parte esquerda do banco de trás, já que Cris ocupava o outro lado, enquanto Caty seguia no banco da frente. Pusemo-nos a caminho já passava das 10 horas, com um tempo excelente. Por volta das onze e meia parámos em Grândola, aproveitando para tirar algumas fotos no parquezinho infantil e na zona de piquenique. A seguir rumámos a Évora. Aí tiramos mais umas fotos, depois da mudança de t-shirts, junto ao templo de Diana e na Praça do Giraldo, abancando para almoço nas imediações. Tínhamos agora de ir até casa, a uma razoável distância daquela cidade, sendo boa parte do caminho através da A6. Da saída da autoestrada até ao empreendimento, por uma estrada municipal, com excelente piso, a vista era deslumbrante de paisagem, porque não se via vivalma. Parámos algumas vezes, ousando mudança de traje só possível neste cenário, acumulando fotos tendo por fundo os campos cultivados, alfaias agrícolas e a imensidão da paisagem alentejana. Elas haviam tirado o soutien para ficar com os seios soltos. Pude então apreciar a beleza destes, pela primeira vez. Diferentes, mas firmes e com mamilos bem definidos. Umas fotos, apenas de t-shirts compridas, permitiram ver as cuecas brancas de ambas e uns pelos rebeldes saídos, enquanto trocavam de roupa. A covinha vertical ao centro, mais pronunciada em Caty, deixava antever lábios vaginais mais e menos avantajados, moldando as vaginas de ambas.

                                                                                                            

   Finalmente o empreendimento, com vivendas baixas, rodeado por um muro de uns três metros acrescido de mais um metro e meio de rede detetora de intrusão. À volta inúmeros sobreiros, camuflando o estranho implante na natureza, tornando-o quase discreto. A entrada fazia-se por um portão largo que só abriu depois de uma chamada telefónica e um código de identificação, por um segurança que se encontrava no interior. Cumprimentos de circunstância e seguimos por uma alameda arborizada. Uns recortes da parte esquerda, com identificação de cada propriedade, davam acesso a cada moradia, através de um novo portão, agora aberto por telecomando. “- Calma, calma!” – Fui gritando ao longo da rampa e até ao telheiro para o Tico e Teço, que nos vieram dar as boas-vindas. Mal saí do carro atiram-se a mim, com as patas no meu peito, tendo de me encostar ao veículo para não cair. Depois de todo lambuzado, cheiraram Caty e Cris, desde os sapatos até ao centro das pernas, insistindo... “- Já chega. Vamos!” – Ordenei. “- Desculpem, mas podem estar à vontade, eles são, geralmente, bem comportados.”. “- Geralmente?”. Rimos e começámos a retirar a bagagem, ao mesmo tempo que acalmava o Tico e o Teco com comida especial trazida de propósito. A empena da casa, de fronte da entrada no prédio, estava parcialmente coberta de azulejos que representavam uma cena de ceifa bastante pormenorizada e de uma beleza rara. A porta de entrada ficava à direita numa espécie de pátio que confinava com o muro de separação da vivenda ao lado, dando para um pequeno Hall, que ramificava, do lado esquerdo para a sala de estar e do direito para os quartos e saída para as traseiras da casa. Em frente, as escadas que conduziam ao piso inferior.

 

   Conduzi Caty e Cris aos quartos de hóspedes, que podiam comunicar entre si, à direita do corredor e após a cozinha, dizendo-lhe que ocupassem ambos ou apenas um deles, como melhor entendessem. Do lado esquerdo o meu quarto, que dava acesso a uma ampla zona de duche de massagem e ao Jacuzzi, também com entrada pelo corredor. No final do corredor uma porta dava acesso às cadeiras de descanso, colocadas à volta da piscina. Esta, com 25 metros, fora construída perpendicularmente à habitação, ocupando quase todo o comprimento do terraço entre os muros da vizinhança. O espaço entre a casa e o muro do lado esquerdo, bem como a frente do terraço estavam protegidos com gradeamento de cerca de um metro de altura. Deste para baixo, na parte frontal, era a pique, distando uns bons três metros do muro de proteção do empreendimento, que se situava numa cota mais baixa. Para este lado a vista era deslumbrante, vendo-se a paisagem a partir das traseiras da casa sobre a piscina, até ao horizonte. Campos cultivados, aldeias, outros montes e, pelo meio, a autoestrada. Ao lado do acesso ao terraço, ficava a porta do compartimento de apoio, que servia para duches rápidos e arrumos de toalhas e outros objetos para uso na água ou limpeza da piscina, e que confinava com a área do Jacuzzi e duche interior. No pátio em frente aos quartos de hóspedes e da cozinha havia duas mesas com bancos e uma churrasqueira. Sobre esse espaço e ao longo de toda a parede uma latada, suportada pelas no muro de separação da vivenda vizinha e no telhado de placa em declive. O acesso podia fazer-se também a partir da cozinha, espaçosa e funcional, com bancada, micro-ondas, forno e fogão ao centro. Fui mostrando tudo a Caty e Cris, que iam ficando encantadas e mais ainda quando lhes disse que a piscina tinha a possibilidade de ser coberta por uma lona e a água podia ser aquecida. A lona estava enrolada dentro de dois cilindros presos aos muros, junto das cabeceiras.

  

   Entrámos de novo pela porta dos fundos, apreciando agora as zonas de Jacuzzi e duche. O Jacuzzi, redondo, com capacidade para várias pessoas. Ao lado o compartimento do duche, com dois chuveiros de massagens em frente um do outro. “- Quero tomar um duche aqui contigo Cris.” – Disse Caty, com um sorriso e olhar enlevados para Cris. Daí passámos ao meu quarto por uma porta de correr interior. Pararam estupefactas. A cama era enorme, o teto por cima, parcialmente espelhado. Na parede oposta à cama um LCD grande e aparelhagens de vídeo e som, com colunas colocadas estrategicamente. Armários embutidos nas paredes, também espelhados. Luzes, de várias cores que sincronizavam com o som. “- Parece que estamos num lugar de sonho...” – disse Cris, enquanto Caty se atirava sobre a cama. “- Desculpa, não resisti. É fofinha.”. Eu ria, não deixando transparecer alguns pensamentos que me vinham já atormentando. Por isso, achei melhor convidá-las a ver a sala de estar. Do lado esquerdo uma mesa grande, com cadeiras confortáveis para uma dúzia de pessoas. Um bar ocupava, até ao teto, o canto e parte das paredes desse lado da sala, com copos, garrafas e utensílios diversos. Do lado direito, também até ao teto, um armário onde se guardava a loiça, os talheres, etc.. A seguir a zona de sofás, desde cerca de metade da sala e alinhados em semicírculo. Na parede em frente um LCD gigante, a meia altura, sobre as aparelhagens de vídeo e de som. De ambos os lados da sala duas janelas enormes rasgadas, com vista para os muros circundantes, ornamentados com outras imagens de azulejos, mais pobres, mas igualmente belas.

 

   Finalmente, descemos ao piso inferior, com o escritório em frente às escadas. Estantes repletas de livros e a secretária com os dois monitores e, sob ela, os computadores. Uma janela rasgada horizontalmente sobre o relvado interior e a parte inferior do muro com azulejos, colocados aleatoriamente. Ao fundo uma porta, que abri na completa escuridão. Liguei a luz e as quatros paredes de uma cave apareceram com garrafas a preencher grande parte dos suportes de tijolo. Uma razoável coleção de vinhos, que coloquei à disposição para as refeições que fizéssemos em casa. Do outro lado do escritório, uma porta idêntica, mesmo junto das escadas. Outro mundo desconhecido delas e o que mais ansiavam provavelmente conhecer. O estúdio. Um compartimento sem janelas repleto de equipamentos. Maravilhadas, foram perguntando para que servia cada um, o palco, as luzes...

 

   Depois das explicações, combinámos que ainda podíamos tentar fazer uma sessão fotográfica antes do jantar. Ainda não eram cinco horas da tarde. Dava perfeitamente para umas fotos junto da piscina, aproveitando a luz do dia e depois, ali, no estúdio, com a roupa que entendessem. Podíamos jantar em casa, aquecendo alguma da comida que compráramos no hipermercado. Elas concordaram e assim ficou combinado. O meu telemóvel tocou. Era a tia Francisca. Vinha trazer umas migas por volta das 19 horas e, por mais que lhe dissesse que não se incomodasse, nada feito. “- Não me diga que não, senhor doutor! Estou aí às 7 horas com o Francisco.”. E ficaram os planos um pouco alterados. “- Sendo assim, tiramos as fotos junto da piscina e deixamos as de estúdio para depois do jantar. De acordo?”. “- Migas? Adoramos!”.  

 

   Recomeçámos o trabalho. O Sol estava a ficar baixo, batendo de frente pelo final do terraço. Tentei explorar a luz, experimentando posições, deixando propositadamente, nalguns casos, que os reflexos interferissem com a imagem, dando um toque, um pormenor que pudesse fazer a diferença. Caty e Cris estavam a posar de biquíni, sem qualquer maquilhagem. Queria fotografá-las naturais, valendo por si mesmas, como eram no dia-a-dia. Aliás, é assim mesmo que gosto da mulher. Mas estamos a fazer um Book de candidatas a modelo e temos de atender a outros aspetos. “- Cris vira-te de perfil...isso. Pronto. Vamos passar à Caty.”. “- Encolhe um pouco o biquíni. Um pouco mais de ousadia...”. “- Pois, ela tem umas mamas grandes. Ah, ah, ah...”. De facto, Caty tinha uns seios bem redondos e avantajados. Em contrapartida, Cris tinha uns mamilos bem recortados e salientes. Fui fotografando ambas, alternadamente, com os cabelos soltos e descalças, em diversas posições.

 

   “- Pausa e vamos à maquilhagem.”. Enquanto elas se maquilhavam nos quartos de hóspedes, deitei-me numa das cadeiras, esticando o corpo e sobretudo as pernas, aconchegando-me nas almofadas. Havia uma dúzia destas cadeiras, muito raramente usadas. Não me lembrava de as ter visto alguma vez todas ocupadas. Geralmente apenas estava ali eu e alguma amiga e mesmo nas situações de ajuda a algum amigo, em vídeo ou fotografia, ou quando convidava um ou outro casal amigo, incluindo os filhos, para passarem um fim-de-semana comigo, nunca ocupávamos as doze cadeiras. Bem, um dia podiam ser necessárias... A verdade também é que não gostava de muita gente à minha volta. Ao cabo de umas horas, já me cansavam. Era um solitário sem dúvida. Que raio de pensamentos. O entardecer estava a levar-me a uma introspeção que não me agradava... “- Ah, uau...que bonitas. Vamos ao trabalho.”. Vinham de cabelo apanhado, o que lhes realçava mais os rostos. E com a maquilhagem pareciam bastante diferentes. Talvez tivessem exagerado um pouco, mas não opinei. Eram quase seis horas. Ainda havia muita luz, mas o Sol já se avermelhara um pouco, embora ainda longe do ocaso. Fotografámos ainda uma boa meia hora. Usei duas máquinas com tripé e uma terceira, a minha preferida, do melhor que havia no mercado. Aproveitei a luz serena do fim da tarde para uns efeitos de contra luz, mas já se haviam esgotado as poses e opções. À noite e no dia seguinte teríamos muitas outras oportunidades. Ainda tive tempo de descarregar os míni-cartões num dos computadores e de criar uma pasta para a Caty e outra para Cris, quando soou a campainha do portão.

 

   Subi e vi no intercomunicador que eram o compadre João e a tia Francisca. Abri. Caty e Cris tinham retomado as calças de ganga e t-shirts com que haviam saído de Lisboa. Fomos ao encontro das visitas. O Tico e o Teco, que haviam estado a observar as sessões fotográficas, a dormitar, estavam agora alvoraçados. A subir a rampa o Citroën Dyane, já peça de museu, do compadre João, um pouco aos solavancos, mas lá chegou ao telheiro. Os beijinhos e o aperto de mão da praxe. Apresentei-lhes as amigas Caty e Cris, sem mais explicações. Porque já estavam habituados a eu ter companhia e, na verdade, não tinham nada a ver com isso. Após umas festinhas ao Tico e ao Teco, a tia Francisca a dirigiu-se para a cozinha, como quem está em sua casa, com um saco de serapilheira de onde retirou um tacho, um Tupperware e um pão caseiro embrulhado num pano. “- Aqui tem, senhor doutor. Ainda bem que trouxe um tacho maior, não sabia que tinha duas companhias.”. Dizia sempre o mesmo, mas desta vez até tinha razão, por haver uma boca a mais. Uns minutos de conversa, com Caty e Cris a fazerem amizade fácil, e uma última recomendação da tia Francisca: “- Vão jantar que ainda está quentinho e frio não tem piada nenhuma.”. As despedidas e o Tico e o Teco acompanhando o Dyane até ao portão, onde pararam por minha imposição, voltando em corrida. O portão fechou-se e fomos jantar. Caty perguntou se me importava que tirassem as calças para ficarem à vontade. “- Claro que podem, gostaria que se sentissem como em vossa casa.”. Eu já estava de calções de banho, em que me sentia confortável e fresco.

 

   Enquanto esperava por elas, fui pondo a mesa, trazendo mesmo o tacho da tia Francisca. Uma garrafa de vinho alentejano, guardada no armário, aguardava a aprovação de Caty e Cris. Chegadas, aprovaram e perante as minhas desculpas em ter trazido o próprio tacho, apenas riram, acenando com a cabeça. Estávamos com fome e eram apenas sete e meia da tarde. O cheiro que saiu do tacho, ao remover a tampa, abriu-nos ainda mais o apetite. “- Uma delícia!” – Exclamámos em coro. Um brinde, com os copos a retinir, deu início a um período de quase silêncio absoluto. A comida não era em demasia para os três, mas havia ainda um pudim caseiro. “- Calorias não faltam neste jantar. Se não nos despachamos com as fotos, ainda temos de fazer um intervalo para dieta.” – Brincou Caty com o seu habitual humor. Na verdade, abusámos mesmo do pudim de ovos. Delicioso, simplesmente. Ninguém quis café, mas achámos por bem tomar um digestivo – uma aguardente de medronho. “- Já está a tornar-se num hábito. Ainda ficamos alcoólicos...“ – Voltou Caty, trocando um beijo com Cris. Depois, abraçadas, aproximaram-se de mim, com os lábios em forma de beijo. Não me fiz rogado, claro. Um beijo apenas ao de leve em cada uma, para não estragar o clima que íamos criando.

 

   Depois de arrumada a mesa e a cozinha, abancámos nos sofás, fazendo um Zapping pelas inúmeros canais que, para ser sincero, nem sabia serem tantos. Ao cabo de uma meia hora… “- Vamos a nova sessão fotográfica?” “- Que mau, estávamos tão bem aqui – Respondeu Cris. Mas concluímos que era melhor prosseguir. Enquanto elas mudavam de roupa, davam um jeito ao cabelo – a adivinhar pelo ruído do secador - e se voltavam a maquilhar, fui até ao estúdio ligar os computadores e verificar as máquinas e as luzes. Aproveitei ainda para separar as fotos de cada uma para as pastas que já havia criado. Caty e Cris apareceram quando já havia acabado as minhas tarefas. Agora com os cabelos soltos, bem penteados, notando-se alguns retoques com recurso a laca. Ambas com vestidos inteiros, com um decote generoso, realçando os seios. Mesmo os de Cris pareciam maiores. “- Vá, vamos a isto.”. Fiz umas vinte fotografias de cada uma, de cara e de corpo inteiro. Repeti as fotos com outros dois vestidos que elas haviam trazido, mudando de roupa mesmo ali à minha frente. No interior, sob as luzes, os corpos delas pareciam ainda mais apetitosos. “- Ok, chega por hoje. Se quiserem, ponham-se à vontade e depois venham ter comigo para vermos os resultados até agora.”.

 

   Fiz a distribuição das novas fotos pelas pastas. Já havia quase duzentas por cada uma delas. A ideia era apresentarmos um álbum com 24 fotos para cada uma e ainda faltavam as do dia seguinte, embora me a sensação era a de que já havia fotos mais do que suficientes e em nada iriam acrescentar outras que viéssemos a tirar. De qualquer modo, para já impunha-se uma separação das melhores, reduzindo a escolha das vinte e quatro o mais possível. Mas era uma tarefa que só a elas competia. Caty e Cris tinham voltado às t-shirts e aos chinelos, limpando todos os vestígios de maquilhagem. Com elas traziam a garrafa de medronho e copos. “- Daqui a pouco não vemos as fotos.” “- Não será mais um copito de medronho que nos vai provocar uma piela.”. Ou mesmo dois, como foi o caso. Preferiram ver ambas a pasta de cada uma, alternadamente. Uma subpasta tinha já sido criada para arrastar as fotos escolhidas. Numa primeira escolha, as fotos de cada uma ficarem reduzidas a umas sessenta, representativas da roupa usada, dos locais e das poses. Usávamos apenas um computador, tendo em conta a opção delas, sentados em três cadeiras de executivo, coladas, comigo ao centro, sentindo-as nos braços, por vezes nos seios. Iam escolhendo, foto a foto. Uma mais bem conseguida arrancava um “uauuu” e, por vezes, um beijo delas, quase em simultâneo, em cada face. Quando acabámos, empurrei a minha cadeira um pouco para trás, deixando-as mais perto uma da outra. Levantei a mão direita, batendo na de cada uma, como comemorando o êxito desta primeira sessão. Elas beijaram-se. Depois Cris puxou-me ao encontro delas e de um beijo a três, com as línguas tocando-se, sabendo a medronho. Abracei-as, fechando este círculo quase mágico. Foi breve o momento, mas deixou-me sem fôlego.

 

   Desliguei todo o equipamento e voltámos à sala de estar. Antes de sentarmos, vi no relógio de parede que eram quase 23 horas. “- Vamos apanhar um pouco luar?”. Concordaram e sentámo-nos nas cadeiras da piscina contemplando a noite. A lua cheia, num céu límpido, iluminava a noite. Nem uma aragem se fazia sentir. A temperatura ainda se mantinha elevada. “- Querem que vos vá buscar uma bebida… um medronho?” – Perguntei a rir. Ambas riram também, mas não queriam mais nada, apenas reter aquele momento da noite alentejana. “- Muitas vezes, nestes dias, costumo nadar um pouco ou simplesmente brincar na água sob o luar…”. “- Deve ser agradável…” – Retorquiu Caty. “- E é mesmo. E quando estou sozinho, nem uso fato de banho.” – Rematei, com um riso breve e algo temeroso. “- Por nós estás á vontade, não é Caty?”. – Concluiu Cris, também sorrindo. Caty assentiu. Fiquei indeciso, mas não voltei atrás, até porque era absolutamente natural. Tirei a t-shirt e os calções e dirigi-me para a zona de degraus da piscina, passando em frente delas, ficando de lado para ambas até começar a entrar na água. Apercebi-me que olharam para o meu pénis, com insistência. Por isso fingi que hesitava entrar na água, permitindo-lhes uma observação mais demorada, com ele já meio ereto. Orgulhava-me dos seus 20 centímetros. Mergulhei na água, deixando-as ver bem as nádegas e de novo o pénis, com as pernas abertas, antes de submergir completamente.

 

“- A água está divina. É um banho de luar completo. Venham!”. Olharam uma para a outra e levantaram-se. Tiraram a roupa e desceram os degraus devagar, deixando-me ver os corpos, perfeitos, apetecíveis. Só pensava nisso naquele momento. Estava a meio da piscina, ainda imerso apenas até à cintura. Elas foram aproximando-se, saboreando a água, o luar, o silêncio quase absoluto, não fora o seu leve chapinhar. Estávamos como envoltos numa magia, com os reflexos da luz cintilando nas pequenas ondas da piscina e dando-nos uma dimensão e imagem únicas. Ficámos próximos, falando baixinho, como que segredando ou cumprindo apenas um ritual, em que as palavras fossem também parte da magia. Serenas e dolentes, como a noite alentejana. Caty e Cris, em contra luz, pareciam desfocadas, com as bocas e os olhos brilhantes realçados. Coloquei-lhes as mãos nos ombros e puxei-as suavemente para mim, juntando os corpos e as bocas. Um beijo a três, demorado, com as línguas emaranhadas. O meu corpo, na zona da pélvis fazendo um movimento lateral de Cris a Caty, fazendo-as sentir o meu pénis entumecido. Ambas corresponderam com um maior aconchego dos seus corpos, roçando as vaginas depiladas.

 

   Afastei-me, ficando a boiar de costas com o pénis completamente ereto. “- Conseguem ficar assim a boiar?”. Nunca haviam tentado, mas Cris quis ser a primeira e experimentar. “- Vá, a Caty segura-te a cabeça e eu as pernas.” Enquanto Caty segurava Cris com a mão sobre o pescoço eu coloquei-me no meio das pernas de Cris, segurando-as com as mãos. “- Qual é a sensação?”. “- Ótima. Não me deixem…”. Rimos, com cumplicidade. Avancei um pouco mais para o centro dela, segurando-a agora pelas coxas… “- Assim ficas mais segura ainda.”. “- Muito mais!”. – Disse Cris, num tom de fala teatral melodramática, enquanto Caty, sorrindo a empurrava de encontro a mim. “- Ai, devagar!”. Caty não tinha medido o impulso do corpo de Cris e o meu pénis havia entrado parcialmente na vagina dela bruscamente. Retirei-o um pouco, fazendo movimentos lentos. Ao mesmo tempo beijava Caty, que se inclinara para mim e com a mão livre massajava os seios de Cris, cutucando os mamilos. Depois intervalava os beijos comigo ou com ela, ora na boca ora chupando-lhe os mamilos. Eu ia entrando aos poucos, evitando causar-lhe desconforto, porque me apercebera que poucas vezes deveria ter tido sexo assim. Era tão apertadinha que, nalguns momentos, achei mesmo que era melhor desistir. Mas o desejo dela crescia rapidamente e senti que estava prestes a ter um orgasmo. Um grito de prazer ecoou pela noite. Fiquei apreensivo se a eventual vizinha ou o guarda tivessem ouvido.

 

   Ofegante, Cris voltou a ficar de pé. “- Agora é a tua vez.”. – Agarrando Caty e pressionando-a a deitar-se na água. Eu fiquei na mesma posição, mas já a segurá-la pelas coxas. Encostei o pénis, empurrando-o devagar pela vagina. Caty gemeu apenas de prazer, acolhendo-o com menor resistência. “- Não te venhas em mim.”. “- Não te preocupes, fica descansada.”. Caty atingiu o clímax rapidamente. Senti que estava excitadíssima, toda molhada. Era algo que me deixava com mais tesão ainda. A imagem de sentir a minha mão húmida na vagina dela era suficiente para me fazer vir, mas contive-me. Caty estremeceu com um tremendo orgasmo, mordendo os lábios e soltando apenas gemidos entrecortadas, como se tentasse evitar um grito igual ao de Cris. Tive de retirar rapidamente o pénis, para não explodir também. Ao colocar-se de pé, Cris abraçou-a, beijaram-se e acariciaram as vaginas mutuamente. Eu retirei-me para junto das escadas, olhando lá bem para o fundo do horizonte, pensando que a Lua devia ter muitas estórias para contar, mas, prudente como era, guardava-as, como um segredo, só para si. Eu queria apenas ocupar a cabeça com qualquer coisa que não tivesse a ver com sexo. Queria reservar-me para mais tarde. “- Afastaste-te de nós. Estás chateado?” – Perguntou Caty. “- De modo algum. Estou apenas a recompor-me…”. – Respondi. “- Mas não vieste…” – Insistiu Caty. “- Não, mas ainda não acabámos por hoje, pois não?”. “- Não?!” – Brincaram em coro.

 

   “- Querem tomar duche?”. Claro, depois da piscina, havia que limpar o corpo do cloro e secar os cabelos. Convidei-as a irmos à zona do Jacuzzi e duche. “- Dois chuveiros de jatos de pressão… Hum, já agora tinhas colocado três.” – Ironizou Caty. “- É porque não estava à espera de duas mulheres ao mesmo tempo.” – Completou Cris. Os chuveiros estavam nas paredes laterais, relativamente à porta transparente a toda a extensão do compartimento. Os jatos de água de maior alcance confundiam-se ao centro, onde me encontrava. No meio de ambas. Depois de lavarmos bem os cabelos com champô, dedicamo-nos a massajar os corpos com gel. Ensaboados um pouco desordenadamente, roçando os corpos e acariciando-nos mutuamente, insisti nas vaginas, com os seios colados aos meus braços. Elas revezavam-se em estimular-me o pénis ou a acariciar-me os testículos. Neste triângulo, beijávamo-nos alternadamente ou ao mesmo tempo, enrolando as lingas, fechando os olhos aos jorros de água. Ambas gemiam, num arfar progressivo, em coro comigo. Sabia que íamos explodir ali no meio da água. E, em uníssono, anunciamos mutuamente o orgasmo. Vim-me nas mãos delas que me envolviam o pénis feito refém. Depois, ficamos abraçados uns minutos, gozando os últimos estertores, saboreando um momento que queiramos prolongar o mais possível. Finalmente, saímos do duche. Para uma área com um lavatório e um grande espelho. Prateleiras laterais continham utensílios próprios para uso de homem e de mulher, além de dois secadores de cabelo e dois pequenos bancos junto da bancada onde encaixava o lavatório. “- Tudo a duplicar… tens de pensar em triplicar. “ – Insistiu Caty. Rimos, deixando-as secar os cabelos, depois de uma limpeza ao espelho embaciado

 

   Dali entrámos no meu quarto. Ficaram a apreciar em silêncio, tocando e sentindo nas mãos alguns objectos decorativos, em particular de jade, olhando demoradamente dois quadros de pintura abstracta e dois tapetes de Arraiolos que nem apetecia pisar. A enorme televisão LCD na parede em frente da cama, inclinada sobre esta e a aparelhagem de vídeo e som interligadas, permitindo um efeito de Home Theater. Sentaram-se na beira da cama, depois deitaram-se lateralmente. “- É fofinha e enorme…”. – Comentou Cris.”. “- Dá para três, acho…” – Interrompi. “- Isso é um convite?”. “- É. Podem dormir comigo, se quiserem claro.”. Aceitaram. Foram aos quartos delas vestir o pijama. Eu fiz o mesmo e encontrámo-nos na sala. Tínhamos fome. Umas fatias de pão alentejano, umas rodelas de chouriço e uns bocados de queijo foram a ceia ligeira que se impunha. Era quase 1 hora. Perpassava por todos um certo cansaço. Um dia longo de emoções fortes. Combinámos deitarmo-nos, depois da higiene pessoal. A hipótese de ainda vermos um filme foi afastada mas ligámos a televisão, com Caty a fazer zapping pelos inúmeros canais. Fiquei ao centro da cama, ladeado por elas. Cris adormeceu quase de imediato. Eu devo ter feito o mesmo. Caty deverá ter-se rendido poço tempo depois. Acho que dormimos abraçados, corpos encostados. Foi, pelo menos, o que sonhei, entranhando-se-me o cheiro delas.

 

   Abri os olhos pela manhã, com uma estranha sensação de prazer. Caty lambia-me o pénis suavemente. Cris, soerguida, olhava com um ar ainda estremunhado. Fingi que não acordara, deixando as palpebras semicerradas. A um gesto de Caty, Cris, o mais sorrateiramente possível, sentou-se sobre mim. Caty empurrou devagarinho o pénis, já duro, para a vagina dela. Desceu lentamente, enquanto eu apenas respirava mais fundo, mas como se estivesse ainda a dormir. Foi descendo, até o ter quase todo dentro dela. Apesar de bem lubrificada, doía-me um pouco o percurso estreito e apertado, compensado com o pulsar da vagina, ardendo em fogo. Abri os olhos, coloquei as mãos nos seios de Cris, depois com a esquerda, aproximei Caty, beijando-a. Cris acelerou os movimentos, atingindo rapidamente o orgasmo. Inclinou-se para a frente, beijando a mim e a Caty, trocando com esta. Caty cavalgou-me com desenvoltura e força de quem já está prestes a satisfazer-se. Senti os fluidos dela escorrerem sobre mim, enquanto mantinha ainda contrações e movimentos suaves de rotação sobre o meu pénis. Tive de a retirar delicadamente, porque sentia-me a perder o controlo.

 

   Depois do pequeno-almoço, fomos a Arraiolos e Montemor-o-Novo, aproveitando para mais uma série de fotos com elas em traje casual, mudando de roupa num restaurante desta última cidade onde almoçamos. Para não voltarmos a sair de casa, levámos alguma comida e pão fresco para o jantar. No regresso, ainda mais algumas fotos, conscientes de que tínhamos umas horas de trabalho de seleção, até termos os Books prontos. O Tico e o Teco, que nos haviam acompanhado ao portão de manhã, pareciam estar no mesmo lugar à nossa espera. Curioso o sentido dos animais nestas coisas. As festas do costume, agora mais à vontade com Caty e Cris, cheirando-lhes os sapatos, as pernas…

 

   Eram 14 horas. Fazia todo o sentido descer até ao Estúdio e trabalhar um bocado. Apesar de ser ainda sábado era preferível concluir o trabalho o mais cedo possível, para podermos descansar ou dar uma volta pela região. Assim fizemos. Separámos as fotos de cada uma, acrescentando às subpastas das fotos previamente selecionadas mais cerca de 30, o que dava quase noventa fotos para cada uma. Agora é que ia começar o trabalho a sério, com a redução para as 24 fotos pretendias para cada Book.

 

   Resolvemos fazer um intervalo. Era a meio da tarde, o sol estava convidativo, a piscina esperando. Ficámos nus. Brincamos na água despreocupadamente, abraçando-nos, roçando os corpos, beijando-nos… explorando os sentidos. O Tico e o Teco andavam numa correria louca á beira da piscina. Tive de os ir acalmar com uma festinhas na cabeça e ao longo do dorso. Depois sentei-me nos degraus de acesso à piscina observando Caty e Cris. Beijavam-se, roçando os seios, esfregando as vaginas uma na outra, acariciava-se mutuamente, em crescendo. Deixei-as saciar-se. Ainda ficámos algum tempo nas cadeiras a apanhar o sol já em declínio. Os cães aninharam-se junto das cadeiras que ocupávamos, levantando as orelhas sempre que ouviam algum ruído menos vulgar. Olhei de soslaio Caty e Cris, deitadas nas cadeiras contíguas à minha e senti-me o homem mais sortudo do mundo. Passou pela cabeça que gostaria de as ter ali comigo permanentemente. Afastei essa ideia. A minha liberdade, que por vezes confundia com solidão, estava acima de todas as lamechices que a minha cabeça pudesse engendrar. Aliás, eram horas de tomar um duche e, apesar de cedo, pensarmos no jantar.

 

   O jantar foi leve e rápido. Estávamos numa fase em que queiramos concluir o trabalho o mais depressa possível. Depois de muitas hesitações pelo meio, já que, nalguns casos era quase impossível optar por uma foto em detrimento de outra, chegámos finalmente a consenso quanto às 24 fotos a apresentar. Eram 22 horas e 30 minutos. Faltava escolher capas para os Books. Ainda propus novo intervalo, mas não obtive qualquer acordo. Continuámos. Por volta da meia-noite tínhamos os Álbuns, com o nome de cada uma, concluídos e devidamente apresentáveis e gravados numa pen para cada uma. “- Acabámos!”. – Gritei, levantando os braços. Elas aninharam-se em mim. Um abraço bem apertado, roçando os corpos e trocando beijos bem molhados e quentes.

 

   “- Isto merece um brinde!” – Disse ainda. “- Com champanhe?” – Perguntou Caty com humor. “- Com champanhe e Jacuzzi.” – Respondi. Olharam-me um pouco perplexas, mas a ideia foi avante. Levámos uma garrafa de um bom champanhe para o Jacuzzi, que abrimos apenas dentro dele. Depois de as servir, enchi também o meu copo e pousei a garrafa sobre o patamar circundante. Brindámos, tilintando os copos. “- Aiii, as bolhinhas saem pelo nariz…”. – Queixou-se Cris. Mas bebemos, esvaziando o primeiro e vários copos seguidos, sempre com brindes apropriados ou sem nexo, rindo por tudo e por nada. As minhas pernas estavam entre as delas, ligeiramente fletidas. Fui esticando-as, aos poucos, até ficar com os dedos grandes dos pés a roçar as vaginas. À medida que iam sentindo deixaram-se escorregar um pouco para dentro do Jacuzzi, fazendo com que o dedo as penetrasse mais. Fiz o mesmo para entrar mais nelas. Momentos depois, numa espécie de dança, contorcionismo, entre os brindes e as gargalhadas, foram ficando excitadas, beijaram-se e acariciaram mutuamente os seios, até, em coro, gritarem vários orgasmos. Retomaram os copos que haviam pousado, como para retemperar forças e intimaram-me, com ar sério, a levantar-me. Fiquei de pé, perante elas, com o pénis bem levantado, em suspense. Aproximaram-se as duas, ficando de joelhos. À vez ou em simultâneo, foram-me chupando o pénis e os testículos. Fiquei sem fala. O meu tesão subiu vertiginosamente. “- Estou quase…”. – Avisei. “- Dá-me a mim.” – Disse Caty, substituindo Cris. “- Dá todo.” – Completou Cris, que me lambia os testículos. Vim-me, como acho que nunca me havia acontecido. Caty esperou, sempre com o meu pénis na boca, até lhe afastar a cabeça. Depois aproximou-se de Cris, que entreabriu os lábios. Beijaram-se, entrelaçando as lingas e saboreando o meu sémen, engolindo-o aos poucos, deixando escapar uns fiapos que escorreram pelos queixos, limpos por mútuas lambidelas. Voltei a meter-me na água, esgotado, mas deliciado por aquele momento. Beijamo-nos os três longamente, corpos bem apertados, enrodilhados por um abraço de água fervilhante. Umas tostas, compota, sumo e leite, foram a ceia. A noite foi repousante.

 

   Acordei antes delas, já a luz do sol se adivinhava, entrando pelas janelas verticais de cada lado da cabeceira da cama, por entre as frinchas dos estores elétricos. Levantei ligeiramente ambas, deixando a luz entrar a meia altura do quarto. Olhei para Caty e Cris, de um e outro lado de mim. Mais lindas ainda com os feixes de luz que pareciam iluminar os seus seios descobertos. Lambi levemente os mamilos de Cris que apenas inspirou mais profundamente. Fiz o mesmo a Caty. Nem se mexeu, tão profundo era o seu sono. Mas, por qualquer razão, voltou-se ficando de barriga para baixo e a cabeça inclinado para Cris. Coloquei uma perna de cada lado dela, deixando o meu pénis escorregar devagar, até junto da vagina, por entre as pernas semiabertas e percorri-lhe o dorso levemente com a língua. Fez um movimento para se voltar de novo, mas percebeu que estava sob o meu corpo. Sentindo o meu pénis abriu um pouco mais o angulo, permitindo-me entrar. Empurrei-o devagar, dando-lhe tempo de lubrificar e deixá-lo escorregar naturalmente. Um “ai” de Caty fez-me parar e pedir desculpas, enquanto Cris acordava estremunhada. “- Já a fornicar? Não perdem tempo.” – Disse Cris a rir. Afastei mais as pernas de Caty e passei as minhas para o interior delas. Fi-la ficar de quatro, puxando-a pela cintura. Passei a mão na vagina, sentindo-a completamente molhada. Meti de novo o pénis, empurrando-o até ao fundo, agora sem qualquer queixa. Fiquei parado, enquanto ela batia-me com as nádegas, ora devagar ora mais depressa, beijando Cris que se colara a nós. Puxei Cris de modo a que ficasse também de quatro, metendo-lhe o polegar esquerdo na vagina e esfregando-lhe o clitóris com os outros dedos. Aos poucos a minha mão foi ficando humedecida. Ambas esfregavam as lingas com a cabeça inclinada uma para a outra. Caty estava prestes a atingir o orgasmo, intensificando e dando mais força aos movimentos, levantou a cabeça e soltou um grito prolongado, parando, mas enterrando o pénis ainda mais fundo com a vagina a estremecer ao longo as paredes…

 

   “- Fode-me agora!” – Exigiu Cris. Troquei. Enquanto Cris enterrava o meu pénis pela vagina e iniciava os movimentos de vai vem, meti o polegar direito em Caty, fazendo movimentos lentos com os dedos, rodando o polegar dentro da vagina e com os restantes acariciando levemente o clitóris e os lábios vaginais. Cris veio-se demoradamente, gemendo, gritando, esfregando-se em mim, como se quisesse arrancar o meu pénis e ficar com ele para sempre dentro dela. Senti que Caty estava a ter outro orgasmo, agora mais suave, não correspondendo com a mesma intensidade às lambidelas de Cris na sua cara e na boca. Pedi-lhes para se deitarem de novo, de barriga para cima. Ficaram a acariciar-se uma à outra, enquanto, de joelhos, me masturbava, olhando para elas e elas para mim, ainda com desejo, agora do meu esperma. Esporrei-me nas mamas de Cris, depois na de Caty e, alternadamente, até não ter mais que umas pequenas gotas. Elas massajaram as mamas com o meu esperma, levando as mãos à boca, lambendo-as com a língua. Deitei-me de novo no meio delas, que juntaram o seu corpo ao meu, besuntando-me também com o meu próprio esperma e limpando os restos que o pénis ainda reservava.

 

   Tomámos um bom duche a três, ensaboando-nos mutuamente. Com algumas carícias pelo meio, que iam lançando de novo algum fogo. Baixando-me um pouco, meti o polegar na vagina de Cris estendendo a mão pelo meio das pernas, alcançando-lhe o ânus com o indicado. Introduzi um pouco e Cris gemeu mais alto. Meti mais, até pelo menos metade, movimentando os dedos introduzidos. Cris parecia ter enlouquecido. “- Faltou isso. André. Gostamos de coito anal.”. Cris gritou de prazer, enrouquecida, enquanto tomada por um orgasmo avassalador. Desliguei o chuveiro do lado direito e levei Caty para aí, induzindo-a a inclinar-se para a frente, apoiando as mãos nas torneiras. Voltado para as nádegas dela, com Cris encostada nas minhas, passei-lhe várias vezes a mão direita na vagina, humedecendo-lhe o ânus, ao mesmo tempo que lhe metia um pouco do polegar, até sentir que podia introduzir o pénis, já duro desde que Caty me anunciara o gosto pelo coito anal. Meti devagar, empurrando sempre. Cris esfregava a vagina nas minhas nádegas e as mamas nas minhas costas. Caty gritava, pedindo que enterrasse mais. Com os três em movimentos loucos, o orgasmo de Caty percorria-nos a todos, tomando conta dos nossos corpos. Anunciei que estava quase… Caty gritou: “- Vem-te todo, todo, no meu cu! Vem.… todo... agora!.” E viemos todo, toda, todos. Até Cris. O meu orgasmo foi único, sentido o meu esperma escorrendo pelo ânus dela adentro… quente, transbordando depois e escorrendo pelas pernas dela abaixo… Ainda o deixei dentro uns minutos debruçado sobre Caty e Cris sobre mim. Exaustos. Caty com cãibras nos braços. Fomo-nos recompondo aos poucos.

  

    Finalmente, decidimos tomar o pequeno-almoço e pôr-nos a caminho de Lisboa. Tico e Teco, com uma expressão triste e ganindo baixinho, acompanharam-nos até ao portão. Antes de o fechar, saí do carro, agachei-me e abracei ambos, fazendo-lhe festas. Caty e Cris fizeram o mesmo. Finalmente despedimo-nos dos cães, já com alguma saudade deles, dos momentos bons que passámos nesse fim-de-semana. Talvez prenúncio de outros bons momentos que viriam.

 

Avelino Rosa

Odivelas, 05-04-2014

 

2013

 

Sonho sonhado

 

   Deitei-me já tarde naquela longa noite de Dezembro. Um pensamento, recorrente, latejava na minha cabeça. Prometera que teria um bom sonho e estava decidido a sonhá-lo. Como? Induzindo-o a mim mesmo ao adormecer, imaginando-me na história, não a história. Vivendo-a, como se fosse real, sentindo como se sente acordado. Por vezes resulta, outras não. Era o meu receio de, sem querer, quebrar a promessa que havia feito, a ela e a mim mesmo.

 

   O corpo começou a abandonar-se ao sono. No meu cérebro uma imagem fixa: a do rosto dela. Por vezes, desfocava desaparecendo, com a sobreposição de uma outra imagem indefinida. Teimando, reconstituía o rosto, até ao vagamente nítido, mas o rosto dela... o que eu queria ver, tocar, sentir...  

 

 

Adormeci. Maria Mar surgiu do fundo da praia. Gaivotas voavam em círculos, brincando na brisa que soprava a espuma das ondas, farrapos brancos que desapareciam no ar. O Sol era já só metade no horizonte. As ondas murmuravam as rezas do final das tardes. O vestido de Maria adejava, confundindo-se com a brancura da espuma e das gaivotas. Eu olhava-a como uma aparição que se ia tornando mais nítida, mais real.

 

   Estava deitado sobre a esteira roçada de observador do mar e de criador de sonhos da distância. Ela parou, indagando-me com um olhar fixo, perscrutador. Como se lhe trouxesse memórias ainda frescas ou lhe lembrasse outra vida esfumada no tempo implacável, que vai abrindo brechas na sua natural secura. Soerguendo-me, com um gesto lento, enfeitiçado, convidei-a a ficar ao meu lado. Ela aceitou.

 

   Ficámos assim, emudecidos, olhando o infinito, sentido o odor da maresia e dos corpos que comunicam sem palavras. As gaivotas pousaram em nosso redor, repousando das danças agitadas e dos voos errantes. Como se a tarde, já com o Sol feito de mil cores, fosse pretexto para o abandono dos nossos corpos à volúpia, ao êxtase intemporal.

 

Avelino Rosa

Odivelas, 24-12-2013

 

2012

 

Delírios

 

(Escrita quase indecifrável, quando aguardava operação ao coração, no Hospital da CUF / Infante Santo, que ocorreu a 12 de Janeiro)

O cenário sempre mudando, aos lados e à frente, colocado numa simples rua industrial ou em alto mar.

O que deveria ser (e é) um Hospital, mesmo nessa condição, parece mais um lobby de hotel ou, o cockpit de um navio, cada manhã.

Não importa o que seja, o que até pode parecer, simplesmente imaginando. Quero apenas saber o que me envolve, em que me envolvem estas sombras estranhas. Porque muda tudo à volta, porque me surpreendem quase constantemente.

Mas, afinal, não me parecem premonitoras de mudanças drásticas. Apenas experimentando-me e configurando caminhos. Moldando a mim e eu a elas.

Deve ser como quero renascer amanhã!

 

 

Quero entranhar-me nas paredes

deste edifício, que se transmuta

todas as manhãs

 Assim posso sair delas como simples erva

 Avançando devagar pela casa

nunca acabada

que morre e renasce todos os dias

numa agonia telúrica

que se esventra da terra

e geme, treme, remexe

e perpassa por todo o corpo

sintonizando tristeza e alegria

vontade de viver.

   

 11-01-2012

O acordar de hoje foi ainda mais de encontro aos anteriores.

Pronunciando um estilo campestre de mobiliário, que já não só mantém a função de UCI mas a prolonga num comércio geral de mobiliário e decoração.

A “loja” está cheia, a abarrotar de todo o tipo de utensílios, cedendo um pouco à técnica e medicina na área mais marcante da UCI.

O enfermeiro João no seu lugar de sempre, agora com roupa mais ar anos 50, continuando a olhar para o seu monitor, quase imutável.

 Não sei se quero levantar da maca/cama. Cada vez que fecho os olhos e os volto a abrir há uma mudança quase impercetível que se vai pronunciando, com ou sem reversão, como se pudessem ser seguidos a caminhar e dependessem de mim que isso acontecesse.

Não sei como. O enfermeiro João está impenetrável.

Só agora dou conta que consigo sair de onde estou. É como se me materializasse algures num outro espaço, meramente imaginário claro.

Não compro nada, não mudo nada, posso observar apenas, distribuindo e recebendo olhares, indecifráveis. 

12-01-2012

 

2011

 

Um cigarro apimentado

 

   Era uma tarde de sexta-feira. A empresa estava a menos de meio gás, com a maioria dos trabalhadores em ponte consentida devido ao feriado do dia anterior. Estava sozinho no meu gabinete de trabalho, um espaço de três secretárias, outro de apoio e uma pequena sala de reuniões, com uma mesa redonda e dois sofás individuais.

 

   A proibição de fumar aplicava-se ali sem excepção. Os fumadores inveterados ou comedidos, como eu, saiam dos gabinetes e iam até ao pátio aliviar o vício ou simplesmente dar dois dedos de conversa com outros colegas. De facto, todos os fumadores confluíam para aquele espaço aberto no interior dos dois edifícios da empresa, resguardando-se do sol ou da chuva sob um toldo que se prolongava das portas ao estacionamento das viaturas.

 

   Cláudia, uma colega de outro departamento, já a meio da tarde, entreabriu a porta do meu gabinete:

 

- Vamos dar uma passa?

- Vamos. – Respondi, mas pensando melhor: - Espera, estamos aqui sozinhos, vamos prevaricar!

- Prevaricar?!   - Indagou ela, num misto de interrogação e surpresa.

- Sim, vamos fumar ali na sala de reuniões. Ninguém dará por isso.

- Bem..., se tu achas...

 

   Dirigimo-nos à sala, abri a janela e sentámo-nos nos sofás que ladeavam a porta de entrada. Primeiro coloquei o cinzeiro, que continuava sem uso no meu gabinete, e coloquei-o sobre a mesa de reuniões, mais próxima da janela e a meio caminho entre os sofás. Depois, por cortesia, mudei-o para um dos braços do sofá onde ela se sentava.

 

   Fomos conversando e consumindo os cigarros. Um colóquio leve e fluente, que convergiu para o casamento do príncipe Albert II do Mónaco, com um certo sabor apimentado pelos anos de namoro com a ex-nadadora da África do Sul e as ligações anteriores, donde resultara dois filhos. Estávamos bem-dispostos, com aquele brilhozinho nos olhos que, inexplicavelmente, por vezes, provoca desatinos.

 

   Em intervalos regulares levantava-me e colocava a cinza no cinzeiro, ficando de frente e próximo dela. Quando o meu cigarro chegou ao fim, levantei-me de novo e apaguei-o, esmagando-o bem no cinzeiro. De repente, ela agarrou-me uma das pernas...

 

- Tens as calças sujas!... Olha para isto... Seu porcalhão...

- Tenho? Onde?

- Olha, aqui mesmo na braguilha... Deixa limpar...

 

   Com a unha do indicador direito, começou a raspar sobre a braguilha, tentando eliminar uma pequena mancha branca. Mas o polegar começou a roçar sobre o meu pénis que, em segundos, se avolumou.

 

- Vou abrir o fecho, para ver se limpo isto melhor...

 

   Perante a minha mudez atónita, Cláudia abriu o fecho das minhas calças, num gesto lento, como se esperasse ainda uma qualquer palavra ou reacção minha de não consentimento. Mas limitei-me, o mais discretamente possível, a colocar a minha mão sobre o pénis e a subi-lo do lado direito das calças para cima, colocando-o vertical ao meu corpo.

 

   Cláudia, com as duas mãos afastou as bandas da braguilha, vendo-se as cuecas brancas, já manchadas pelo líquido seminal.

 

- Pois... Acho que já sei porque tens as calças sujas... Há aqui qualquer coisa que está a provocar esta sujeira toda... Até as cuecas estão sujas... Vamos lá ver...

 

 

   Com um dedo sobre as cuecas, baixou-as até o pénis saltar para fora, já endurecido e derramando aquela baba que denuncia o desejo incontido:

 

- Pois... Cá está o causador desta sujidade toda... Vou ter de o limpar!

 

   Agarrou suavemente o pénis e levou-o aos lábios, lambendo-o no freio e depois à volta da glande.

 

- Pronto, agora está limpinho.

- Não, não... Acho que ainda não. – Balbucie eu, como se acreditasse que ela fosse mesmo parar por ali.

- Hum... Então queres que limpe mais?

- Sim, sim...

 

   Cláudia abocanhou o meu pénis, sorvendo-o sofregamente. Percorria-o da glande a meio, rapidamente, a ponto de temer atingir o orgasmo em poucos segundos. Segurei-lhe a cabeça com as mãos, passando eu a controlar o ritmo. Mais vagaroso e com movimentos mais amplos. Coloquei a mão esquerda na parede por detrás do sofá, com o apoio, e com a direita comecei a acariciar-lhe a cabeça, as orelhas, os seios, até lhe sentir os mamilos bem durinhos sob a t-shirt.

 

- Cláudia, pára um pouco.

- Não estás a gostar?

- Estou e muito mesmo... Mas se continuas, venho-me e só eu vou ter prazer.

- Não faz mal, não me importo.

- Importo-me eu. Estás molhadinha?

- Sim, muito. Acho que já passou para as calças. – Respondeu ela, num rubor e voz trémula entrecortada.

- Levanta-te então, vamos fazer amor. – Retorqui, ajudando-a a levantar-se do sofá.

- Mas aqui? Pode vir alguém.

- Não te preocupes. Fecho a porta. E hoje não aparece aqui ninguém, descansa.

 

   Acto contínuo, fechei a porta à chave e abracei-a, beijando-lhe os olhos, o pescoço e a boca, num beijo prolongado que foi do simples encostar de lábios molhados ao enrolar das línguas. Entretanto, fui-lhe abrindo o fecho das calças, depois retirando o cinto, até caírem sobre os pés. Rodeia-a então no sentido da mesa e num gesto suave, inclinei-a sobre a mesa, ficando semideitada sobe esta.

 

   Fiquei a observar-lhe o traseiro, perfeito e moreno, enquanto retirava os testículos pela braguilha. Abri-lhe as nádegas, contemplando o ânus, o perineo e a parte inferior da vulva, numa visão celestial. O líquido vaginal escorria, abundantemente, pelas pernas. Passei a mão direita na vulva, de baixo para cima, levando-a depois à boca e saboreando aquele néctar. Cláudia gemeu com a minha carícia...

 

- Mete, mete...

 

   Mantendo a mão esquerda a abrir as nádegas, com a direita acariciei-lhe de novo a vulva com o pénis, percorrendo-a algumas vezes na vertical até ao ânus. Cláudia gemia de prazer, insistindo:

 

- Mete, mete... Vá!

 

   Encostei apenas a ponta da glande na vagina. Afastei as nádegas, de novo com as duas mãos, e empurrei um pouco mais o pénis. Senti que era apertadinha. Mais um pouco e fiquei convicto que a ia magoar.

 

- Estou a magoar-te?

- Um pouco, mas não pares... Mete, mete.

 

   Empurrei mais ainda, mantendo as nádegas o mais possível  abertas, agora com os polegares mais próximos da vagina, alongando-a lateralmente. Um esguicho de líquido caiu-me sobre as calças. O pénis foi escorregando, devagar, entrando, entranhando-se, até aos testículos. Cláudia gemia de prazer, com os cotovelos sobre a mesa e as mãos sobre a cabeça.

 

   Vencida a resistência inicial, agora era possível entrar e sair dela com força, em movimentos cada vez mais rápidos, enterrando o pénis até aos testículos que batiam nas nádegas, com um som cada vez mais audível. Sentia-me próximo da exaustão. Cláudia aumentava o seu registo sonoro, esquecendo que alguém nos poderia ouvir. Não foi preciso perguntar-lhe se estava quase... Soube-o pelo seu gemido mais expressivo, exactamente no momento em que também me vim. Debrucei-me sobre ela, apoiando os braços ao longo do seu corpo sobre a mesa. Ficámos assim alguns minutos, recompondo-nos e sentindo contracções mútuas que nos faziam estremecer,

 

   Quando voltei a erguer-me, a vagina dela deixou escorrer uma quantidade enorme de esperma que, quase na totalidade, se alojou nas suas calças. As minhas estavam irremediavelmente manchadas nas pernas e na braguilha. Ao constatá-lo, ambos rimos, numa cumplicidade que prometia outras aventuras, talvez longe dali, sem quaisquer constrangimentos.

 

Odivelas, 02-07-2011

 

2007

 

A Fatinha e a Maria Olívia

 

     - Olha a Fatinha e a Maria Olíiiiiiiiivia! O Ângelo desatou numa gargalhada contagiante. O José, num de repente, caricaturara uma rapariga borbulhosa, encarnada como uma lagosta, que deveria esperar desesperadamente aquelas duas amigas, porque gritou numa vozinha esganiçada.

 

      Praia da Alagoa, na Horta, Conceição, nos anos setenta. Era Agosto e as lavadias haviam já tomado boa parte da areia, como a dizer-nos que o Verão acabara. Começavam a aflorar algumas pedras roladas que nos colocavam num dilema.

 

 

     Entrar num mar bravo assim e mergulhar sob aquelas ondas gigantes era, mais do que um divertimento, uma afirmação. Uma demonstração de virilidade perante as meninas que frequentavam a praia. Mas, vir enrolado numa onda, rodando e chocalhado como se estivéssemos no tambor de uma máquina de lavar, era confrangedor. E, naquela altura do ano, podia ser mesmo muito arriscado. Uma cabeçada numa pedra e as consequências podiam ser graves.

 

     Era esse o nosso dilema. Quando havia um, mais afoito, que desafiava, esquecíamos tudo. Mas, nalguns dias, o bom senso, que pouco então imperava, mandava-nos ficar na conversa de gíria e na apreciação mais directa das belezas da terra firme.

 

     E nesse dia, ficámos apenas pela galhofa. A Fatinha e a Maria Olívia e, pior ainda, a amiga que as esperava, eram mais feias que os calhaus rolados. O Ângelo ia insistindo na piada, mas os Lacerdas já pouco ligavam e eu comecei a fartar-me do chamamento das sereias que, por maior magia do sabor do mar e do cheiro da brisa, tardavam em transformar-se.

 

Lisboa, 10-10-2007.

 

Sobremesa saborosa

 

   Uma colega e amiga, que já não via há algum tempo, telefonou-me a pedir ajuda para a instalação de um televisor LCD, que acabara de comprar.

 

   Apesar da casa dela - que não conhecia, mas sabia ser uma vivenda algures em Mafra, ficar longe do meu local de trabalho e estar bastante ocupado nos próximos dias -, acedi ao seu convite para almoçar, entendendo-o como um gesto de simpatia para o incómodo que, provavelmente pensaria ela, teria ao deslocar-me tão longe.

 

   Marcámos para quinta-feira, ao meio-dia, num restaurante mesmo em frente ao Mosteiro, que conhecia, mas de quase não me lembrava. Como o final do dia e boa parte da tarde estavam, assim, comprometidos, tirei uma folga a partir das onze, pensando ainda aproveitar o resto da tarde para ir fazer algumas compras em atraso.

 

   Quando a encontrei, tive a sensação de que estava mais jovem. Cabelo curto, as faces rosadas e aquele olhar tímido e terno que entra na nossa alma. Um vestido comprido, com botões de cima abaixa, invólucro de uma mulher mediana, bonita e atraente. Assim como uma menina ainda, nos seus quarenta anos.

 

   Almoçamos, recordando os bons momentos dos anos em que trabalhámos juntos, numa empresa de Marketing. Riu-se quando fiz o meu pedido: frango de churrasco. Era como uma marca para quem conhecia esta minha preferência. A verdade é que estava delicioso e nem quis sobremesa, apenas o café e o costumeiro uísque. Ela, que saboreara com prazer um peixe grelhado, dispensou qualquer doce, na ausência de fruta. A insistência minha, confessou que estava a fazer uma dieta e que não a iria quebrar nem mesmo para ser simpática comigo, o que, naturalmente, entendi.

 

 

   Fomos no carro dela, já que a casa se situava nos arredores de Mafra e estava habituada ao percurso. Era uma vivenda de três andares, com uma garagem e um quintal amplo que, confesso, me fez alguma inveja. Mostrou-me cada um dos andares, decorados de uma forma extremamente cuidada e agradável. Sabia do bom gosto dela, mas as minhas expectativas foram, em muito, superadas.

 

   O televisor que comprara era para ser instalado no quarto de dormir. Assim poderia ver televisão na cama. Esta era uma peça antiga de madeira trabalhada, alta, no estilo que ela mais gostava. A instalação foi simples. Limitei-me a colocá-la sobre um móvel e ligar os fios, disfarçando-os entre a parede e o tecido que cobria a mesa até o chão.

 

   Ela agradeceu-me com um beijo na face. Brincando, perguntei-lhe como conseguia subir para uma cama com aquela altura, ao mesmo tempo que, abeirando-me, a media face à minha estatura. Ela, com um sorriso, respondeu-me que era apenas questão de hábito apesar de ser bem mais baixa do que eu.

 

   Como para exemplificar, colocou-se ao meu lado. Não sei porquê, coloquei o meu braço direito sobre os seus ombros, talvez para... Ela agarrou, de imediato, a minha mão, em silêncio. Puxei-a, devagar, até ficarmos encostados. Voltei-a para mim, sempre com os corpos colados, e beijei-a na testa, nos olhos, na boca. Ela roçava-se, devagar. Entrelaçámos as línguas, cada vez com mais ardor, com mais paixão. Enquanto lhe ia subindo o vestido, centímetro a centímetro, até lhe sentir a pele, suave, macia. Acariciei-lhe as pernas, um pouco a medo, depois, mais ousado, procurando o seu interior, sempre subindo... Até os meus dedos, a mão, ficarem húmidos... Massajei-a sobre as calcinhas e afastei-as, aos poucos, metendo os dedos dentro dela, acariciando-a, esfregando-o, sentindo-a escorrer, quente e molhada...

 

   Ela começou por esfregar o meu pénis sobre as calças. Depois abriu a braguilha e puxou-o para fora, acariciando-o da cabeça aos testículos, massajando-o com a baba que ia saindo. Estava grande e duro. E ela apertava-o, puxando-o para si.

 

   Estávamos no ponto de não retorno. Cheios de tesão. Levantei-a e sentei-a sobre a cama, com as pernas dela em cima dos meus ombros. Afastei-lhe as calcinhas com uma mão e com a outra rocei-lhe a cabecinha do pénis na vulva e no clitóris, o que lhe ia provocando gemidos de prazer. Quando o empurrei, de repente, pela vagina adentro deu um grito que me pôs mais louco ainda. E nunca mais parou de gemer e de gritar, pedindo-me para enterrar mais e mais, para não parar... E eu sentia o meu pénis apertado na vagina dela, entrando e saindo, comendo-a com um tesão que há muito não sentia.

 

   Durou apenas uns minutos. Viemo-nos, bem agarrados, com as línguas enroladas, a ferver. Quando pensava que já tínhamos acabado, um espasmo da vagina fez-me vir ainda mais um bocado. E ficámos assim, um no outro, saboreando as contracções, até o esperma começar a escorrer para o chão.

 

..............

 

   Quando voltei para casa, esquecendo as compras que tinha de fazer, sentei-me no sofá e tentei ver um pouco de televisão. De repente, só de pensar no que acontecera, fiquei de novo com tesão e tive de masturbar-me, pensando nela, no calor da sua vagina, que quase derretera o meu pénis , e em tudo o que me dera uma prazer imenso.

 

 Lisboa, 01-10-2007

 

2006

 

Hoi Fu Garden

 

     Xeng Vui era uma rapariga chinesa, de pais oriundos de uma pequena aldeia da Província de Cantão. Nascera em Macau e por aqui se quedou, medrando nas milenares tradições de uma China ora profunda ora pragmática, com um leve aceno de leque aos bárbaros do Ocidente.

 

     Aos vinte e poucos anos, licenciada em qualquer coisa pela Universidade da Àsia Oriental, precursora da Universidade de Macau, foi tomada pelo touro da ambição e embarcou pela noite. O emprego no Banco esfumou-se nas salas de jogo, por entre muitos cigarros e alguns bons charutos de uma clientela fria, de rostos impenetráveis, mas mãos largas nas noites de glória.

 

 

     O Ano Novo Chinês aproximava-se inexorável. Era tempo de realizar o deve e o haver. Não necessitou de muitos minutos para confirmar que o saldo negativo era impossível de contrabalançar. Mesmo os amantes mais ricos recusariam qualquer ajuda. Estava na mão dos agiotas e sem quaisquer recursos para apaziguar as suas exigências.

Sobreveio-lhe a calma de quem sabe que esgotou a vida. Vestiu a sua melhor cabaia, olhou, por segundos, o retrato dos pais, em pose a preto e branco, abriu a porta da varanda que dava para o interior do arranha-céus e, sem demoras, às 5:30 horas da manhã, mergulhou no voo da libertação.

 

     Manchas de sangue alastraram sobre a placa do parque de estacionamento,  à volta do carro que a acolheu. Acorreram alguns curiosos, despertados do Majong pelo embate seco, e o pesaroso proprietário do veículo amolgado, sem histerias ou alaridos. A vida e a morte não se cantam nem se choram, apenas se registam. Foi o que fez um médico das Urgências do Centro Hospital Conde de São Januário, ao certificar o óbito de Xeng Vui, poucos minutos depois de ali ter chegado a ambulância que retirou o seu corpo do Hoi Fu Garden.

 

Vilamoura, 23-06-2006

 

Chamamento da sereia

 

   Tailândia, Puket, Royal Wing Hotel, Karon Beach. Soerguido sobre a cadeira de descanso, Daniel observava uma nórdica, avermelhada pelo sol, cabelos louros escorridos, que ladeava a piscina num passo de manequim na passerelle.

  

   Um pássaro preto, semelhante a um melro, debicava migalhas de um bolo deixado por uma criança junto a um estreito escoamento da piscina, com parte da cobertura semi levantada, alternado com uns goles de água.

 

   De repente um gato malhado, de cinzentos, brancos e amarelos, vindo do nada, abocanhou o pássaro, à distância do próximo passo da nórdica. Esta estacou, assustada. Depois, num gesto já tardio, tentou agarrar o felino que, entretanto, desaparecera com o pássaro, pelos arbustos do jardim. Olhou em volta, à procura de apoio para a sua reprovação. Indiferença total.

  

   Daniel, colocado um pouco à direita do cenário de violência e agora mesmo em frente à nórdica, esboçou um sorriso condescendente, com um leve encolher de ombros. Ela olhou-o em profundidade, como se hesitasse em reprová-lo ou em entender o significado dos sinais. Com voz de gelo indagou-o, em inglês:

      - Porque não fez nada?

      - Bem, primeiro porque não me apercebi e depois porque foi uma situação normal, apesar de desagradável.

      - Acha normal um gato apanhar um pássaro mesmo à nossa frente?

      - Sim. Porque é simplesmente a luta pela sobrevivência na natureza. Como lhe disse, é desagradável, mas normal.

      - Você, você...

  

   A face ruborizou, num típico ataque de cólera, mas conteve-se e refugiou-se no Hotel, em passo apressado. Daniel ficou apreensivo. Talvez pudesse ter sido mais polido, mais compreensivo. Dando-lhe razão e esboçando alguma desculpa poderia ter agarrado a oportunidade de conhecer melhor aquela nórdica que seguia com o olhar já há alguns minutos. Bem, perdera definitivamente a oportunidade.

 

 

   À noite, Daniel jantou no Hotel. Estava ali simplesmente para descansar de uns esgotantes bons meses de trabalho e dispensava, normalmente, qualquer saída daquele espaço polivalente. A polivalência, neste caso, traduzia-se numa piscina de dimensões razoáveis com um pequeno bar numa das cabeceiras, um restaurante, sauna e massagem e uma sala de jogos. Tudo o que era necessário a Daniel para relaxar e retemperar forças.

  

   A meio do jantar, a nórdica entrou. Nem deu por ele e sentou-se numa mesa mais ao fundo do restaurante. Daniel quase agradeceu não ter de receber novo olhar de gelo. Concluído o jantar, pediu um digestivo e ficou a saborear uma cigarrilha, atento às danças e músicas típicas que brindavam os turistas.

  

   Já passava das 22 horas quando desceu até à zona de lazer, quedando-se pela sala de jogos vazia. Pegou numa raquete de ténis de mesa e numa bola, exercitando sobre a mesa uns toques de efeitos. Nunca fora campeão nesta modalidade desportiva, mas tinha algum jeito e, geralmente, batia todos os parceiros.

      - Quer jogar?

  

   Daniel ficou estupefacto. A nórdica estava ali a convidá-lo para um jogo de ténis de mesa.

      - Claro. Com muito gosto.

  

   E jogaram. Ou melhor, jogou ela. Nunca passara pela cabeça de Daniel perder jogo após jogo, sem qualquer hipótese. Havia que considerar a possibilidade dela ser profissional... Mas não era. Apenas um hobbi de Universidade. Aliás, as férias dela eram uma espécie de final de curso oferecida pelos pais, após a licenciatura em Biologia. Sueca, Erica, era como se chamava, tinha 25 anos. Daniel, português, com 35 anos, licenciado em Direito, sentia-se entre o chamamento da sereia e o desconforto de quem não acredita em milagres. Ambos solteiros, sem compromissos... E o olhar de gelo parecia degelado. Pela superioridade dela no jogo ou pelo esquecimento de Daniel? Simplesmente porque estavam sozinhos, distantes dos seus países?

      - Olhe, quero pedir-lhe desculpa...

      - De quê?!

      - Da nossa conversa à tarde. Acho que fui um bocado rude. A verdade é que também fiquei chocado...

      - Acredito, mas, reflectindo, acho que você tinha razão. Não podemos nem devemos interferir com a natureza.

      - Concordo, mas podia ter reagido de um modo mais simpático. Peço-lhe desculpa.

      - Desculpado...

  

   A meia noite chegara. Foram conversando até às proximidades da piscina, agora com as luzes apagadas. A água reflectia apenas os raios de uma lua ténue, embrulhada em farrapos de núvens altas. A ideia foi dela... Despiram-se, ficando apenas com a roupa interior e deslizaram até junto do bar. Os bancos ficavam dentro de água à altura da pélvis.

  

   Erica sentou-se num dos bancos. Daniel, de pé, abraçou-a. Beijaram-se, trocaram carícias... Depois..., depois, o esperma não acolhido subiu à superfície, numa mancha esbranquiçada que um raio de luar alumuou

  

   Na manhã seguinte, Daniel contava encontrar Erica ao pequeno-almoço. Era o prometido. Mas não apareceu. Preocupado, foi até ao seu quarto. Ninguém respondeu. Dirigiu-se à recepção... Erica tinha abandonado o Hotel às 7:30 horas.

  

   Daniel recorda este dia como o do chamamento da sereia. Sereia que, até hoje, povoa os seus melhores sonhos de verão.

 

 Vilamoura, 01-07-2006

 
 
 

 

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