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Poesia - 2016 / 2018

 

 

2018

 
  Não sei do amor  
     
 

Não sei do amor

e mais ninguém saberá

quantas vezes tenho

de dizer, saber

que outra mulher virá

 

Só, na cama desfeita

de pranto e carente

de um corpo quente

de um beijo que arde

nos lábios, na boca

semente de paixão

que explode louca

no meu e teu coração

dilacerado e ausente.

 

Avelino Rosa

Odivelas, 18-03-2018

 
     
  Não tenho medo  
     
 

Não quero saber dos achaques

que podem adiantar o meu corpo

nem dos males que me possam atingir

nem da piedade que me possa ungir

 

Apenas me preocupa ver no teu olhar

a sombra de desespero que deturpo

debitando decibéis de sons sem nexo

perplexo eu, nas luzes multicolores

abutres adivinhando a longa agonia

 

Só tenho medo por ti, da vida sofrida

do sacrífico que a nada leva e consola

do amor sem alimento e do amargo

do sabor das violetas roxas e mortas

 

Lembra-me, descolorido, espalmado

e inerte, entre as folhas de um livro!

 

Avelino Rosa

Odivelas 08-03-2018

 
     
  Orquídea  
     
 

Uma orquídea é um regalo

um conto a tua magia da noite

debruada a tapete de Arraiolos

ponto, por ponto, representando

a parte da soma dos pedaços

que podes apresentar como vida

onde sou o fio, liso e descontinuado

argamassa efémera e intermitente

 

Por isso entendo as tuas lástimas

a ausência e rudeza das mágoas

as meias verdades dos factos

a que reconheço o direito da verdade

 

Nas entrelinhas das mensagens

jogamos as emoções e a realidade

não sei, nunca saberei, o porquê

deste amor que não me liberta

nem me despega de ti e da memória

que permanece para além das zangas

mesmo que demandas de ultimatos

 

Deles, já farto, volto a repetir tudo

do nada que me tinha imposto, o mosto

do vinho que me refaz o domínio breve

da liberdade, da vontade de te esquecer

 

Já não sei, não sei mesmo, como te amar

neste vórtice de sensações e emoções

em que morro e renasço, ao sabor 

dos teus argumentos e explicações.

 

Avelino Rosa

Odivelas, 03-03-2018

 
     
  Dos meus olhos a tua cor  
     
 

Dos meus olhos nasce a cor

dos teus cabelos emaranhados

do teu rosto moreno e quente

do teu nariz arrebitado e ausente

dos teus lábios serenos fechados

 

É assim que te vejo com a dor

do tempo que se esvaiu vazio

de segredos e medos entrançados

nas entranhas estranhas do corpo

ímpio e belo, morto e ressuscitado

sopro, apelo e beijo furtivo amado

 

O fado da cor de que vivo espoliado.

 

Avelino Rosa

Odivelas, 16-02-2018

 
 

2017

 
  Sempre me apeteces  
     
 

Sempre que me apeteces

o momento é de espanto

 

Confundidos na volúpia

das coisas simples e eternas

nos corpos renasce a energia

da hora, do dia, do cosmos

quedando apenas no infinito

 

Quando as searas aquietam

e o sol tomba no horizonte

fico à espera do teu abraço

do teu corpo trémulo e ainda morno

na minha pele adormecendo

 

Até que

me tome de novo o espanto

de te amar tanto.

 

Avelino Rosa

Odivelas, 05-11-2017

 
     
  O nó  
     
 

O nó é apenas o fim

da corda que me envolve

tolhendo-me os movimentos

anulando-me

 

Tento, em vão, desfazê-lo

detectando as sinuosidades

rebuscando os fios emaranhados

para inverter o processo

mas apenas consigo

apertar mais, amarrar

a vontade de ser livre

 

Regressei nas águas das marés

enredadas de breu e penugem

das gaivotas que desistiram

 

de voar.

 

Avelino Rosa

Odivelas, 05-11-2017

 
     
  Fado choradinho  
     
 

O fado assim choradinho

Puxado ao sentimento

É trinado, coitadinho

É a alma deste cantinho

Palavras lançadas ao vento

Sopro de novo alento

 

Quem diz que odeia o fado

É porque não sente nada

E nada mais já lhe empresta

O coração despedaçado

 

O fado também é pecado

É um beijo sentido

É ciúme apaixonado

Um olhar arrependido

 

É um amargo de boca

Uma saudade perdida

No cais de uma doca

Murmúrio de despedida

 

É um veleiro que parte

De asas brancas ao vento

É uma dor que agarra

Que tolhe o movimento

 

É uma secura sem sede

O desafio ao sentimento

O abandono à loucura

Uma alma em sofrimento

Ser magoado que se despede.

 

Avelino Rosa,

Odivelas, 05-11-2017

 
     
  Palavra engaiolada  
     
 

Engaiolei uma palavra

bem fechada e num canto

da casa já de si cinzenta

 

Era uma palavra doce

que não queria fonetizar

e que teimava, permanentemente

sair a voar, espalhando boatos

 

Bem fechada, emudeceu

secou, cerrando e colando

os lábios gretados e exangues

 

quando a quis pronunciar

tinha morrido!

 

Avelino Rosa

Odivelas, 29-10-2017

 
     
  Cabelos flamejantes  
     
 

Os teus cabelos são chamas

que incendiam, ardem o meu corpo

imolado à floresta verdejante

silenciada nos meus pensamentos

 

Mergulho nos sonhos de lava

das pedras que protegem as uvas

património da Humanidade

lembranças de mim que também

vêm do vulcão e da lava expelida

que fez nascer o homem e as coisas

 

No meio do turbilhão pueril

os teus cabelos flamejantes

dão vida à noite onde moro

sempre inconsequente!

 

Avelino Rosa.

Odivelas, 19-10-2017

 
     
  O "Coice" da "Mula"  
     
 

O “coice” da “mula” foi violento

mais assim como uma patada

apaixonada, no auge da refrega

“reset” de um coração tresloucado

travado dos cento e vinte aos sessenta

de repente, estômago vazio colado

à espinha esticada sobre a cama da UCI

aqui onde tudo acontece, célere e lento

da morte ao milagre da vida renovada

o mistério inexplicável do momento.

 

(Aos meus médicos e aos enfermeiros

da UCI da CUF / Infante Santo, a propósito

da recente cardioversão elétrica)

 

Avelino Rosa

Lisboa, 27-03-2017

 
     
  Não é desta ainda  
     
 

Não será desta ainda

sou duro de roer…

Vem Ela, personalizada

viúva das noites sombrias

tecer teias finas, frias

esfomeada das presas

carentes e desbotadas

das crenças e dos nadas

rasgadas de prantos à capela

mistela de sabor a fel amargo.

 

Assim ficarei, quedo, expectante

que o meu herói é o Infante

que ainda me faz perscrutar

terras, gentes e ninfas por sonhar.

 

Naufragarei apenas no meu mar!

 

Avelino Rosa

Odivelas, 24-03-2017

 
     
  Não sei se é adeus  
     
 

Não sei se é adeus

até amanhã

um destes dias

ou até sempre

 

Mente quem sabe

que a vida se esgueira

como uma enguia

até ao momento

da derradeira vitória

da solenidade

 

É como nos põem

atinadinhos, nós

que desatinámos

desafiámos a loucura

e sobrevivemos a tudo

ingénuos e indecentes

de demasiada ternura

 

A arritmia dos minutos

vividos intensamente

vinga-se agora, latente

garra e punho quentes

rasgando do peito

a vida em derepentes

feito o corpo estátua

fugaz dos últimos olhares

já quase indiferentes

 

Somos nós assim. No fim.

 

Avelino Rosa

Odivelas, 23-03-2017

 
     
  Querer e sonhar  
     
 

Não me acontecia nada,

nada do que eu queria

sentir, viver, saborear…

 

O Mundo esquecera-me…

Lia, procurava, escrevia,

mas morrera para todos.

Nem a fantasia de imaginar

me levava ao final de nada.

 

Morri nos idos de Maio,

imaginando que era capaz

de sonhar!

 

Avelino Rosa,

14-03-2017

 
     
  Relicário  
     
 

Sei que pouco tempo me resta

mas todo o que passo contigo

é redenção do tempo perdido

 

Murmúrios tímidos, naufragados

no tempo, consentido e fadado

para a talha dourada de altar

onde a memória escorre devagar

no relicário, onde bem guardada

permanece a nossa história.

 

Sei que pouco tempo me resta

mas todo o que passo contigo

é redenção do tempo perdido.

 

Avelino Rosa

Odivelas, 04-02-2017

 
     
  O lado negro dos teus olhos  
     
 

Estou do lado negro

dos teus olhos

por detrás desses lasers

cortantes e sombrios

que despem e despojam

os que encantas e destróis

num passe breve, vindo do nada

de menina mal comportada

 

 Ao nada voltas, redescobrindo

novos sortilégios, novos incautos

repetindo sempre as mesmas

e mais rebuscadas brincadeiras

bebedeiras do teu ego mimado

 

Do teu lado negro

cego e depravado, observo apenas

sorrindo e enfadado.

 

Avelino Rosa,

Lisboa, 24-01-2017

 
 

2016

 
  IPa Pui Sá  
     
 

Pa pui sá

leca, teca, peca

pardaleca

 

Pita, fica, pica

framboesa, siricaia

pardalita

 

Sal apimentado

inesa de madrigal

jorrado

 

Mui tó sái

perdido em ti

fi, fi.

 

Avelino Rosa

Odivelas, 04-12-2016

 
 
  Infinito  
     
 

Meu pai semeou

minha mãe, terra fértil

 

Vim do infinito

e ao infinito retornarei

 

Esquisito este vaivém!

 

Avelino Rosa

Odivelas, 03-12-2016

 
 
  Intervalo  
     
 

No intervalo

que é quando eu falo

- a tempo incompleto -

fazes alusões

- a tua verdade

críticas pela metade -

e tiras conclusões

 

Então eu reformulo

tento ser mais claro

mas ficamos na mesma

- eu enfadado e mudo

tu senhora de tudo –

Nem sei qual a ofensa

inventada ou recriada

 

E ficamos assim, amuados

num silêncio angustiado

centrados  no umbigo

à espera que a tempestade

passe e aqueçam os corpos

e a paixão nos consuma

em carícias, ais e gemidos

trocando todos os sentidos.

 

Avelino Rosa

Odivelas, 03-12-201

 
 
  O cigarro e o uísque  
     
 

O cigarro e o uísque

afogam as mágoas

que não tenho

 

- porque sinto para além

da mágoa e da dor reais?

 

Desisto das explicações

metafísicas e desordenadas

de uma mente que não pára

de escavar fossos profundos

e de avolumar montanhas

de e do nada.

 

Avelino Rosa

Odivelas, 27-11-2016

 
 
  Tão perto e longe  
     
 

Tão perto estávamos

que umas palavras mal ditas

guilhotinaram o espaço

 

e a lonjura reacendeu as brasas

dúvidas antigas ainda mal apagadas

mornas na indiferença aparente

do nosso olhar de recato e espanto

que gela e incendeia a cada instante

 

Perto estávamos e agora tão longe

de novo pelo poder do que foi dito

e mais ainda do que ficou por dizer

retido talvez no velho  baú de cânfora

com o cheiro intenso e de mistério

que nos contagia sem remédio.

 

Avelino Rosa

Odivelas, 01-11-2016

 
     

 
  Rima da vida  
     
 

(Refrão)

Se há rima é uma só uma

a que te digo ao ouvido

com que te quero convencer

a fazeres amor comigo

 

(Refrão)

 

E é tão intensa a vontade

tão premente  o meu desejo

quero-te agora, neste instante

ao sabor molhado do nosso beijo

 

(Refrão)

 

Depois não sei que te diga

mas quero que fiques a meu lado

que me abraces com ternura

dando sentido a este fado.

 

(Refrão)

 

Avelino Rosa

Odivelas, 05-10-2016

 
 
  Beijo pesadelo  
     
 

Era uma vez, alguém que fez

de um beijo um pesadelo

Encontrou o amor da vida

e num desvelo, apaixonado

deixou-se levar, abandonado

pela doce letargia do sonho

 

(Refrão)

Onde ponho os meus segredos

fantasiados de medos,  degredos

na loucura do desejo breve e puro

no escuro dos lençóis alados?

 

Olhar enfeitiçado, voz dormente

boca sôfrega, molhada e quente

vontade de ti, sempre presente

saboreando o teu corpo suado

morrendo na entrada para o céu

de um mundo sôfrego e abençoado

 

(Refrão)

 

Sinto ainda o teu cheiro imaculado

que me eleva a santo tresloucado

o teu sabor a néctar, que embriaga

e me causa espasmos, um estertor

um quase milagre da vida parada

que renasce em pleno esplendor.

 

(Refrão)

 

Avelino Rosa

Odivelas, 05-10-2016

 
 
  Vou depressa, vou embora  
     
 

Vou depressa, vou embora

dar às de Vila Diogo

o meu amor tem pressa

de partir

 

(Refrão)

Parto ausente de mim mesmo

buscando-me neste caminho

quero encontrar a alma perdida

no vão da escada apertadinho

onde lambi no corpo cada ferida

 

Vou depressa, vou embora

o meu amor já me espera

quer ir para o Alentejo

lá para os lado de Mora

adeus ó Tejo

 

(Refrão)

 

Vou depressa vou embora

não sei qual é a pressa

do meu amor perder-se no Alentejo

em Mora, Redondo, Elvas ou Beja

para mim são todas quentes

suam como Ela.

 

(Refrão)

 

Avelino Rosa

Odivelas, 05-10-2016

 
 
  Não sei que dirão de mim  
     
 

Não sei que ficará de mim

na memória dos que me fazem

sentir verbo e ser por inteiro

- homem, amigo, amante da vida

 

Não sei que dirão de mim

depois das horas de vigília e olhar

perdido no cansaço das despedidas

sem beijos ou abraços consentidos

abandonado ao calor dos corpos

magoados e já em modo de saudade

a matar pela Páscoa, Verão ou Natal

 

Não sei que dirão de mim

sabendo que não venho mais aqui

a outro lugar ou em nenhuma estação

porque parti numa viagem sem regresso

pelo universo por que me espalho

nas múltiplas centelhas de nadas

 

Não sei que dirão de mim

quando já nem uma memória houver

quando um texto nem for pretexto

para desfolhar o autor que o escreveu

- a biografia algures ao canto da folha

do papel vencido pelo tempo inexorável

 

Não sei que dirão de mim…

Mas posso dizer, com certeza, antes de partir

que quero viajar, apenas em pó, pelo mar

e navegar, como sempre, entranhado

no mistério da imaginação e do desafio

que dá consistência aos seres vulgares.

 

Avelino Rosa

Odivelas, 05-10-2016

 
 
  Quando morremos  
     
 

Quando morremos

morremos mesmo

frios, impávidos, esbranquiçados

de olhos fechados, serenos

- é assim que nos vêm

direitinhos e aconchegados

no caixão mais ou menos elaborado

 

Morremos tal e qual

assim mesmo, finados, sem mais

- se uns ainda suspiram uns ais

outros, cumprindo calendário,

riem ao fundo, sob o fumo do cigarro

em conversas triviais e de reencontro

que faria morrer de novo o defunto

 

Morremos e pronto

- e ainda bem que partimos sem destino

há que descansar de todo este desatino.

 

Avelino Rosa

Odivelas, 03-10-2016

 
 
  Prece  
     
 

Ergo os braços ao céu

com os punhos cerrados

invocando as forças ocultas

da natureza selvagem

 

Não sou eu e as plantas e árvores

amolecido, sem voz e indefesas

É a sobrevivência, como entidade

que me impele à prece silenciosa

que projeto no espaço carregado

de cinzentos e dilúvios dispersos

 

Um arco-íris nasce imponente

Nos dedos reluzentes de gotículas

pousam duas borboleta multicolores

 

O meu mundo ainda tem vontade

- renasce sempre do sonho apetecido.

 

Avelino Rosa

Odivelas, 18-09-2016

 
     
  Lua magoada  
     
 

A lua magoada

adormece no lago

Eu, atormentado

escureço na areia

 

Se canta a sereia

eu não sei cantar

morro enregelado

longe do meu mar

 

Ela amargurada

estende o seu manto

Deixei de amá-la

para meu espanto

 

Trago cigarras

na voz enrouquecida

guitarras de pranto

nas veias ardidas.

 

Avelino Rosa

Odivelas, 25-08-2016 

 
     
  Decadente  
     
 

Decadente, não

recuso o epiteto e menosprezo

de quem, impotente, estende

a agonia própria aos outros.

 

Homem ou mulher, fedem

no insulto barato e insensato

julgando que o seu próprio drama

que os impede de realizar

contagia toda a humanidade.

 

Mas não. Há quem mantenha

o sonho, a ternura e  a paixão

como condimentos da vida real

sem rodeios e constrangimentos

bebendo a vida em cada gole

 

- saboreado o copo cheio da vida.

 

Avelino Rosa

Odivelas, 15-08-2016 

 
     
  Quando eu morrer  
     
 

Quando morrer que seja breve e indolor o instante.

Que ninguém sofra por mim, apenas me lembre por um momento.

Se renascer, que seja figura de prova de navio que desafia o mar.

As ondas não são tormento mas escolhos da estrada a navegar.

Vou assim, Infante, sobre um mapa, de rumos traçados pelo sonho

de ir e não voltar.

 

Avelino Rosa

Odivelas, 23-07-2016 

 
     
   
     
 

 

Fui indo

 

Mata-me a saudade

dos amores inconseguidos.

 

Avelino Rosa

Odivelas, 21-06-2016

 
     
  Marinheiro  
     
 

O homem trazia navios no olhar

na boca um cachimbo de âmbar

esvoaçava em gaivotas perenes

que desaguavam em lugar nenhum

 

se navegara pelo Mundo

muitas tormentas passara

a pele curtida em sulcos profundos

mostrava quilhas de navios afundados

leitos secos de rios empedrados

 

nunca  mais vi o homem

que do cais olhava o mar ao longe

vendo a vida passada aos bocados

os portos de abrigo e prazer

que lhe haviam sido dados

 

não vi um sorriso, um olhar brilhante

senti apenas que estava distante nele

no seu mundo a saudade de ser navegante

 

gaivota errante, na pureza do fim da tarde.

 

Avelino Rosa

Odivelas, 03-06-2016

 
     
  Já não me amas  
     
 

Perdeste o sabor dos meus beijos

o toque mágico das minhas mãos

as carícias suaves à flor da pele

o fogo que incendia a paixão

 

O vulcão já não deslumbra

limita-se a estremecer os corpos

a expelir lava cansada de solidão

 

Porque já não me amas.

 

Avelino Rosa

Odivelas, 01-06-2016

 
     
  Palavras circunstanciais  
     
 

As palavras

são lírios

ou punhais

 

que florescem

primaveras

ou destroem,

letais

 

As feridas perduram

para além dos golpes

mortais.

 

Avelino Rosa

Odivelas, 28-04-2016

 
     
  Tapete de Arraiolos  
     
 

Mágoa magoada

do nada que era

tudo e universo

primavera e silêncio

agora informe

aroma de incenso  

pedaço, bocado

tapete bordado

de Arraiolos talvez

ou de Portalegre

tapeçaria, ponto de nó

o pesponto que me fez

ter dó de mim mesmo

 

Libertar-me, nem é

morte ou vida

apenas cansaço

de tanta despedida.

 

Libertadora

a morte

na dualidade.

 

Avelino Rosa

Odivelas, 09-04-2016

 
     
  Já não choro  
     
 

Já não choro

porque não tenho mais lágrimas

para derramar

 

Foram tantas e tantas

que o rio secou, deixando as margens exangues

um ou outro tronco encalhou

nas rochas talhadas na montanha

pelas águas cristalinas de outrora

- estreitando-me o caminho

 

Não chegarei à foz

tolhem-me os pedregulhos do leito

e o corpo cansado, quase desfeito

ansiando pela maresia que sinto ao longe

mas que nunca irá inundar a secura

e arrastar-me para onde queria naufragar

- o meu mar.

 

Avelino Rosa

Vilamoura, 26-03-2016

 
     
  Sou mineiro (Cante alentejano)  
 

para o Grupo Coral de Aljustrel

 
 

Sou mineiro

sou toupeira

cavo, escavo

minha campa

 

cangalheiro

na cegueira

esqueço o medo

segredo da vida

dura e madrasta

 

trago sarro

tusso, escarro

minha sorte

abandonado

 

companheira

a minha morte

há de ser terra

tua lembrança

sabor a amargo

 

adeus amor

sei que vou partir

a dor é redentora

para mim és tudo

e a vida já nada

 

adeus amor

até à madrugada

 

Avelino Rosa

Odivelas, 22-03-2016

 
     
  Ontem morri  
     
 

Ontem morri

esmagado pela pedra

que ocupou o teu peito

 

Culpa minha

tê-la deixado crescer

assim tão dura e fria

sempre a anoitecer

 

Ontem morri

ainda sonhando contigo

com a mão redentora

inimigo de mim mesmo

 

Ontem morri

hoje, amanhã, outra vez

talvez não volte nunca

do jazigo sem epitáfio

 

debaixo dessa pedra de marfim.

Avelino Rosa

Odivelas, 17-03-2016

 
     
  Flor de lava  
     
 

Uma flor brotou da nudez pura

de uma pedra de lava simples e rude

Cresceu majestosa, colorida

como um arco íris tresloucado

 

Alguns admiraram simplesmente a beleza

outros, o milagre da vida mistério improvável

e mais uns quantos, fundados em razões

científicas e de lógica, em coro, concluíram

que a flor era a reacção cósmica e colateral

consequência emanada do núcleo do vulcão

 

- A vida existe, porquê a queremos viver

e muito para além da ignorância humana.

 

Avelino Rosa

Odivelas, 12-03-2016

 
     
  O nosso ritmo  
     
 

Vou repetir-te, devagarinho,

com a voz colocada na garganta:

Aamoo-tee! E assim o som ressoa

um bocado ridículo e deprimente

com o jeito da gente enamorada,

mas autêntico, original, verdadeiro

em cada singular momento.

 

Não quero saber de nada:

rima, fonética, sonoridade…

apenas o nosso ritmo louco,

ora extasiado no olhar lento

ora acelerando cada partícula

dos corpos incandescentes.

 

Não quero saber de nada:

apenas que me sinto em ti,

sempre dentro de ti. O prazer

é ter-te colada, pronto a morrer

de tanto amor feito e sonhado

- quente e molhado!

 

Avelino Rosa,

04-02-2016

 
 
 

 

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